Projeto usa grafite para embelezar muros do Monte Serrat, em Santos

Obras expressam personagens do Monte Serrat e a riqueza cultural da comunidade, especialmente a negra

Por: Sheila Almeida  -  17/11/18  -  14:19
  Foto: Alexsander Ferraz/AT

O Monte Serrat, em Santos, está mais vigiado. Olhares da comunidade foram grafitados no muro que acompanha a subida das escadarias, na Rua Bittencourt. Além de fixar ali a expressão de personagens locais, o trabalho atraiu atenção também de quem passa, ressaltando a riqueza cultural, sobretudo a da comunidade negra.


A iniciativa foi do grupo Opni, por meio de um projeto chamado Quadro Negro. Composto inicialmente por jovens da periferia de São Paulo, o Opni já foi sigla para Objetos Pichadores Não Identificados; depois, Os Policiais Nos Incomodam e, ainda, Os Prezados Nada Importantes.


Atualmente, o nome do coletivo não é definido, mas representa a busca por dar voz a quem não é notado, de acordo com o curador e comunicador social Orlando Rodrigues.


“O primeiro trabalho aqui foi em 2015, com o projeto Pilares de Santos”, contou ele, sobre a iniciativa que pintou, principalmente, as pilastras do viaduto ao lado da Estação Rodoviária. “Com emenda parlamentar do vereador Ademir Pestana (PSDB), fizemos pesquisa e, neste ano, aproveitamos que o trabalho foi executado no mês de novembro para também abordar a consciência negra. Procuramos artistas que trabalham com essa estética”, explicou.


Quem abraçou a ideia foi o grafiteiro Val, junto a Toddy e Bone, integrantes da equipe Opni e vindos da Zona Leste de São Paulo para o trabalho no Monte Serrat.


Val explica que, para mostrar a história do morro, ouviram-se moradores. Aí, descobriram pessoas já falecidas mas ainda respeitadas e lembradas, como Antônio Clemente, o Mestre Bahia, que montou a Associação de Capoeira Monte Serrat com aulas na Rua Tiro Naval, e souberam da comemoração do reisado com festa no morro.


“É um lugar riquíssimo de histórias. Construímos as imagens com o que a comunidade falou, porque, além de dar voz, acreditamos que o grafite é uma mídia radical, que se comunica com todas as pessoas que passam na rua, independentemente da classe social”, diz Val.


Interesse


O presidente da Sociedade de Melhoramentos do Monte Serrat, Arquimedes da Silva Machado, morador há 37 anos, conta que o muro despertou interesse local e turístico.


“Sábado eu passei o dia todo com o grupo e percebi que os carros desaceleraram, que o bonde turístico anunciou os artistas, que já aparecemos em fotos na internet, se você buscar pelo Google. Sou entusiasta do Monte Serrat e me sinto empoderado com isso”, afirma.


Ele sente que a iniciativa dá voz aos personagens homenageados no muro. Além do Mestre Bahia, há a “bela morena” da canção que alude à Fonte do Itororó, e outra mulher, com a frase Vale um tesouro, da canção de reisado que fala da igreja no alto do monte. Além dessas características são ressaltadas as crianças, a igreja e os olhares penetrantes de trabalhadores e moradores de lá.


“É um prazer ver uma comunidade periférica ser comentada longe dos noticiários da criminalidade e da pobreza. Fico feliz em ver, principalmente, a representatividade do povo preto. Teve quem perguntou por que não tinha branco desenhado, mas sempre vemos brancos em comerciais. Quando o povo preto é bem retratado, é questionado. Vale a reflexão”, diz.


A iniciativa deve continuar em muros de casas, mas os próximos passos ainda não foram definidos pela equipe.


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