[[legacy_image_319149]] O sonho de crescer na vida, com um bom emprego e estabilidade para si e a família é algo recorrente a muitas pessoas. E esse objetivo pode estar longe de casa, em outro município ou mesmo estado. Porém, nem sempre o imaginado acontece de fato, e o jeito é mudar de rota, buscando amparo em quem se ama e na própria história. Pois voltar para o lugar de origem vira a saída necessária, contando com a ajuda de uma importante rede de apoio. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! A situação descrita acima retrata a vida de muitos moradores de rua, que chegam a Santos atrás de oportunidades, mas acabam sem uma chance de trabalho ou capacidade de sustento. Voltar para a cidade de origem é a solução, por meio do chamado recâmbio qualificado, serviço oferecido pela Secretaria de Desenvolvimento Social da Prefeitura, que permite o regresso dessa pessoa, mediante um acompanhamento e preparação, processo conectado à assistência social do local de destino. “O recâmbio qualificado é feito a partir do momento que a gente acessa a pessoa na rua e identifica de onde ela é e se existe a vontade dela querer voltar para a cidade de origem”, explica a secretária Audrey Kleys. “Faz parte da política pública do Suas (Sistema Único de Assistência Social). É uma tentativa de reaproximar vínculos. Porque, quando ele sai do território dele e da cidade de origem, se afasta de toda uma história. A assistência vem para promover essa reaproximação, porque os técnicos entendem que ele precisa estar perto daqueles que ele convive, dentro do que ele carrega como indivíduo ou família. Então, a gente precisa fazer com que esses laços sejam resgatados”, reitera. DadosNo ano passado, por exemplo, foram realizados 292 recâmbios qualificados, sendo 169 para a Capital e outras cidades do Estado de São Paulo; e 123 para outros destinos. Já entre janeiro e novembro deste ano, foram 286 recâmbios, dos quais 136 para a Capital e outras cidades do Estado, e 150 para outros destinos. “A maioria esmagadora é de homens. Muitos acham que Santos vai proporcionar empregos, com altos salários. E eles citam muito o Porto de Santos, vêm com essa referência, acreditando que vão ganhar altos salários por conta dessa estrutura que tem o Porto. Quando chegam aqui, conseguem subempregos e não têm condições de se autossustentar com alimentação e moradia”, explica a secretária. A abordagemAudrey conta que a abordagem dos moradores de rua passa diretamente pela ação dos operadores sociais. “Eles trabalham focados nessa questão de identificar as necessidades daquela pessoa. Qual a história que foi construída até chegar a essa condição de alta vulnerabilidade, de onde ela é, por que veio, qual a história, a família. Como foi construído todo esse contexto até se chegar a essa condição”. Nesse ponto, estabelecer uma relação de confiança é fundamental. “O operador social sai numa perspectiva, primeiro de aproximação. Porque às vezes esse indivíduo não quer falar a história dele no primeiro contato. E não vai cessar o contato ali: é um acompanhamento técnico que começa por meio do operador social. É um processo delicado o de estabelecer esses laços com aquele que está ali e não o conhece. Então, as duas partes (operador e morador de rua) precisam dessa conexão: um demonstrar que tem uma rede assistencial para oferta; e a outra parte sentir a confiança naquele operador social para começar a resgatar a vida”, exemplifica. A secretária sustenta que o recâmbio qualificado não é uma simples transferência entre cidades. “É o entendimento, primeiro, se é o desejo daquela pessoa em retornar. Havendo o desejo, a gente então traz ele para o nosso equipamento público - precisa identificar se ele está com documento, se ele pode ir para a rodoviária, se pode subir no ônibus, porque nós o acompanhamos até a Rodoviária, mas é feito todo um movimento para que, primeiro: a gente entenda a situação dele na cidade de origem”, relata. O técnico vai fazer a identificação da pessoa na cidade de origem, para checar se já passou por algum serviço da assistência social, se a família pode ser acionada, se há o desejo da família em receber essa pessoa. Caso não haja esse desejo, se o serviço assistencial local pode recebe-lo. “Estando tudo em ordem, com a documentação certa - pode demorar alguns dias, enquanto esses dias vão passando, ele vai ficando nas nossas redes, então ele vai para o nosso pernoite ou ele vai para um lugar de acolhimento, que ele possa ficar até que seja transferido, até que a passagem esteja comprada”, acrescenta Audrey. O atendimento deste usuário acontece no Centro Pop (Rua Amador Bueno, 446). [[legacy_image_319150]] Reaproximação com a famíliaA secretária conta um caso que ilustra o cuidado necessário para esse processo. “Uma moça que estava na Ponta da Praia. Ela estava num momento muito difícil, de fragilidade em relação à sua saúde mental. A abordagem fez várias tentativas de aproximação de vínculo, até que ela sentiu confiança. Nós a levamos para a UPA e, de lá, para o Complexo Hospitalar da Zona Noroeste, pois possui ala psiquiátrica. Os nossos técnicos do Centro Pop começaram uma aproximação de vínculos com os técnicos da cidade de origem. Foram vários dias de escutar a mãe, reuniões on-line, para entender como era o atendimento dela lá. Até que chegou o dia que ela estava estabilizada e aceitou voltar. A mãe queria muito que ela voltasse, porque não sabia onde ela estava. Nós identificamos, a partir do que ela falava para gente, e conseguimos fazer com que ela retornasse à cidade. Ela não foi nem de ônibus. A cidade de Santos levou ela de carro até a cidade, em cinco horas de viagem”. Justiça acompanha os casos que envolvem adolescentesO mesmo tipo de cuidado acontece quando o morador de rua é adolescente. “A partir do momento que é identificado, aquele adolescente que o Ministério Público nos aciona para o acolhimento, a gente vai fazer todo o trabalho de encontrar essa família, de onde esse adolescente é. O processo é o mesmo, mas acompanhado pela Justiça. Quando o adolescente chega para nós, é porque há uma determinação de guarda provisória em relação àquela criança, aquele adolescente, por alguma situação de fragilidade que está passando”, atesta a secretária. Audrey admite que há casos em que a pessoa deixa Santos rumo à cidade de origem, mas regressa para a Baixada Santista tempos depois. Quando isso acontece, é feita uma análise dos motivos que levaram a essa decisão. “Como existe, para esse recâmbio, uma verba que precisa de prestação de contas, não pode transformar isso numa passagem turística. Então isso tem que ter muita responsabilidade no trato desse dinheiro público. Não que ela não vá ter mais direito. A partir do momento que ela retorna, a gente vai precisar agir de outra forma com o serviço da cidade de origem dela”, cita. A titular da pasta de Desenvolvimento Social reconhece que ainda existe um problema grave; carros e vans de outras localidades que desembarcam moradores de rua em Santos, recriminando tal prática. “É um trabalho mais difícil de acompanhar. Quando essa pessoa vem porque quer, é uma situação. Quando é colocada em veículos como se fossem animais, obrigadas a mudar de cidade, porque a cidade onde ela estava não lhe proporcionou a estrutura devida, isso é crime e precisa ser investigado. Pedimos para quem observou uma situação como essa, que tente registrar, denuncie e busque ajuda. Porque, às vezes, a vida dessa pessoa fica ainda mais desestruturada por conta de uma determinação que ela recebeu de outro município para estar aqui sem estrutura alguma”, finaliza.