As praias de Santos, em especial no trecho entre os canais 1 e 3, há alguns pontos verdes germinando. São os jundus, uma comunidade de plantas que surge nas faixas de areia. Apesar de pequena, essa vegetação é importantíssima para a preservação ambiental e uma aliada para conter a erosão das orlas. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Por isso, a Secretaria de Meio Ambiente de Santos (Semam) se reuniu com pesquisadores de oito universidades de toda a Baixada Santista na última quarta-feira para começar a segunda fase do Projeto Jundu, uma iniciativa para estudar, preservar e ampliar essa vegetação típica do litoral brasileiro nas praias da cidade. Santos ficou décadas sem ver jundu na praia. Isso porque, até os anos de 1980, era comum haver um esforço público para retirá-lo das faixas de areia em nome da urbanização. Talvez por isso muitos ainda vejam, hoje, a vegetação como sujeira ou descuido. “Achar que o jundu é um ‘mato’ é uma visão míope”, diz o biólogo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e especialista em botânica e educação ambiental Sidney Fernandes. Essa história começou a mudar há dois anos, quando o jundu, de repente, voltou a aparecer na faixa de areia ao lado do Parque Municipal Roberto Mário Santini, o Emissário Submarino, no José Menino. O motivo dele ressurgir após anos de extermínio ainda é assunto de estudos, mas o biólogo explica que uma possibilidade é que a matéria orgânica proveniente da emissão de esgoto pode ter ajudado as sementes das plantas, que normalmente são dispersadas pelo vento, a germinar. A primeira fase do Projeto Jundu começou em agosto de 2022, logo após a reaparição da planta, próximo ao Emissário. Ela terminou em maio deste ano, e, segundo a Semam, a Prefeitura ampliou a área vegetada, houve surgimento de outras espécies associadas, boa aderência das escolas ao projeto e a vinculação ao Plano Municipal de Recuperação e Conservação da Mata Atlântica e ao Plano de Ação Climática de Santos (PACS). Apesar de pequena, essa vegetação é importantíssima para a preservação ambiental e uma aliada para conter a erosão das orlas (Vanessa Rodrigues/ AT) Com a segunda fase, o objetivo é ampliar as áreas de jundu, criar um espaço educativo on-line e também um grupo técnico de trabalho multissetorial. Na última quinta-feira, de acordo com a Semam, foi constatado que a área de vegetação no Canal 2 resistiu à última ressaca marítima e também formou pequenas elevações onde a areia se concentrou. O biólogo da Unifesp é um dos pesquisadores que atuam como consultor da Prefeitura no Projeto Jundu e explica que, com suas raízes finas, ele é capaz de segurar os grãos de areia e evitar a erosão marinha. Na prática, ele impede que o mar avance e que a areia voe para outras partes da cidade, como no próprio calçadão da orla da praia, onde tantos santistas e turistas gostam de caminhar e praticar esportes. Isso, inclusive, é uma das vantagens econômicas da manutenção do jundu nas praias: sem ele, há mais gasto público para manter a limpeza do calçadão. “Sempre falo para os meus alunos que se não tiver o tripé social, ambiental e econômico, não vai funcionar. A natureza não é inimiga das pessoas, como algumas pessoas acham. A gente pode conviver harmonicamente com ela”, afirma Fernandes. Em um planeta que, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), já vive uma ebulição global que provoca o degelo das calotas polares e o avanço do mar, o jundu, ainda que pareça frágil, é um aliado importe e resiliente às intempéries do tempo: ele resiste à ressaca marítima, à salinidade, à erosão, às chuvas e ao sol intenso. Mostrou também que resistiu, ainda que contra as probabilidades, à urbanização. “Tudo é possível. A gente precisa apostar na ciência, assim como os maiores países do mundo apostam”, afirma o biólogo da Unifesp.