Professora de libras do Estado cria ‘máscara da inclusão’ em Santos

As convencionas, feitas de pano, não permitem que o surdo faça a leitura labial

Quando o governador João Doria anunciou, há um mês, o possível retorno às aulas presenciais para setembro, a professora Leia Lacerda de Figueiredo pensou: e como vou dar aulas para os meus alunos com deficiência auditiva que só fazem leitura labial?

Pronto, estava dado o pontapé inicial para uma ideia que ela já tinha visto acontecer em outros países, mas ainda não por aqui: fazer máscaras que tivessem uma abertura plástica na frente, para permitir que as pessoas surdas e mudas pudessem compreender o que está sendo dito.

Costura foi a primeira profissão de Leia, que trabalhou durante seis anos em uma confecção de roupas de ginástica e balé. Na pandemia, para complementar a renda, ela vem fazendo máscaras convencionais, de tecido, e vende para amigos, conhecidos, vizinhos e pessoas de seu relacionamento.

A ideia de fazer a máscara transparente na frente foi, primeiro, pensando na aluna que tem na Escola Estadual Benevenuto Madureira, na Zona Noroeste. Lá, Leia é intérprete de libras em uma sala de aula de 8º ano, mas a aluna surda que tem faz leitura labial. “80% dos surdos fazem leitura labial. Nem todos usam a linguagem de libras”, diz a professora, que há dez anos é intérprete de libras, e não porque tenha alguém deficiente na família. “Fui fazer o curso porque sei que tem muita gente excluída da sociedade porque não consegue se comunicar, não consegue saber o que está acontecendo”, diz.

Mais trabalho

As máscaras para surdos dão mais trabalho, mas têm tido boa saída. “O tempo que levo para fazer uma é o mesmo que faria dez máscaras normais”, compara. 

Conforme foi divulgando o novo produto, uma legião de pessoas com deficiência e suas famílias foi em busca do ateliê da Leia para buscar a novidade. Foi assim com Jessica Bispo, que primeiro comprou para a mãe se comunicar com ela, depois para os colegas de trabalho. “As vezes me sinto ofendida quando estou em um local em que as pessoas sabem que eu não escuto, leio lábios, e não tiram a máscara. É como se eu não pudesse participar desse assunto...aí saio de cena”, disse em sua rede social.
“Eu sinto que reincluí essas pessoas na sociedade com um gesto muito simples como usar uma máscara acessível. A gente vive em sociedade e, às vezes, é difícil perceber a necessidade do outro”, diz Leia, que usa seu perfil no Facebook para expor a variada gama de máscaras que produz e receber encomendas. 

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