O navio Recreio encalhou na orla de Santos em fevereiro de 1971 depois de uma forte tempestade (ATribuna/ Arquivo) Em dias de maré baixa em Santos, no litoral de São Paulo, a paisagem da orla pode ganhar contornos inesperados. Onde normalmente há apenas areia e mar, surgem estruturas retorcidas de ferro e madeira, como se o passado resolvesse emergir por algumas horas. São os chamados “navios fantasmas” de Santos — embarcações que encalharam há décadas e que, vez ou outra, reaparecem diante dos olhos de moradores e turistas na cidade da Baixada Santista. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A mais emblemática dessas embarcações é o navio Recreio, cujos destroços ainda repousam na faixa de areia da Ponta da Praia, entre o Canal 6 e o Ferry Boat. Sempre que o mar recua, partes do casco se tornam visíveis, revelando uma história que mistura glamour, tragédia e decadência. Há também o enorme Kestrel, que recebeu, através da tecnologia, uma forma de ser visto em qualquer momento. O dia em que o navio virou notícia Era noite de 26 de fevereiro de 1971 quando uma tempestade se formou na Barra de Santos. O mar, até então estável, transformou-se em um cenário de ondas fortes e ventos intensos. O navio Recreio, que estava fundeado nas proximidades da Praia do Góes, em Guarujá, rompeu as amarras durante o temporal. Sem motores próprios, pois sua movimentação dependia de rebocadores (veja o motivo mais abaixo), o navio ficou à deriva. Impulsionado pelos ventos, seguiu em direção à orla santista até encalhar na areia da Ponta da Praia. Na manhã seguinte, a cena impressionava. Um navio, imóvel, cravado na praia. A estrutura metálica contrastava com o cenário de lazer da orla. Uma multidão se formou no calçadão para ver de perto o que parecia improvável: um transatlântico transformado em casa noturna, agora derrotado pela força do mar. Restos do Recreio podem ser vistos parcialmente ou totalmente, conforme a altura da maré em Santos (Flavio Hopp/ Acervo AT) A história do navio A história do Recreio começou muito antes do encalhe. Lançado ao mar em 1926, na então cidade de Elbing, na Polônia, o navio foi encomendado por descendentes de Carl Franz Albert Hoepcke, imigrante germânico que fez fortuna em Santa Catarina. Batizado de Carl Hoepcke, o transatlântico media 62,4 metros de comprimento e 10,96 metros de largura. Equipado com motor de 12 mil HP, operou por décadas na rota entre o Rio de Janeiro e Florianópolis, transportando passageiros até 1956, quando sofreu um grave incêndio ao sair do Porto de Santos, com 130 pessoas a bordo. Depois do acidente, foi vendido, mudou de nome para Pacaembu e passou a atuar no transporte de carvão e madeira no Pará. Anos depois, com o motor comprometido e o alto custo de reparo, o seu destino parecia ser o desmanche. Foi então que surgiu uma nova reviravolta. O engenheiro naval russo Wladimir Grieves, radicado em Santos, comprou a embarcação com um projeto ousado: transformá-la em um navio-boate. A casa de máquinas deu lugar a uma piscina, a chaminé virou caixa-d’água e a torre de comando foi adaptada como mirante. Sem motor, o navio foi levado à Praia do Góes por rebocadores e lá permaneceu ancorado. Rebatizado de Recreio, ele foi inaugurado em 1º de agosto de 1970 como espaço de lazer flutuante, com salões de festa, palco para shows e pista de dança. Atraiu turistas e moradores durante o verão de 1970/1971. Quando a maré está muito baixa, é possível ver exatamente onde o navio Kestrel encalhou através dos restos do casco na praia de Santos (Carlos Nogueira/ AT/ Arquivo) Destroços que resistem Após encalhar depois da tempestade, as autoridades tentaram remover o navio Recreio. Rebocadores foram acionados e até dinamites foram usadas para tentar soltar a embarcação da areia. O esforço, porém, terminou de forma melancólica: a estrutura se partiu. O navio permaneceu inerte na Ponta da Praia até agosto de 1972. Parte da embarcação foi desmontada, mas o fundo do casco nunca foi completamente retirado. É esse remanescente que ainda hoje aparece durante a maré baixa, alimentando o imaginário popular sobre os “navios fantasmas de Santos”. O Kestrel pode ser visto em 3D, por meio de realidade aumentada, usando um celular comum (Francisco Arrais/ Prefeitura de Santos) O Kestrel e a tecnologia O Recreio não é o único vestígio naval que surge na orla de Santos. O veleiro inglês Kestrel, encalhado há mais de 100 anos, também deixa rastros visíveis quando o mar recua. No caso do Kestrel, a história ganhou um recurso moderno. Uma placa instalada no pontilhão da faixa de areia do Canal 5 permite que visitantes escaneiem um QR Code e visualizem a embarcação em 3D, por meio de realidade aumentada. Ao apontar o celular para a direção dos destroços, o navio aparece reconstruído sobre a água (como na foto acima). Uma placa instalada no pontilhão da faixa de areia do Canal 5 permite a visualização do Kestrel através de um QR code (Francisco Arrais/ Prefeitura de Santos) Memória que emerge O local foi transformado em sítio arqueológico pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O Ministério Público recomendou a sinalização da área para evitar acidentes. Entre curiosidade turística, patrimônio histórico e desafios de engenharia, os destroços do Recreio e do Kestrel mostram que, em Santos, o passado pode emergir diante dos olhos. Veleiro inglês Kestrel tem seus destroços próximo ao Canal 5, em Santos (Vanessa Rodrigues/ AT) Cuidados para os banhistas Segundo a Prefeitura de Santos, o monitoramento dessas embarcações é de responsabilidade do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que é uma autarquia federal. Conforme tratativas com a entidade, cabe ao Município sinalizar os locais e proporcionar a garantia da segurança da população. A Administração Municipal reforçou que, quando os destroços ficam visíveis, a Secretaria Municipal das Prefeituras Regionais (Sepref) cerca o local e sinaliza para coibir a presença de banhistas naquela área e, assim, evitar acidentes.