[[legacy_image_299092]] Uma pintura artística datada do período entre o fim do século 19 e o início do 20 foi encontrada pela equipe de restauração do prédio do Centro Cultural Português, na Rua Amador Bueno, no Centro de Santos. A descoberta ocorreu sob seis camadas de tinta no chamado Salão Cerejeira. A restauradora especialista em patrimônio histórico na área de pintura e ornamento Andréia Naline, responsável pela descoberta, trabalha no centro cultural desde 2013, quando restaurou o Salão Camoniano — que recebe esse nome por ter pinturas que fazem referência à obra Os Lusíadas, de Luís de Camões. “Resolvemos fazer a prospecção do Salão Cerejeira agora, mas esse é um desejo antigo que eu tinha. Me inquietava muito ver o Salão Camoniano com uma pintura tão rica e o Salão Cerejeira ter toda uma pintura lisa”, revela. Munida de bisturis (instrumento cirúrgico), a equipe integrada por Naline fez o trabalho de decapagem, que é a remoção das camadas de tinta de trechos das paredes do salão. Nele, constatou-se que o Salão Cerejeira passou por quatro fases de ornamentação. A camada da primeira fase, vista mais nitidamente próxima ao forro, tem estilo similar ao da pintura encontrada no Salão Camoniano. [[legacy_image_299093]] Por isso, os restauradores atribuem a autoria dessa camada a um pintor espanhol chamado João Bernils, artista que pintou o Salão Camoniano no período entre 1900 e 1913, quando o cômodo foi inaugurado. Contudo, as camadas seguintes, que a sobrepuseram, têm autoria e data ainda desconhecidas. Para Naline, a descoberta das pinturas tem grande importância, não apenas para o estudo da arquitetura, mas para um resgate da história. “Os edifícios históricos têm como grande importância manter viva a história das cidades, da arquitetura e da arte. Quando fazemos um trabalho que resgata a originalidade de um edifício, promovemos acesso à cultura e à informação”, diz a restauradora. VerbaO feito foi celebrado pelo presidente da entidade, José Duarte de Almeida Alves, que destacou o apoio do governo português ao trabalho de restauração do prédio do centro cultural. “Graças ao apoio do Ministério dos Negócios Estrangeiros, nós obtivemos verba tanto para o restauro do Salão Camoniano quanto para a prospecção pictórica do Salão Cerejeira. (A descoberta) Foi uma surpresa enorme neste edifício, que é uma preciosidade da Baixada Santista.” Ainda segundo Duarte, a intenção do Centro Português é continuar os trabalhos no edifício. “Com nosso espírito de luta, nós vamos conseguir fazer essa restauração, que é uma coisa que ficará para a eternidade. Estamos empenhados”, diz. Ainda em elaboração, o projeto de restauro total da obra precisará da aprovação do Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Santos (Condepasa). De acordo com Naline, o projeto deve ficar pronto no ano que vem. “Conseguindo as aprovações e o apoio financeiro, faremos a restauração do salão em 2024.” [[legacy_image_299094]] NeomanuelinoInaugurado em 1901, o prédio do Centro Cultural Português de Santos tem uma peculiaridade: é um dos três edifícios construídos com o estilo arquitetônico neomanuelino no Brasil, e o único localizado no Estado. Os outros dois são prédios do Real Gabinete Português de Leitura, que ficam no Rio de Janeiro e na Bahia. “O estilo neomanuelino faz referências a um estilo mais naturalista. Então, tem elementos florais, por exemplo, principalmente nas portas e janelas. Há também a esfera armilar, que é um símbolo muito utilizado, além da cor rosada das fachadas dos edifícios com essa arquitetura”, explica Andréia Naline.