O restaurante por quilo surgiu em Santos, no litoral de São Paulo em 1970 (Divulgação) Uma descoberta histórica realizada durante a pesquisa do livro Identidade e Cultura Culinária Paulista – Vale do Paraíba e Litoral Norte está redesenhando a origem de um dos modelos de alimentação mais populares do Brasil: o restaurante por quilo. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Segundo documentos localizados no acervo de A Tribuna, o sistema, hoje presente em praticamente todas as cidades brasileiras, teria surgido no litoral de São Paulo no fim dos anos 1970, e não em Belo Horizonte nos anos 1980, como se acreditava até então. A obra, escrita pelo gastrônomo e comunicólogo Fabricio Addeo Ramos e lançada em 2025, integra o projeto COCUNIX, iniciativa do Pontão de Cultura NIX Diversidade voltada à valorização da culinária paulista e à formação gastronômica de pessoas de baixa renda. Embora o livro tenha como foco a construção da gastronomia paulista a partir de referências indígenas, caipiras e caiçaras, um dos achados documentais extrapolou o recorte regional. A reportagem que reescreveu a história Durante o levantamento para o livro, Ramos encontrou no jornal A Tribuna, de 9 de dezembro de 1982, a reportagem “Comida por quilo é inovação no Centro”. O texto descrevia o funcionamento de um self-service por peso no restaurante Fantasy, inaugurado naquele ano, e mencionava que o sistema já era utilizado desde 1978 no tradicional Clube Internacional de Regatas. Com isso, os empresários Walter Fonseca e Osório Fernandes Filho passam a ser reconhecidos como os criadores do modelo que se popularizou no país, uma descoberta que antecede a data historicamente atribuída ao sistema, até então creditado ao restaurante “Isto é aQuilo”, de Belo Horizonte, inaugurado em 1984. “Foi imediato”: pesquisador percebeu que havia algo maior Segundo Ramos, a identificação da matéria causou surpresa e mudou completamente a linha do tempo da gastronomia nacional. “Já no título, percebi que ali havia algo relevante. A frequência de registros sobre o sistema ‘por quilo’ só aparece 15 anos depois nos jornais. Era evidente que havia algo inusitado”, afirma. Ao comparar as datas, a conclusão foi inevitável: o modelo, tal como conhecido hoje, nasceu no litoral paulista e Santos pode reivindicar pioneirismo na criação de uma das experiências gastronômicas mais características do Brasil contemporâneo. Matéria publicado no Jornal A Tribuna ajudou o autor a complementar a pesquisa () Impacto cultural e histórico O achado reforça a importância da pesquisa documental para a gastronomia brasileira e destaca o papel do litoral paulista como centro de inovação. “É como encontrar uma prova capaz de redesenhar a história. Assim como certos feitos se perdem no tempo por falta de registro, aqui havia uma evidência clara, preservada”, diz Ramos. Para o pesquisador, saber que o restaurante por quilo surgiu em solo paulista fortalece a identidade gastronômica do Estado e amplia o entendimento sobre a evolução dos serviços de alimentação no país. Ele também chama atenção para o impacto sociocultural do formato, que democratizou o acesso à gastronomia, reduziu desperdícios, permitiu escolhas mais personalizadas e ainda deu espaço para que receitas regionais fossem preservadas e transmitidas entre gerações. Influência no Brasil e no mundo O modelo brasileiro também ultrapassou fronteiras. Ramos relata já ter encontrado restaurantes por quilo em cidades como Madrid, Lisboa, Miami e Nova York, muitos em bairros frequentados por brasileiros. Embora o sistema não seja simples de implementar fora do país, ele representa uma oportunidade para difundir a diversidade da culinária nacional ao exterior, assim como aconteceu com o rodízio de churrasco. Uma história que valoriza o território paulista A redescoberta do pioneirismo paulista traz peso para debates acadêmicos, turísticos e empreendedores. “Santos pode se orgulhar de ter contribuído de forma inovadora para a forma como o Brasil come. Valeria até uma placa no número 152 da Rua Itororó, endereço do Fantasy, o primeiro por quilo aberto ao público”, diz o autor. O livro e a pesquisa Segundo Ramos, a revelação foi resultado de cerca de 12 meses de pesquisa documental intensa, parte de um estudo maior que aborda a relação entre identidade cultural, território e gastronomia paulista, sempre valorizando técnicas tradicionais e práticas comunitárias. A versão digital do livro está disponível gratuitamente no site do projeto.