[[legacy_image_279756]] Uma missão de vida. É assim que Audrey Kleys encara os desafios como secretária de Desenvolvimento Social de Santos, cargo que assumiu no mês passado. Vereadora eleita em 2016 e reeleita em 2020 pelo PP, ela deixou o segundo mandato na Câmara para se dedicar à função, após convite do prefeito Rogério Santos (PSDB). Jornalista, formada em Direito e pós-graduada na área da Educação, Audrey já foi secretária adjunta de Educação de Santos entre 2013 e 2016. Além da experiência na vida pública, ela foi repórter da TV Tribuna por 16 anos, acompanhando de perto os problemas da população, nas ruas. E é justamente lá, agora, onde está o seu maior desafio: as pessoas em situação de rua. A secretária promete não descansar enquanto não conseguir amenizar o problema, que aumentou muito nos últimos anos na Cidade. Para isso, buscar mais recursos em todas as esferas de governo e aumento, junto à Prefeitura, do número de funcionários no setor. “Mergulhei profundamente para entender os processos internos. Porque o olhar como vereadora, é uma coisa, mas estar à frente da pasta, como secretária, é outra”. Leia a seguir trechos da entrevista dada na sede da Secretaria, no Centro de Santos, na companhia do ajunto, Humberto Martinez. Você foi reeleita vereadora, as pessoas deram mais uma vez o voto de confiança no seu trabalho em várias áreas, como na educação. Agora, vai trabalhar apenas em um setor. O que tem a dizer para seus eleitores?Me surpreendi muito com a quantidade de mensagens que recebi parabenizando pelo ‘ato de coragem’. Foi o que eu mais escutei (ao assumir a Secretaria). Mas não é coragem, é uma missão de vida. Quero mostrar que não caí aqui de paraquedas, houve todo um preparo para estar aqui. Eu jamais assumiria essa responsabilidade se não tivesse passado pelos estágios que eu passei: como jornalista, secretária adjunta de Educação, dois mandatos como vereadora. Entendendo, compreendendo, mergulhando nas necessidades e fragilidades de toda uma sociedade, principalmente nas comunidades mais vulneráveis. Então, eu estou lá e continuarei nesses lugares. O desenvolvimento social une todas as esferas. Se você não cuida bem da educação, as pessoas vão se afastar da sala de aula, vão para o subemprego, vão desistir de suas vidas, vão morar em palafitas. E logo estarão em estado de alta vulnerabilidade nas nossas ruas. É a roda da vida. O desenvolvimento social é muito maior do que a esfera do cuidar das pessoas em situação de rua. É uma secretaria que cuida de milhares de vidas que estão ligadas diretamente ao poder público, seja na esfera federal, estadual ou municipal. Como funciona a estrutura atual da secretaria?Temos mais de 30 mil cadastros de pessoas que estão recebendo benefícios diversos e que dependem desse dinheiro mensalmente para sustentar suas famílias e não pararem nas ruas. Temos 62 equipamentos no desenvolvimento social e que a população desconhece, uma pesquisa da Prefeitura apontou isso. Então, o primeiro caminho é fazer com que a população conheça para que possa auxiliar os que mais precisam quando se depararem com uma situação de vulnerabilidade. As pessoas precisam conhecer o telefone 153, porque é uma maneira oficial de registro para que a gente tenha o atendimento adequado àquela pessoa que precisa da nossa atenção. O desenvolvimento social manda a abordagem de rua. Mas se pessoa está em surto ou acometida por álcool e drogas, acionamos a saúde. Se é alguém mais agressivo, ameaçando outras pessoas, é um caso para a Guarda Municipal. Além disso, temos oito unidades do Cras (Centros de Referência em Assistência Social) nos bairros de maior vulnerabilidade. Eles são a porta de entrada para qualquer pessoa ou família que esteja em situação de vulnerabilidade. Neles é feito um diagnóstico da situação para que seja oferecida a proteção social. Hoje são distribuídas 1,2 mil cestas básicas por mês. A minha primeira missão é fazer com que a população conheça cada equipamento que está instalado na nossa cidade e qual é a função de cada um. [[legacy_image_279757]] A questão principal hoje em Santos parece ser mesmo as pessoas em situação de rua. O que precisa ser feito para minimizar o problema?As pessoas estão sendo acompanhadas, elas não estão soltas na rua. Os nossos técnicos sabem os nomes de todas. Mas existe uma questão de (falta de) RH (recursos humanos). Hoje a gente tem uma defasagem na Secretaria de Desenvolvimento Social, porque aumentou muito o número de pessoas em situação de rua. Vamos lutar (para ter mais servidores). O prefeito Rogério Santos (PSDB) entende essa necessidade e já anunciou um concurso público para o meio do ano. Precisamos aumentar as equipes de abordagem de rua. Para que a gente consiga algo perto de um equilíbrio, precisamos de mais 60 pessoas. Porque antes da pandemia nós tínhamos 17 mil cadastros únicos no Município, que é a ferramenta do Governo Federal que identifica a vulnerabilidades. Hoje já ultrapassamos 30 mil cadastros. Essa ampliação de demanda acarreta a necessidade de mais recursos humanos. Não adianta falar em projetos, ações, programas, se nós não temos pernas para avançar. Essa é minha segunda missão. Existe também a questão da recusa de atendimento. Muitas pessoas não querem sair das ruas. Como convencê-las?É a minha terceira missão. Precisamos urgentemente de um trabalho intersetorial, entre as secretarias, que realmente seja eficaz. Não dá para o desenvolvimento social abraçar todas as demandas que aparecem. Vamos reunir pessoas do desenvolvimento social, saúde, educação, segurança pública, habitação. As pessoas precisam conversar. Temos que ter discussões em grupo e entender o que aquele indivíduo - que nós já temos todas as fichas nas mãos - precisa. Não dá para apagar incêndios todos os dias, a gente precisa dar a devida resposta à população e, principalmente, a essa pessoa que precisa mais do nosso olhar. É uma obrigação de todos, não só do desenvolvimento social. A única coincidência que cada pessoa em situação de rua tem é a pobreza extrema, porém é um grupo heterogêneo, que tem determinadas facetas que precisam ser cuidadas por cada política pública. E a gente verifica a ida para as ruas notadamente por conta do problema de álcool e outras drogas. Ainda que tenha um trabalho intersetorial, continua sendo difícil convencer as pessoas em situação de rua a aderirem aos serviços oferecidos...Um vínculo não se constrói de um dia para o outro. A pessoa que está em um alto grau de vulnerabilidade, acometida por álcool de drogas num nível muito alto, não vai acreditar em você na primeira, segunda ou terceira visita. Há necessidade, segundo os técnicos, de três a cinco anos para que essa pessoa ingresse em um serviço de recuperação. Ela vai aos poucos participando de algumas ações e acreditando nessa parceria. Acredito na construção intersetorial e estou apostando muito nessa aliança. A criança que está na nossa escola, por vezes, a mãe está na rua. Não tem como caminhar de forma isolada. Vamos resolver as demandas no coletivo. Que protocolos sejam formatados para salvarmos vidas. [[legacy_image_279758]] Haverá um mutirão serviços nesta quarta (28) e quinta-feira (29) em Santos. Como funcionará?É uma parceria com a Justiça Federal, uma grande rede de ação e serviços para a população de rua, pela primeira vez em Santos. Vem com amparo das esferas municipal, estadual e federal. A pessoa passa pela triagem, pode fazer um documento. Se tiver pendência judicial, já é encaminhada para a Defensoria Pública para fazer uma radiografia das pendências e buscar soluções. Serão levantadas também questões trabalhistas, previdenciárias e da Receita Federal. A pessoa passa a ter documento de identidade, volta a ter CPF, título de eleitor, fica regularizada, vai dar baixa no certificado de reservista. A contrapartida da Prefeitura nessa ação é oferecer alimentação gratuita nesses dois dias. Então, faremos no entorno do Mercado Municipal, onde nós já temos uma unidade do Bom Prato e a alimentação será oferecida. E vamos aproveitar essas pessoas que naturalmente estarão no local para que façam parte dessa rede, entre 10 e 16 horas. Muitas pessoas que estão nas ruas são de fora de Santos. Como é feito o recâmbio para a cidade de origem? Santos faz o chamado recâmbio qualificado. Após o contato com a cidade de origem é verificado se a pessoa já foi acompanhada pelo serviço social daquela cidade ou, caso seja localizada a família, se deseja receber a pessoa de volta. Não atingimos hoje mil recâmbios por ano. Temos que tomar cuidado para que isso não vire período de férias, tem que ter muito critério e entender se realmente a pessoa vem de uma situação de vulnerabilidade. Porque é dinheiro público, precisamos prestar contas. E a pessoa também não pode ser tratada como mero despacho. O recâmbio é uma ferramenta da assistência social, a partir de análise técnica. É fácil falar que a Prefeitura precisa mandar a pessoa embora daqui, mas não é assim. Está previsto um aplicativo para integrar a área de desenvolvimento social? O Governo do Estado está construindo um aplicativo, que deve ser colocado em ação em agosto, onde nós teremos o acompanhamento em tempo real dessas pessoas que acessam os serviços em todas as cidades do Estado. Se uma pessoa em situação de rua chegar em Santos, vamos saber se ela já esteve em Peruíbe, por exemplo. Hoje, você não sabe nada, cada município faz da sua maneira. Vamos entender quem é o indivíduo para que ele continue a ser tratado, não comece do zero. [[legacy_image_279759]] Houve cobrança de mais verbas ao Governo do Estado para a área? Reivindicamos ao Estado o aumento no repasse que faz aos municípios. Hoje o orçamento da nossa pasta chega a R\$ 80 milhões, ano passado superou isso, chegou a R\$ 111 milhões. O repasse do Estado é de R\$ 1,5 milhão. Valor muito baixo diante do atendimento que nós temos e do número populacional. Santos é a cidade com maior número de pessoas em situação de rua. Não tem como os municípios arcarem com valor tão alto e um com um repasse do Estado que não muda há anos. Também pedimos a abertura de mais uma unidade do Bom Prato aos finais de semana e feriados. Hoje só temos a do Mercado, é a única da Baixada Santista. Chega o momento em que acaba a refeição e não acabam as pessoas. Então, que a unidade da Avenida Nossa Senhora de Fátima (Zona Noroeste) também abra aos finais de semana e feriados. Falando de política, um bom desempenho seu à frente da Secretaria pode lhe credenciar a cargos maiores. Por outro lado, se o trabalho não corresponder à expectativa da população, pode lhe prejudicar politicamente. O que pensa disso? Penso em trabalhar. O meu foco hoje é trabalhar muito mais do que eu já faço. Estou mergulhada no trabalho, só penso nisso. É para dar certo. Não pensando num futuro político, mas no futuro da minha cidade e no bem das pessoas. É a minha missão de vida, por acreditar que cada um pode fazer melhor e diferente para salvar muitas vidas. Fui escolhida pelo trabalho que desenvolvi e pelos resultados que apresentei, não por politicagem, por jogo político. Eu falo para as pessoas: eu não vou fazer nenhum milagre aqui. Preciso de muitas pessoas ao nosso lado. Preciso do olhar dos gestores que estão acima e ao lado, do prefeito Rogério Santos (PSDB). Preciso que eles estejam abertos para esse grande diagnóstico que está preparado para mostrar os caminhos que precisamos avançar. O prefeito quer mudar a cara do desenvolvimento social na Cidade, não por uma questão política, mas por necessidade.