[[legacy_image_210022]] No calendário de Helena, 12 dias de vida foram tão transformadores como dois anos. Cada um desses momentos com seu grau de descobertas, surpresas, dores, medos, alegrias, emoções e mudanças de rota. Professora universitária, Helena Lourenço se notabilizou nas últimas três décadas criando e conduzindo o Festival Internacional de Folclore, principal evento do calendário anual da entidade santista que comanda, a Associação Brasileira dos Organizadores de Festivais de Folclore e Artes Populares (ABrasOffa). Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! A história contida nesta entrevista começa em 14 de setembro de 2020, quando completava 66 anos e recebia, no consultório de seu médico, a notícia de um câncer em estágio 4, um dos mais agressivos. Doze dias depois, Ynel, o marido, com quem estava casada há 38 anos, teve um infarto e morreu. A casa ficou vazia, o chão sumiu e a jornada contra a doença estava apenas começando: cirurgia e 21 sessões de quimioterapia, a cada 21 dias. No último dia 14, ao completar 68 anos, Helena postou em sua rede social: “A rede de amigos foi fundamental. Gratidão pelo que veio, aprendi muito e posso ajudar outras pessoas. Estou comemorando o meu renascimento”. Qual foi a primeira providência que você adotou quando soube do câncer? Eu fiz uma lista e dei nome a ela: rede de apoio. Coloquei todas as datas das quimioterapias e fui falando com cada um dos amigos próximos se eles poderiam me levar, me esperar e me trazer de volta. Por que criar essa rede como primeira providência? Porque, sem o Ynel, pensei assim: sozinha não vou dar conta. Tenho duas filhas, uma mora fora, e nem sempre a família está preparada para isso. Uma coisa que fiz também foi estabelecer uma relação de muita franqueza com o médico. Disse a ele que ou me dizia tudo sobre tudo, ou eu ia pesquisar por conta própria. A cirurgia tirou 28 tumores. Você sempre fez os exames de rotina? Sempre, sempre. Além dos exames normais, também oftalmologista, dentista... Os tumores eram agressivos, cresceram rápido. Depois da cirurgia, logo começou a quimio, o cabelo caiu e eu optei por não usar peruca. No máximo, saía com um lenço na cabeça. Também continuei trabalhando e, como estávamos na pandemia, as aulas eram virtuais. Apesar dos amigos, você passou por tudo isso morando sozinha. Sim, sozinha. A quimioterapia me fez perder os cabelos e me dava um cansaço enorme, mas eu nunca deixei de levantar e fazer minhas coisas. Meu ex-genro veio aqui em casa por seis meses fazer a comida, e essa ajuda eu nunca vou esquecer. Tinha momentos de solidão, sim, mas não deixava a tristeza me tomar. Uma coisa que mudou bastante foi a minha alimentação. Que tipo de mudança? Olha, eu sempre fui de estudar muito. Sou bastante curiosa. Comecei a ler tudo sobre a doença, não queria ficar com medo do que viria sem saber exatamente o que seria. Comprei livros, pesquisei em sites científicos, li artigos estrangeiros e muitas pesquisas. Há bastante estigma sobre o câncer: tem gente que nem vem falar com você, que não sabe como falar, como tratar. Câncer não é morte. Antigamente era, mas agora não é mais. A Medicina é fantástica, e eu dizia pra mim mesma: quanto mais eu souber, melhor. E o que você descobriu? Que a alimentação é um fator responsável por fazer células cancerígenas crescerem mais. Tirei o açúcar e as farinhas brancas do cardápio. Tirei todos os alimentos inflamatórios. Fui a uma nutricionista, comecei a fazer terapia, acupuntura, aplicação de ozonioterapia. E melhorei a minha imunidade com algo bem simples, que tomo todos os dias: meio limão, 70 gotas de própolis, uma colherinha de cúrcuma e uma colherinha de gengibre. Você precisa se informar para se aliar ao seu médico. A medicina integrativa é que te apoia e te ajuda. Vi que você começou a falar sobre esses tratamentos na rede social... Então, eu sempre fui de bastidor, mas, convencida por uma das minhas médicas, postei o que estava descobrindo com algumas terapias, e deu mais de 600 comentários. Aí percebi como as pessoas precisam de informação, como tem tanta gente precisando de uma rede de apoio, de trocas. Muita gente no escuro. Hoje, tenho umas 15 pessoas que ajudo com dicas, fontes de especialistas. Criamos uma rede fantástica de trocas. Você já parou para refletir por que precisou passar por tudo isso? Parei, sim. Precisava entender qual seria o meu papel daqui para frente. Percebi que um dos papéis é ajudar as pessoas que também descobrem o câncer e que precisam de informação, de apoio, de caminhos. As pessoas ficam no escuro, perdidas, nessa hora. Qual é a lição que fica de tudo isso? Olha, estou tendo a chance de viver novamente, melhorar coisas que você só percebe quando passa por isso, me dedicar a coisas que eu não fazia. O que, por exemplo? A gente vive em um turbilhão de trabalho, trabalho, tarefas de casa... e se esquece dos amigos. Sempre fui de fazer mil coisas ao mesmo tempo. Hoje, de segunda a domingo, estou sempre com um amigo, saio para tomar um café, para conversar nem que seja por telefone. Resgatei amigos do Sul que não via há mais de 30 anos. Precisamos sempre lembrar que estamos vivos. E agradecer por isso. E, olha, nem posso reclamar de ter perdido o amor da minha vida. Olho para trás e agradeço pelos 38 anos excepcionais de convivência.