(Reprodução) Santos, 27 de julho de 1977. Quem atravessava a Praça Independência naquela manhã encontrava uma cena difícil de explicar. Entre os automóveis que circulavam pelo Gonzaga, os ônibus que cruzavam as avenidas e o movimento habitual de uma das regiões mais movimentadas da Cidade, erguia-se um visitante improvável. Com três metros de altura, braços enormes e expressão ameaçadora, King Kong observava Santos do alto de uma plataforma instalada diante do Monumento à Independência. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Inicialmente, muitos acreditavam se tratar de uma brincadeira. Outros se aproximavam cautelosamente para conferir o que estava acontecendo. Mas bastavam alguns instantes para que a surpresa desse lugar ao encantamento. Crianças puxavam os pais pela mão para chegar mais perto. Pedestres interrompiam seus compromissos. Motoristas diminuíam a velocidade para admirar o gigante. Por alguns dias, o mais famoso gorila do cinema havia transformado o coração do Gonzaga em um pequeno pedaço de Hollywood. O rei do Gonzaga A década de 1970 assistia ao auge das grandes campanhas promocionais do cinema. Sem internet, sem redes sociais e sem a avalanche de imagens que hoje invade as telas dos celulares, os lançamentos precisavam conquistar o público nas ruas. E poucos personagens possuíam o poder de atração de King Kong. A enorme réplica instalada na Praça Independência anunciava a chegada do filme que ocupava simultaneamente três importantes salas de exibição santistas: o Cine Indaiá, na Avenida Ana Costa, o Cine Caiçara, no Boqueirão, e o Cine Itajubá, no José Menino. O gorila parecia estar em todos os lugares. Nos cartazes espalhados pela Cidade, nas fachadas dos cinemas e, principalmente, no centro da praça mais conhecida do Gonzaga. A escolha do local não ocorrera por acaso. A Praça Independência funcionava como um ponto de encontro permanente. Por ali passavam moradores, turistas, trabalhadores, estudantes e famílias inteiras. Quem circulava pela região inevitavelmente acabava diante do visitante que parecia ter atravessado oceanos para desembarcar em Santos. O macaco que parava o trânsito O sucesso da campanha foi imediato. O problema era que quase ninguém conseguia ignorar a presença daquele gigante. Motoristas reduziam a velocidade para observá-lo. Passageiros apontavam pelas janelas dos ônibus. Ciclistas diminuíam o ritmo da pedalada. Algumas pessoas chegavam a interromper a caminhada apenas para contemplar a figura que dominava a paisagem da praça. A movimentação acabou despertando preocupações. O intenso fluxo de veículos e pedestres exigia atenção constante, mas o gorila parecia roubar os olhares de todos ao redor. Houve quem reclamasse da distração causada pela atração. Outros consideravam que o espetáculo compensava qualquer transtorno temporário. As crianças, porém, pouco se importavam com as discussões dos adultos. Para elas, aquele era um acontecimento extraordinário. Não era todos os dias que um personagem das telas surgia diante dos próprios olhos, ocupando um dos espaços mais conhecidos da Cidade. Muitos dos que passaram por ali na infância certamente guardaram a lembrança daquele encontro improvável. A volta de King Kong O tempo passou. Os cartazes desapareceram, os filmes deixaram de ser exibidos e a rotina retomou seu lugar na Praça Independência. Aos poucos, a visita do gigantesco gorila foi se transformando em lembrança. Mas King Kong ainda voltaria. Em fevereiro de 1988, quase 11 anos depois da primeira aparição, Santos recebeu novamente o ilustre visitante. Desta vez, a atração foi instalada diante do Cine Indaiá para promover uma nova aventura cinematográfica do personagem. O retorno ocorreu em escala ainda maior. A réplica possuía mais de quatro metros de altura e ultrapassava duzentos quilos. Produzida nos Estados Unidos, percorria cidades brasileiras levando consigo o mesmo poder de fascínio que havia conquistado multidões na década anterior. Mais uma vez, as crianças foram as primeiras a se aproximar. Mais uma vez, curiosos interromperam seus trajetos para observar a criatura. E mais uma vez o cinema conseguiu transformar um simples espaço urbano em palco de fantasia. Um pedaço de Hollywood em Santos Hoje, quando os lançamentos cinematográficos chegam aos espectadores por meio de trailers digitais, anúncios personalizados e campanhas virtuais, talvez seja difícil imaginar o impacto causado por uma ação como aquela. Naqueles anos, entretanto, o cinema precisava ocupar as ruas. Precisava surpreender. Precisava criar acontecimentos capazes de reunir pessoas em torno de uma história antes mesmo que as luzes da sala de projeção se apagassem. Foi exatamente isso que King Kong conseguiu fazer. Em duas ocasiões distintas, separadas por mais de uma década, o gorila mais famoso do mundo transformou Santos em cenário cinematográfico. Primeiro, ao surgir na Praça Independência e atrair a atenção de toda a Cidade. Depois, ao retornar para saudar uma nova geração de espectadores diante do Cine Indaiá. E assim, entre os cinemas de rua e o movimento incessante do Gonzaga, Santos viveu o raro privilégio de receber duas visitas de um personagem que, embora nascido na ficção, por alguns dias pareceu absolutamente real. Sergio Willians é jornalista e pesquisador da história de Santos. Conheça seu trabalho no site www.memoriasantista.com.br.