[[legacy_image_299289]] Quatro em cada dez toneladas de lixo produzidas na Baixada Santista são orgânicas (de origem animal ou vegetal). Porém, não há coleta seletiva para esse material, nem espaço para a construção de um novo aterro sanitário na região. Por isso, o desafio é adotar processos de reaproveitamento para diminuir o volume final desses resíduos. Essas questões são tratadas pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) do Estado e pela Agência Metropolitana da Baixada Santista (Agem), que, na última quarta-feira, promoveram, em Bertioga, uma oficina para discutir o futuro do lixo na região. A pesquisadora do Núcleo de Sustentabilidade e Baixo Carbono do IPT, Letícia Macedo, afirma que a Baixada avançou na gestão de resíduos, principalmente os recicláveis. “Temos gerado menos resíduos e a coleta seletiva tem aumentado. Regionalmente, contamos com uma taxa em torno de 3,5% de coleta seletiva, o que é um pouco maior do que a média nacional”. Os resíduos orgânicos, porém, são quase totalmente levados para aterros sanitários. Letícia destaca que não se pode fazer outro aterro na região por falta de espaço e um veto da Companhia Ambiental do Estado (Cetesb). O futuro Aeroporto Civil Metropolitano, em Guarujá, também trava essa hipótese, porque aterros atraem aves, como urubus, que podem prejudicar o tráfego aéreo. DOIS PROCESSOS Dois processos se apresentam como alternativas para o reaproveitamento, conforme debatido pelo IPT e pela Agem: a compostagem e a biodigestão anaeróbica. A compostagem é um método aeróbico — com oxigênio — que recicla os resíduos orgânicos, transformando-os em adubo natural. A biodigestão anaeróbica, sem oxigênio, consiste em processo químico no qual a matéria orgânica é selada hermeticamente e decomposta, gerando biogás, que pode ser convertido em energia elétrica, por exemplo. Para que essas alternativas funcionem, Macedo afirma que é necessário fazer a coleta seletiva do lixo orgânico, que depende de conscientização. “Estamos iniciando pelo mais fácil, que é a coleta de resíduos de grandes geradores, como feiras e mercados, mas tem o desafio maior de fazer a população segregar o orgânico”. Veja propostasO primeiro passo para tratar o lixo gerado na região, conforme estudos do IPT e da Agem, foi dividir a Baixada em três microrregiões: a de Guarujá e Bertioga; a de Santos, São Vicente e Cubatão; e a de Praia Grande, Mongaguá, Itanhaém e Peruíbe. O diretor-executivo da Agem, Vagner Bernardo Maria, explica que, para cada microrregião, se propôs criar um centro de triagem para o tratamento do resíduo sólido urbano — aquele produzido pelos habitantes, excluindo-se, por exemplo, o produzido em indústrias e construções. Nesses centros, se separaria o material reciclável, destinando material orgânico ao aterro sanitário existente na Área Continental de Santos. Bertioga, contudo, deu um passo além dessa primeira fase. Com o IPT, se desenvolveu a biodigestão anaeróbica em uma planta piloto. “A Cidade conseguiu separar o lixo orgânico e levar para esse sistema de biodigestão. Dele, aproveita-se o gás para gerar energia elétrica, e o que sobra dessa digestão é usado como fertilizante. O material orgânico não aproveitado e o reciclável contaminado vão para o aterro sanitário”. O estudo também propõe “queimar” o material não aproveitável, “gerando energia elétrica. Esse termo acaba assustando as pessoas, porque pensam que isso vai poluir o meio ambiente, mas é possível instalar filtros e diminuir a quantidade de poluentes que vai para o ar”, afirma o diretor da Agem. Iniciativa nos municípios A Prefeitura de Santos informa que, desde 2017, mantém o programa Composta Santos no Jardim Botânico Chico Mendes (foto) e no Orquidário Municipal. Esses espaços recebem visitas agendadas para ações de educação ambiental. Outra ação foi a distribuição de 59 composteiras-minhocários para entidades como ONGs e associações, que são monitoradas e funcionam como postos de educação. O Composta Santos originou, no ano passado, o projeto Feira Feliz, em conjunto com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e o Mesa Brasil (Sesc). Iniciada em 2022, a iniciativa analisou o descarte dos resíduos orgânicos por feirantes e concluiu que 57% podem ser compostados. E, desde 2017, é obrigatória a separação de lixo orgânico do reciclável, pelo programa Recicla Santos; Além da planta piloto de biodigestão (veja nesta página), Bertioga possui uma Composteira Verde no Viveiro Municipal de Plantas e Ideias Leopardo Francisco da Silva, o Seo Leo, que trata os resíduos gerados na unidade. A Secretaria de Meio Ambiente também distribuiu composteiras para interessados em desenvolver a compostagem; Em Cubatão, a Secretaria de Meio Ambiente estuda criar um centro de compostagem em um antigo aterro sanitário para resíduos das feiras livres e dos serviços de poda e roçagem. Já há um projeto de compostagem educacional, com composteiras de pequeno volume em escolas, com palestras e atividades para se aprender a utilizá-las; Guarujá projeta seu primeiro Centro de Gerenciamento de Resíduos Sólidos, com uma área para o manejo adequado de resíduos orgânicos. A proposta, segundo a Prefeitura, está em fase de licenciamento ambiental na Cetesb. O Município também incentiva a compostagem com o Plano Municipal de Gestão Integrada dos Resíduos Sólidos, para que residências, condomínios e empreendimentos imobiliários criem espaços próprios; A Prefeitura de Itanhaém diz ter o projeto Composta Itanhaém, que distribuiu 25 composteiras e promove ações como capacitação, palestras e entrega de cartilhas sobre compostagem doméstica. Sem unidade própria específica, a Cidade informou que há compostagem de resíduos de poda urbana e nos centros de pesquisas e educação ambiental locais; Praia Grande possui 23 ecopontos para descarte correto de resíduos. De lá, segundo a Prefeitura, os materiais são enviados para cooperativas, que os separam e destinam para empresas recicladoras. O que não pode ser reaproveitado é enviado para o descarte apropriado. Há coleta seletiva em todos os bairros e o serviço Rapa Treco, que recolhe materiais inservíveis. Está prevista uma usina de compostagem no Bairro Tupiry; A Prefeitura de São Vicente trabalha em um projeto piloto de compostagem orgânica com ecobaldes, para transformar o resíduo orgânico doméstico em composto orgânico por meio de compostagem ou minhocário. Voluntários que aderirem à compostagem receberão mudas, compostos e hortaliças. Quem participa do minhocário recebe minhocas, e há oficinas de montagem do minhocário e uso de biofertilizante e húmus. As unidades de compostagem serão iniciadas em pequena escala no Jardim Rio Branco. As prefeituras de Mongaguá e Peruíbe não retornaram até o fechamento desta edição