Morreu neste domingo (19), aos 76 anos, o pasteleiro Domingos Marques da Silva, figura conhecida no bairro Aparecida, em Santos, no litoral de São Paulo. Ele faleceu na Santa Casa de Santos, em decorrência de insuficiência renal aguda. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Domingos vinha enfrentando problemas de saúde há alguns meses. Segundo o filho, o corretor de imóveis Ivo Mendes da Silva, de 36 anos, as dores começaram de forma gradual e inicialmente foram associadas a questões na coluna. O diagnóstico mais grave só foi confirmado recentemente. “Ele foi se despedindo aos poucos, recebeu visitas de familiares e netos, e foi ficando mais fraco até dormir profundamente. Ele se foi ao meu lado”, relatou. Uma vida dedicada ao trabalho Natural da Bahia, Domingos chegou ao litoral paulista ainda adolescente, aos 16 anos. Antes de se tornar pasteleiro, trabalhou como pedreiro, até ingressar no comércio ambulante por influência de familiares. Foi na esquina das avenidas Pedro Lessa e Almirante Cochrane, no Canal 5, que construiu sua história. Durante quase cinco décadas, manteve o carrinho de pastel no mesmo ponto, tornando-se referência no bairro. O trabalho era mais do que sustento. “Era a vida dele. Ele criou todos os filhos com isso e sentia muito orgulho”, afirmou o filho. Mesmo aposentado, Domingos continuou trabalhando diariamente. Morador de São Vicente, ele chegava a pedalar cerca de 24 quilômetros por dia para atender seus clientes em Santos. Quando as dores impediram o trajeto de bicicleta, passou a utilizar ônibus, mas seguiu ativo até não conseguir mais. Relação com os clientes Ao longo dos anos, Domingos construiu mais do que uma clientela fiel: criou laços de amizade. Era comum atender famílias de até três gerações no mesmo carrinho. “Ele fez muitos amigos. Muitas vezes dizia que era até psicólogo, porque as pessoas paravam para conversar, contar problemas e pedir conselhos”, lembrou Ivo. A presença constante no bairro fez com que se tornasse uma figura querida. “Era difícil alguém passar e não chamar pelo nome. Sempre ouvi: ‘seu pai é muito gente boa’”, contou. Histórias marcantes também ficaram na memória da família. Uma delas envolveu um cliente que, tocado pelas conversas com Domingos, passou a enviar presentes e bilhetes carinhosos aos filhos do pasteleiro. Em outro episódio, um relato sobre a “melhor coxinha do mundo”, compartilhado nas redes sociais, viralizou e ajudou a impulsionar as vendas após a pandemia. Foto registrada em abril de 1988 (Arquivo Pessoal) Homem de família e valores fortes Descrito como uma pessoa séria no dia a dia, Domingos se transformava quando reunia a família. Os encontros aos domingos eram momentos de alegria, com a casa cheia de filhos, netos e parentes. Ele deixa cinco filhos e seis netos. Segundo o filho, sempre foi presente e preocupado com todos. “Mesmo com a vida encaminhada, ele queria saber se estava tudo bem, se as contas estavam em dia. Sempre incentivou a gente a estudar e correr atrás dos sonhos”. Respeito, generosidade e honestidade eram valores que guiavam sua vida. Ao longo dos anos, ele e a esposa chegaram a acolher cerca de 15 famílias em casa, ajudando principalmente parentes e conhecidos vindos do Nordeste em busca de oportunidades. Despedida O velório foi realizado na Osan de São Vicente, e o sepultamento ocorreu no Cemitério Municipal da cidade. A despedida reuniu cerca de 200 pessoas entre familiares, amigos e clientes. Para o filho, a principal lembrança será a de um homem batalhador. “Vou lembrar sempre do guerreiro que ele foi, responsável e muito dedicado à família”. Domingos deixa como legado não apenas o trabalho, mas a história de quem construiu, com simplicidade e esforço, uma relação de afeto com toda uma comunidade.