(Reprodução) Santos, segunda-feira, 1º de julho de 1996. A cidade amanheceu levemente fria, com temperatura na casa dos 12 graus. Enquanto os relógios marcavam mais um início de semana, Santos começava a entrar em outro tempo. A transformação acontecia diante das telas dos computadores, ainda poucos, ainda lentos e ainda distantes da rotina da maioria das pessoas. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Naquele dia, a cidade começava a navegar em um novo território. Chamava-se Internet, palavra “gringa” que ainda soava estranha para boa parte dos brasileiros, mas já anunciava uma das grandes transformações do fim do século 20. Em Santos, essa passagem para o mundo digital teve endereço certo: o Porto. Como tantas vezes na história, foi por ele que a cidade se colocou à frente no Brasil. (Reprodução) Site pioneiro Em meados da década de 1990, a Internet ainda dava seus primeiros passos no Brasil. Depois de nascer restrita a universidades, centros de pesquisa e órgãos públicos, a rede começava a chegar a empresas e usuários comuns. Foi nesse cenário que o Porto de Santos colocou no ar o endereço www.portodesantos.com. A iniciativa entrou para a história da comunicação regional e foi o segundo site governamental do país, tendo ficado atrás somente da página do Banco do Brasil. O portal do porto santista também ficou associado a outro dado pioneiro. Teria sido o primeiro site brasileiro a utilizar a linguagem Javascript, recurso que permitia novas formas de navegação e interação nas páginas da Internet. Para uma cidade marcada por ciclos de modernização ligados ao porto, o episódio indicava que Santos também começava a participar da revolução digital. O conteúdo do portal refletia a própria vocação santista. Ali estavam informações sobre movimentação de cargas, entrada e saída de navios, legislação portuária, sindicatos e dados de interesse do comércio marítimo. O Porto, que historicamente conectou Santos ao mundo por meio de navios, mercadorias, café e imigrantes, passava também a conectar a cidade por meio da informação on-line. Por trás daquela experiência pioneira estava o jornalista Carlos Mauri Alexandrino, da empresa Editores Associados, responsável pela produção e manutenção do portal. Em uma época em que criar uma página na Internet ainda era novidade para quase todo mundo, Mauri participou diretamente da implantação daquele que se tornaria o primeiro site da Baixada Santista. A ACS chega à rede Foi nesse ambiente que a Associação Comercial de Santos ganhou também sua primeira página na Internet. Em 1996, integrada ao portal do Porto de Santos, a home page da ACS apresentava a entidade e disponibilizava serviços e estatísticas de seus departamentos, com destaque para o setor cafeeiro, um dos pilares da economia santista ao longo de muitas décadas. O acesso podia ser feito pelo endereço www.portodesantos.com/acs.htm ou a partir da página principal do portal do Porto. Para o usuário de hoje, acostumado a sites dinâmicos, redes sociais e aplicativos, pode parecer pouco. Para 1996, era uma mudança importante na forma de consultar dados econômicos e institucionais. A novidade incluía também o correio eletrônico. A ACS passou a contar com e-mail, recurso ainda pouco difundido naquele período, permitindo o envio e recebimento de mensagens e arquivos para qualquer parte do mundo pagando tarifa local. Para os associados conectados à rede, a página oferecia informações atualizadas sobre embarques de café, pauta de ICMS, valor do dólar para exportação, certificados de origem, diferenciais e comunicados do setor. A página da ACS entrou no ar em 1º de julho de 1996. Suas informações tinham diferentes ritmos de atualização. Alguns dados eram renovados diariamente, como ICMS, Ufesp, dólar para exportação, número de certificados de origem emitidos e estatísticas de embarques de café pelos portos de Santos, Rio de Janeiro, Paranaguá, Vitória, Salvador e Varginha. Outros conteúdos eram atualizados semanal ou mensalmente. Poucos meses depois, em dezembro de 1996, a página da ACS já registrava média superior a sete mil consultas mensais. Os acessos ocorriam por dois pontos principais: um no Brasil, via Santos, e outro nos Estados Unidos, em Miami, o que facilitava a navegação de usuários europeus. A Internet ainda era limitada em velocidade e alcance, mas Santos já começava a aparecer nesse novo mapa de circulação de informações. Trilíngue Outro aspecto relevante era a oferta de conteúdo em três idiomas: português, inglês e espanhol. A escolha reforçava o perfil internacional da cidade e do Porto, acostumados ao diálogo com empresas, armadores, exportadores, importadores e instituições estrangeiras. A navegação, porém, ainda carregava características daquele primeiro momento da Internet. O visitante podia escolher entre páginas com frames ou navegação convencional. Para evitar a leitura de dados desatualizados, recomendava-se que os usuários frequentes limpassem o cache do navegador Netscape. Era uma época em que a Internet ainda exigia procedimentos técnicos que hoje pertencem à memória dos primeiros usuários da rede. Trinta anos depois, aquele início ajuda a compreender uma etapa importante da história urbana de Santos. A cidade que se desenvolveu em torno do porto, do comércio exterior e da circulação de informações econômicas também esteve entre as primeiras a experimentar a comunicação digital no Brasil. Nova linguagem O pioneirismo do site do Porto de Santos não foi um fato isolado. Ele expressava a tentativa de adaptar uma cidade portuária, comercial e internacionalizada a uma nova linguagem. A informação que antes circulava por boletins, telefonemas, documentos impressos e consultas presenciais passava a ser organizada em páginas eletrônicas acessíveis a partir de qualquer lugar conectado à rede. Hoje, consultar um site ou enviar um e-mail parece algo corriqueiro. Há trinta anos, porém, tudo isso era novidade. E foi por meio do Porto de Santos, acostumado há séculos a ligar a cidade ao mundo, que os santistas começaram a navegar também por essa nova rota chamada Internet. Sergio Willians é jornalista e pesquisador da história de Santos. Conheça seu trabalho no site www.memoriasantista.com.br.