[[legacy_image_293874]] Dez dedos em 88 teclas construíram uma história musical durante sete décadas, que se encerrou na quinta-feira. O pianista José Eduardo Martins se despediu dos palcos em um lindo recital no salão nobre da Pinacoteca Benedicto Calixto, em Santos. Aos 85 anos, José Eduardo dedicou a vida à música, tornando-se um dos pianistas mais conceituados do Brasil, reconhecido internacionalmente. Com brilho nos olhos, o pianista fala da sua paixão por tudo o que viveu durante os 71 anos dedicados ao piano. “A música, apesar de todos os problemas, é uma dádiva. E eu sinto como uma dádiva ter me dedicado a ela a vida inteira. É uma felicidade incontestável”. Sua trajetória de recitais começou em 1952. Mas foi só cinco anos depois que ele teve sua primeira apresentação em Santos, em 20 de novembro de 1957, no Teatro Coliseu. “Eu vim com muita felicidade. O teatro estava cheio e foi inesquecível”, relembra. Com tantas memórias na Cidade, seu último recital público no Brasil tinha que ser em um lugar especial, um palco que ajudou até a selar uma grande amizade: com o compositor Gilberto Mendes. “Ele me dedicou 30 peças e todas as vezes que eu tocava na Pinacoteca, ele estava presente”. Em uma ponte que ligou as apresentações do Coliseu, em 1957, e a da última quinta-feira, na Pinacoteca, José Eduardo Martins reviveu um momento especial do seu primeiro recital na cidade, ao repetir peças do compositor húngaro Franz Liszt. “Esse é o princípio e fim. Anos atrás, eu toquei duas lendas, e em minha despedida, também”. DescansoAos 85 anos, o pianista diz seguir o conselho do poeta portugues Guerra Junqueiro, que diz que o tempo é infalível e insubornável. “É o momento exato de parar, mas continuarei a fazer música e tocar para pequenas plateias com intimidade e também continuarei a escrever sobre musicologia”. E as pequenas plateias são as que cativam os seus olhos. “Logicamente que eu toquei em grandes auditórios, mas as pequenas salas guardam uma intimidade, que não tem preço. Acho uma maravilha”. Para ele, a música é essencial. “A respiração não pede férias e eu continuarei a tocar. Porque a música sempre foi a minha respiração: nunca parou”. [[legacy_image_293875]] Sete décadas depoisComo 71 anos não são 71 dias, é claro que José Eduardo viu grandes mudanças no mundo da música e acompanhou cada uma delas. O avanço da tecnologia, com celulares e internet, por exemplo, desviou um pouco o olhar de muitos jovens para a cultura erudita. Mas sempre que se debruça às gerações mais novas que se dedicam à música, uma chama de esperança se acende dentro dele. “A música exige muito do músico para que ele chegue em determinado ponto. Ele tem que ser fiel ao que ele toca, à composição. Se possível, um pesquisador”. Novas geraçõesA nova geração da música esteve presente para ouvir o mestre. Lucas Almeida, de 16 anos, e Raquel Baeta, de 18 anos, alunos de piano da Escola Técnica de Música e Dança Ivanildo Rebouças da Silva, em Cubatão, encantaram-se com as palavras e notas do músico. “Foi algo que, com certeza, eu irei contar para todo mundo. Não tem como esquecer. É realmente raro presenciar um ícone como José Eduardo”, diz Lucas. A experiência marcou sua vida. “Tudo muda quando a gente vê uma pessoa dessa majestade tocando”. Já Raquel descreve a experiência como sensacional. “Ver alguém com tanta experiência contar sobre tudo o que passou, só mostra como o piano é para a vida. Não é apenas algo que você aprende, envolve muita dedicação. E a humildade que ele tem para nos passar isso é incrível”. [[legacy_image_293876]] MemorávelAo presidente da Fundação Pinacoteca Benedicto Calixto, Roberto Clemente Santini, é uma honra e felicidade receber o recital de despedida de José Eduardo. “Eu fiquei impressionado com a qualidade e dedicação. Ele coloca a alma na música”. Também pianista, o diretor cultural da Pinacoteca, Eduardo Paulino, viu a noite lhe trazer uma mistura de sentimentos. impressionante. “Além do nome, além de toda a sua capacidade musical, ele não só fechou com chave de ouro, ele fechou com mãos de ouro. É a conquista de uma vida dedicada à música”. [[legacy_image_293877]] Cristina Guedes, presidente da Associação dos Amigos da Pinacoteca Benedicto Calixto, ressaltou a importância da presença do artista em Santos. “É um motivo de muito orgulho e alegria para nós. Para a Pinacoteca é uma realização muito grande”. O escritor Flávio Viegas Amoreira também descreveu o momento como maravilhoso e de muita satisfação para os santistas. “Profunda admiração e gratidão eterna por sua presença em nossa Cidade”. A plateia se emocionou com a apresentação. Para a pianista santista Regina Freire, foi uma noite incrível. “Ele tem uma arte muito bonita, uma presença muito boa. Maravilhoso”. A escritora Carolina Ramos também admirou o recital. “Foi maravilhoso fazer uma despedida em nossa terra, em Santos. Foi uma coisa muito bonita. Ele tinha muitos outros lugares para isso, mas veio se despedir justamente em Santos”. [[legacy_image_293878]]