(Vanessa Rodrigues/AT) Foi a primeira vez que a Seccional São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil São Paulo (OAB) experimentou a votação on-line para a escolha de seu presidente, tanto na Capital quanto nas subseções espalhadas pelo Estado. Em Santos, 5.300 dos 5.800 votantes participaram da escolha, em que se reelegeu Raphael Meirelles para mais um mandato, de 2025 a 2027. Ele obteve 3.523 votos (73,7% do total válido) e terá na diretoria os advogados Daniella Berkowitz (vice-presidente), Leonardo Ramos (secretário-geral), Jackeline Pereira (secretária adjunta) e Cezar Hyppolito (tesoureiro). Na entrevista a seguir, Raphael e seus diretores, que estiveram em A Tribuna, falam sobre os obstáculos vencidos na primeira gestão e os desafios que se propõem a enfrentar até 2027. O presidente destaca a atuação das mais de 90 comissões temáticas da Ordem e o papel que desempenham na aproximação da categoria com os temas mais urgentes da sociedade. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Terminada sua primeira gestão à frente da OAB Santos, que avaliação o sr. faz em relação ao que estava previsto e o que foi realizado? Como presidente, digo que as obrigações aumentaram bastante. Até pelo tamanho da OAB Santos, a gente sente que a visibilidade cresce e as cobranças também, o que é positivo. Em termos de gestão, acho que conseguimos acolher, aglutinar muita gente. Até muitos que eram adversários hoje estão nos apoiando. Por isso nossa chapa deste ano foi União para Avançar Mais. Acho que conseguimos unir novamente a nossa classe. Queríamos fazer uma gestão mais leve e conseguimos, inclusive na campanha, que também foi leve e propositiva, sem ataques. Fizemos uma gestão tranquila, cumprimos o que foi prometido. O carro-chefe, que era a digitalização dos processos no Fórum e demandava muito esforço, deu certo. Já houve eleição com seis, sete candidatos. Desta vez foram apenas duas chapas. O senhor atribui essa redução à união da categoria em torno de interesses comuns? Quando as outras chapas em São Paulo começaram a se lançar, é normal que se lancem também nas demais cidades para pedir votos para a Capital. A primeira chapa de São Paulo que chegou a Santos não conseguiu montar um grupo aqui porque não havia tantas críticas à atual gestão que a justificasse. Assim aconteceu com outras. O que a gente reparou é que, embora muitos não concordassem com a nossa gestão, não conseguiriam fazer propostas tão diferentes do que aquelas que estavam sendo realizadas. Isso foi gratificante. Conseguimos unificar muitos grupos. Essa foi a primeira eleição on-line. Que avaliação o senhor faz desse processo? Tudo que é novo a gente tem receio, mas o número de eleitores mostra que o saldo é bem positivo. Aqui em Santos foram mais de 5.500 eleitores de um total de 5.800. E diminuiu a abstenção no Estado todo ta</CW>mbém. Para este próximo mandato, quais as prioridades? Tivemos a fase de facilitar a vida dos advogados com a digitalização dos processos e o combate à morosidade do Judiciário. Agora, o segundo passo é a reestruturação das nossas casas, a 2 e a 3. E temos um terreno para construir uma nova sede e unificar com a 2. Mas a prioridade maior é a acessibilidade, que foi ficando de lado por muitos anos. Precisamos dar melhor estrutura aos associados, com salas de audiência melhores, já que muitos não têm escritório. E além da questão física? Sabemos que ainda existem problemas no (Poder) Judiciário, especialmente na área de Família. Estamos lutando por uma quarta vara. Também vai começar a funcionar um novo sistema no Tribunal de Justiça, o Eproc (sistema processual eletrônico), que vai mudar tudo. Vamos montar um plantão de dúvidas para os advogados. É um novo cenário, e muitos não sabem como lidar com esse sistema. Em algumas áreas, há o receio de que a inteligência artificial (IA) vai eliminar empregos e trabalho. Também é uma preocupação do advogado? Sim, muitos acham que a IA vai nos substituir, mas, sabendo usar, vai é facilitar o trabalho. Os mais antigos, principalmente, precisam ser qualificados para essas novas tecnologias, e estamos atentos a isso. A gente entende que a IA pode ajudar o Judiciário: pequenos despachos, despachos padrão, guias de levantamento, tudo isso pode ajudar o Judiciário a facilitar a vida do advogado. No dia a dia, também pode ajudar com pesquisa, mas não, com elaboração de peças. Acredito, até, que o Judiciário fará uma fiscalização para ver se alguém está usando a IA para fazer a peça. A OAB sempre se envolveu em questões nacionais para além de suas atribuições. Esse papel ainda existe? E quais são, hoje, os temas que estão no radar da instituição como relevantes para o Brasil? Acredito que ainda tenha esse papel, sim, até porque muitos procuram a OAB antes mesmo de procurar as autoridades. A Ordem tem que se posicionar nas questões que sejam boas para a sociedade e para a democracia. E a Ordem acaba se envolvendo com muitas questões por conta do trabalho das comissões, que são muito ativas e com temas variados. A violência contra a mulher, por exemplo, é um tema em que a OAB sempre esteve presente, e quando as pessoas nos veem se posicionando e se envolvendo, acabamos inspirando outros a também participar. O Direito ainda é uma área interessante para o jovem na hora de escolher uma profissão? O Direito abre um leque de muitas opções. Nem sempre quem se forma em Direito quer advogar. Pode querer, inclusive, (prestar) um concurso público. Nos espanta, ainda, a quantidade de advogados que chegam ao mercado. Por mês, entregamos de 40 a 50 carteirinhas da Ordem, só na Subseção de Santos. Quarenta ou 50 todo mês? Exatamente, todos os meses do ano inteiro. Então, temos um total de 400 a 600 novos advogados por ano só em Santos. É espantosa a quantidade de advogados que temos aqui. Somos a terceira maior subseção do Estado, depois de Campinas e Guarulhos. Mas também tem muitos saindo do mercado. Qual o saldo? Não conseguimos ter esse número, é difícil. Por exemplo, quem tem mais de 70 anos não precisa pagar a renovação da Ordem e pode continuar atuando. Também acontece de muitos continuarem pagando, mas que não mais advogam. Até gostaríamos de fazer um censo, entender o perfil da advocacia aqui em Santos, mas a adesão é muito difícil. O advogado é, por natureza, uma pessoa desconfiada (risos). Ainda sobre formação, vocês sentem que novos profissionais chegam com deficiência educacional ao mercado de trabalho? No caso da advocacia, temos o filtro do Exame da Ordem. Se não tivesse o exame, pelo número de bacharéis em Direito que se formam, acho que, aí sim, seriam muitos e com deficiência. Criamos um curso de capacitação para o jovem advogado fazer antes de receber a carteira. Ensinamos sobre o sistema judiciário, reforçamos as questões éticas, fechamento de contratos. Fazemos essa pequena formação e também incentivamos que participem das nossas palestras e cursos. É uma forma que encontramos de aperfeiçoar a formação deles e elevar a régua. Há alguma área do Direito que, assim como na Medicina, desperte mais o interesse dos jovens advogados? Uma área bastante promissora é o Direito Marítimo, ainda pouco explorada pelos advogados jovens. Já foi mais difícil acessá-la, mas hoje está mais tranquilo. Demanda apenas que se prepare porque há legislações bem específicas. Temos o maior porto do País e muitas questões relacionadas a ele. Não é obrigatório ter Direito Marítimo na grade dos currículos de Direito, mas algumas universidades já colocaram. Outras áreas promissoras são de consultoria e compliance. Algum recado adicional para dar aos 3.523 advogados que votaram na sua chapa? Só agradecer a todos eles, e dizer que vamos cumprir tudo que anunciamos. E dizer que continuaremos nessa caminhada de unir a classe. Acreditamos que uma classe unida é mais forte.