Caso aconteceu na noite de 23 de janeiro deste ano, quando Tales jantava com amigos no restaurante (Arquivo Pessoal) O Juizado Especial Cível de Santos proferiu uma decisão de primeira instância condenando um restaurante na Rua Tolentino Filgueiras, no bairro Gonzaga, a pagar oito salários mínimos — valor equivalente a R\$ 12.144 — ao ator e produtor Tales Ordakji, de 27 anos. A sentença foi publicada nesta semana, mas ainda cabe recurso por parte do estabelecimento. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O caso aconteceu na noite de 23 de janeiro deste ano, quando Tales jantava com amigos no restaurante. Segundo ele, enquanto comia um poke havaiano com salmão cru, percebeu que havia uma barata viva se mexendo no meio da comida, mesmo já tendo consumido parte do prato. O ator relatou náusea, indignação e temor de ter contraído alguma doença, como febre tifoide ou hepatite A. A defesa de Tales anexou ao processo fotos e vídeos do momento, além de mensagens trocadas com o estabelecimento. Apesar de o restaurante ter liberado o pagamento da conta e pedido desculpas, o advogado de Tales, Bruno Macedo Sacco, afirma que, posteriormente, o estabelecimento enviou uma notificação extrajudicial responsabilizando o cliente pela repercussão negativa do caso nas redes sociais. O restaurante chegou a ameaçar entrar com uma ação por danos morais contra o ator, sob alegação de que ele teria prejudicado a imagem da marca. Segundo o documento, durante o andamento do processo, os proprietários do restaurante apresentaram um pedido contraposto, solicitando uma indenização de R\$ 60 mil (equivalente a 40 salários mínimos), alegando terem sido vítimas de excesso na divulgação do episódio. O juiz, no entanto, negou o pedido do restaurante e considerou que houve falha na prestação de serviço, acolhendo parcialmente o pedido de Tales, que havia solicitado inicialmente R\$ 15 mil. A defesa de Tales chegou a negociar um acordo com o restaurante. Segundo o advogado, foi oferecido o pagamento de R\$ 5 mil, mas a proposta foi recusada após a exigência de cláusulas consideradas abusivas. Entre elas, estavam o sigilo absoluto sobre o caso e a proibição de Tales frequentar qualquer unidade do restaurante, com multa de R\$ 5 mil em caso de descumprimento. “Rejeitamos esses termos por entender que pareceria que ele estava assumindo alguma culpa, o que não ocorreu”, afirma Sacco. O juiz entendeu que a presença de um inseto vivo no alimento ultrapassou os limites do mero aborrecimento e representa risco à saúde, configurando assim dano moral indenizável. A sentença cita que a conduta do restaurante feriu o Código de Defesa do Consumidor, que assegura o direito à segurança e à reparação por danos. Então, o juiz atribuiu o valor de R\$ 12.144 para o restaurante indenizar. Após o ocorrido, Tales registrou denúncia na Vigilância Sanitária e foi procurado por diversos veículos de imprensa. Ele também recebeu mensagens de apoio e relatos de outras pessoas que disseram ter enfrentado problemas semelhantes no mesmo estabelecimento, conforme consta nos autos. Bruno Macedo informou que o intuito do seu cliente nunca foi prejudicar o restaurante, mas sim conseguir ser reparado pelo dano. "O objetivo nunca foi prejudicar os donos do restaurante, o local, apenas buscar a reparação do dano que ele sofreu". Procurado pela reportagem, o restaurante informou, por meio de nota, que respeita o posicionamento do juiz, mas discorda da decisão e adotará as medidas cabíveis para impugná-la. Segundo o estabelecimento, foram apresentados documentos "que demonstram, de forma contundente, o rigor dos nossos protocolos de higiene e segurança alimentar". Por fim, disseram que seguem confiantes na reversão da sentença e "reiteraram o compromisso com a qualidade e o respeito aos clientes". Relembre Em janeiro deste ano, o ator e produtor Tales Ordakji, de 27 anos, encontrou uma barata viva dentro de um poke havaiano enquanto jantava com amigos em um restaurante na Rua Tolentino Filgueiras, no Gonzaga, em Santos. O inseto se movia entre os pedaços de salmão cru quando ele já havia consumido parte do prato. Após o susto, Tales relatou náusea e preocupação com possíveis doenças. O restaurante pediu desculpas, isentou o pagamento da conta e afirmou ter todos os certificados de dedetização em dia, lamentando o ocorrido e reforçando o compromisso com a higiene e a qualidade dos alimentos. Visão de biólogos A Tribuna consultou dois biólogos, que confirmaram o tipo de inseto. Segundo o primeiro especialista, Rafael Silva, tudo indica que seja uma barata. "Ela tem três pares de pernas e duas antenas." O segundo biólogo, Ricardo Samelo, ressaltou que se trata de um problema corriqueiro e uma praga comum em cozinhas como as desse restaurante. Samelo enfatizou que a barata em questão se trata da espécie Blatella gemanica, um animal exótico invasor, ainda ninfa, ou seja, não chegou a fase adulta. É conhecida popularmente como 'baratinha' ou 'barata de cozinha'. Estes nomes populares referem-se ao seu pequeno tamanho, pois não ultrapassam 2cm, destacou o especialista. Elas se alojam principalmente em cozinhas, pois é um local com constante oferta de alimento para estes insetos. "Apesar do nome científico remeter uma origem europeia, evidências recentes apontam que a espécie é original do sudeste asiático e hoje é considerada cosmopolita, e recebe o status de praga domiciliar em todos os continentes, exceto na Antártica. A situação piora em países com clima quente como o nosso, pois essa espécie é particularmente sensível ao frio", explicou. Diferente da barata comum, o biólogo informou que a barata-germânica prefere se abrigar em locais como gavetas e armários, por isso acaba passando desapercebida pelo seu pequeno tamanho, ganhando tempo para se reproduzir e aumentar sua população. "São insetos muito prolíferos e podem causar uma infestação em pouco tempo, literalmente tomando conta do local, que passa a ter um odor característico devido a substâncias produzidas pelas baratas. É o terror de cozinhas residenciais, restaurantes, lanchonetes, armazéns e supermercados, onde causam sérios problemas". Como baratas são onívoras (comem de tudo um pouco), Samelo explicou que, em casos de falta de alimento, podem praticar canibalismo e consumir, papel, papelão ou até sabão. Durante a procura por alimento, elas acabam visitando cestos de lixo de cozinhas e banheiros, e nestes locais acabam se contaminando com patógenos (vírus, bactérias, fungos e protozoários), carregando-os em seu corpo, principalmente nas patas e aparato bucal, conforme relata o especialista. O biológo disse que, ao entrar em contato com alimentos, elas podem transferir estes patógenos. Sendo assim, os alimentos então contaminados podem ser a fonte de diversas doenças. "Estudos recentes apontam que essa espécie está adquirindo resistência a diversos inseticidas, dificultando muito o controle e eliminação da infestação. Para tentar manter um local livre destes animais, a dedetização deve estar sempre em dia e o ambiente, bem como louças, copos, talheres e demais utensílios, devem estar muito bem limpos e higienizados, pois uma simples gota de gordura em uma pia, chão ou parede pode servir de alimento, assim como um prato ou talher mal lavados contendo resíduos alimentares".