[[legacy_image_329984]] Tu pode me dar dois carás e três médias, por favor?! Se você ouvir essa frase não é preciso de localizador para se situar. Você, ou melhor tu, está em uma padoca de Santos. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Na terra de José Bonifácio, o pão francês é média e divide seu reinado com o inigualável pão de cará. Não adianta correr por aí, que o legítimo só em Santos. Já tem padaria paulistana com a especialidade no tabuleiro, mas com o nome e a receita certos: “Pão de Cará de Santos”. Afinal, desde 2022, essa identidade comestível santista ganhou seu merecido status. Foi nomeada Patrimônio Cultural Imaterial do Município. Mas nós, caiçaras, seus súditos, já tínhamos a iguaria em pedestal. A sua majestade, o pão de cará, está para Santos assim como os canais de Saturnino de Brito ou as muretas da Ponta da Praia. Desde criança, a gente é fortalecido a pão de cará. Fofinho, macio, brilhante e com um quê de doçura, é amado de 0 a 100 anos. E vai bem com qualquer recheio, desde a simplicidade de uma boa manteiga a criações de chefs. Foi até a inspiração na final do Masterchef Profissionais 2023, sendo a base de uma sobremesa do chef Frank Bin. Porém, já faz tempo que nossa majestade não tem cará, o tubérculo, na massa, só mesmo no nome. É, na verdade, feito de farinha de trigo. Sua receita original ainda é nebulosa. Faz parte de seu mistério. Há quem defenda que, no início de sua existência, era feito com cará, que substituía o trigo, importado e muito caro no Brasil. Após muitas tentativas de substitutos diferentes, chegou-se ao resultado de um pão fofo e adocicado. O argumento faz sentido. É a mesma coisa com o pão de queijo, que usou polvilho de mandioca para suprir a falta do trigo direcionado a classes altas. Outros pesquisadores defendem que há tantas décadas ele é feito assim: sem cará. Só recebeu o nome porque depois de pronto lembrava a cor e formato do tubérculo. Seja como for, com o resgate e a valorização desse símbolo santista, algumas casas elaboraram receitas usando cará na massa. Estima-se que, diariamente, 120 mil pães de cará saiam de fornos caiçaras. Como toda relação de afeto, esta é cercada de melindres. No balcão, você vai ouvir: “Quero três pães de cará, mas do meio”. A ponta da fornada é como a primeira fatia de pão de forma, invariavelmente desprezada. Há debates acalorados se o melhor é o com calda no topo ou se ela estraga a fornada. Seja brilhante ou opaco, do meio ou da ponta, com ou sem tubérculo, não há quem ao sair de Santos não alimente a saudade do pão de cará. É relação de amor, gostinho de casa, reconhecimento incontestável da sua realeza por seus súditos.