Monte Serrat em 1968, em Santos (Cândido Gonzalez/ A Tribuna) Hoje, quem chega ao alto do Monte Serrat, em Santos, no litoral de São Paulo, encontra bondinhos, um antigo cassino, um santuário, atividades de lazer e uma vista aberta para boa parte da Baixada Santista. Mas o motivo que levou moradores de Santos e São Vicente a subir aquele morro, há mais de quatro séculos, era bem diferente. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Em 1614, eles procuraram abrigo no alto da colina durante uma invasão de corsários holandeses comandados por Joris van Spilbergen. Os moradores começaram a pedir proteção a Nossa Senhora do Monte Serrat enquanto os invasores tentavam alcançá-los. Os corsários subiram atrás da população, mas acabaram atingidos por um deslizamento de pedras. Alguns morreram soterrados e os sobreviventes desistiram da perseguição e deixaram o local. O episódio passou a fazer parte das histórias de milagres atribuídos à padroeira de Santos e é uma das passagens que ajudam a entender por que o Monte Serrat ocupa um lugar tão particular na história da cidade da Baixada Santista. Muito antes de se tornar um endereço turístico, portanto, o alto do morro já era um lugar procurado por quem precisava se proteger. Vista do Monte Serrat em 1968, em Santos (Cândido Gonzalez/ A Tribuna/ Arquivo/ Proibida a reprodução) Quando o morro era chamado de Vigia A localização ajuda a entender os fatos. O lugar era conhecido como Morro da Vigia. Do alto, a posição permitia observar a cidade e o porto de Santos. Séculos depois, a mesma característica que tornava o local estratégico para quem precisava acompanhar o que acontecia ao redor seria transformada em atração turística. O nome Monte Serrat está ligado à devoção a Nossa Senhora do Monte Serrat. Em 1604, foi construído o santuário dedicado à santa. A construção ocorreu por ordem do governador-geral Dom Francisco de Souza, devoto de Nossa Senhora, que entregou o santuário aos cuidados dos monges beneditinos. A história religiosa do local continuaria crescendo ao longo dos séculos. O Santuário de Nossa Senhora do Monte Serrat fica no alto do morro, em Santos (Alexsander Ferraz/ AT) Padroeira de Santos Nossa Senhora do Monte Serrat recebeu o título de Padroeira da cidade de Santos em 1954. Em 8 de setembro de 1955, foi declarada oficialmente pelo Papa. A data passou a ser feriado municipal. Todos os anos, o santuário e o complexo turístico recebem uma grande festa em celebração à santa. O episódio dos corsários não é o único milagre associado a ela. Nossa Senhora do Monte Serrat também é considerada protetora dos navegantes. Um dos relatos relacionados a essa proteção envolve o barco nacional Aguarary, em 1926. A embarcação enfrentava uma tempestade e os tripulantes já não conseguiam controlar a situação. Eles se ajoelharam no convés, rezaram e evocaram Nossa Senhora, prometendo celebrar uma missa em ação de graças caso conseguissem chegar em segurança a Santos. A tempestade cessou e o mar ficou calmo, segundo o relato. A tripulação cumpriu a promessa no Santuário do Monte Serrat e convidou oficiais e marinheiros de todos os navios que estavam no porto para a cerimônia. Reprodução do Monte Serrat antes das construções, em Santos (Acervo/ Museu Paulista da USP) De lugar de fé a empreendimento de luxo O Monte Serrat ganhou outra história no século 20. O projeto do complexo turístico é de 1910, mas a obra só foi concluída em 1927. Foram 17 anos de construção, em parte por causa da dificuldade para a chegada dos navios durante a Primeira Guerra Mundial. Seis sócios imigrantes espanhóis idealizaram o empreendimento para homenagear o Monte Serrat da Catalunha, na Espanha. O prédio foi erguido com materiais trazidos da Europa por navios. O piso é de mármore de Carrara suíço e as janelas têm vitrais belgas. A construção, com quatro andares, fica a aproximadamente 150 metros do nível do mar. E havia uma novidade que mudaria a forma de chegar ao alto: os bondinhos. A Via-Crúcis está presente em várias estações, nos 439 degraus da escadaria que leva ao alto do morro em Santos (Alexsander Ferraz/ AT) A máquina que ainda leva gente para o alto O sistema funicular foi projetado e importado da Alemanha na época da construção. O maquinário responsável pelo funcionamento dos bondinhos continua na centenária Casa de Máquinas, localizada no prédio da estação alta. O sistema tem dois motores elétricos. O principal, da mesma época do projeto, possui 76 hp. O segundo, alguns anos mais recente, tem 98 hp. Os bondinhos possuem freios automáticos e manuais. O maquinista pode controlar o sistema manualmente por meio de um pedal e de uma manivela. Bonde funicular transporta passageiros entre a base e o alto do morro em Santos (Matheus Tagé/ AT) Há ainda duas rodas, uma menor e outra maior, com dentes de madeira de ipê. A madeira evita o atrito com a engrenagem de aço e, assim, reduz o barulho durante o funcionamento. Na roda maior fica apoiado o cabo de aço que puxa os bondes. Ele tem quase duas polegadas de espessura e recebe lubrificação à base de óleo de peixe. O equipamento também tem uma função além do turismo. O sistema atende a uma comunidade de aproximadamente 3 mil moradores que se formou na encosta do Monte Serrat ao longo dos anos. Para quem não utiliza os bondinhos, existe outra alternativa: a escadaria lateral, com 402 degraus, que leva ao topo do morro. Procissão de Nossa Senhora do Monte Serrat, em 2010, em Santos (Alexsander Ferraz/ AT) Quando o monte virou palco de famosos Os bondinhos facilitaram a chegada, mas foi o cassino que transformou o local em um dos endereços de entretenimento da época. Em 1934, com a liberação dos jogos de azar no Brasil, um empresário inglês que conheceu o empreendimento e se encantou com ele arrendou o piso inferior do prédio para instalar um cassino. O espaço funcionou durante 12 anos, até 1946. Durante esse período, os salões receberam bailes, jantares importantes e shows. Entre os artistas que se apresentavam com frequência estavam Carmem Miranda, Francisco Alves, Sílvio Caldas e Isaurinha Garcia. O público também incluía banqueiros que vinham de São Paulo, barões do café, governadores, estrangeiros que chegavam pelos grandes transatlânticos e presidentes da República. O morro que um dia servira de refúgio diante de uma invasão passou a receber outro tipo de movimento: personalidades, artistas e visitantes atraídos pelo luxo do cassino. O cassino acabou A história do cassino terminou em 1946, quando os jogos foram proibidos no Brasil. O empreendimento passou, então, a ser administrado unicamente por Manoel Vallejo, um dos sócios e fundadores. Ele acreditava que o Monte Serrat ainda poderia atrair visitantes mesmo sem o cassino, graças à sua história e à cultura do local. Vallejo continuou cuidando do empreendimento até morrer, aos 69 anos, em 1956. A família Vallejo, herdeira do patrimônio, mantém atualmente a conservação do espaço. O prédio preserva sua arquitetura de época, a mobília original, a cultura e os valores ligados ao local. Vista do Monte Serrat em 1937, em Santos (S. Leopold Schuhmacher/ Divulgação) O que se vê do alto A posição estratégica do antigo Morro da Vigia continua presente, mas agora a paisagem é apreciada por quem visita o lugar. O Monte Serrat tem uma vista de 360 graus da Baixada Santista. Do mirante, é possível ver a orla da praia de Santos, a parte continental de Guarujá e a cidade de Cubatão. Também podem ser vistos no horizonte parte da Vila Belmiro, a Catedral de Nossa Senhora do Rosário, o Teatro Coliseu, a torre do Museu da Bolsa do Café, a Estação do Valongo, o Museu Pelé, a Praça dos Andradas e a Paróquia de São João Batista, no Morro Nova Cintra, ao lado do Morro São Bento. Grande parte da Serra do Mar também pode ser observada de lá. O antigo cassino hoje oferece opções de entretenimento em Santos (Carlos Nogueira/ PMS/ Divulgação) O que há atualmente O antigo cassino hoje oferece opções de entretenimento familiar. Entre elas estão o Espaço Baby, na cafeteria, e o Espaço Kids, na área externa, para crianças maiores. Há também uma Torre de Escalada com 7 metros de altura. A feirinha de artesanato reúne moradoras da comunidade do Morro do Monte Serrat. Quem quiser conhecer a história do lugar pode participar das Rotas Históricas, acompanhadas por monitores. Os visitantes conhecem a importância do morro para Santos, o prédio do cassino e a Casa de Máquinas centenária, além das histórias relacionadas a Nossa Senhora do Monte Serrat e aos milagres que fizeram dela a padroeira da cidade. Sistema de bondinho se tornou uma das principais atrações turísticas de Santos (Acervo A Tribuna) Bailes temáticos Na cafeteria, são oferecidos cafés, salgados, bolos, almoços, porções e diferentes bebidas geladas. O local recebe ainda excursões escolares, turísticas e religiosas. Entre as atividades culturais estão apresentações de dança e teatro, além de festivais de música e artesanato realizados em parceria com produtores da Baixada Santista. Playground em madeira, que conta com balanço e escorregador, fica na parte externa do prédio do Cassino do Monte Serrat, em Santos, e é gratuito (CarlosNogueira/ PMS) A subida ao Monte Serrat, portanto, leva hoje a um lugar muito diferente daquele procurado pelos moradores em 1614. No caminho, porém, permanecem as marcas de diferentes épocas: a história dos invasores que tentaram alcançar o morro, o santuário construído em 1604, o antigo cassino que recebeu artistas e personalidades, os bondinhos e sua centenária Casa de Máquinas e, no alto, a paisagem que ajudou a tornar aquele ponto estratégico desde os primeiros tempos de Santos.