[[legacy_image_266691]] A psicóloga Carolina Ferraz fala sobre como vencer desafios importantes da gestação, especialmente no aspecto psicológico. Dá dicas sobre como combater a depressão pós-parto e estimula a rede de apoio familiar para acompanhar a mamãe. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Você trabalha com mulheres que sonham ser mães. Essa pressão, às vezes, começa muito antes da gestação? Costumo dizer que a maternidade começa na nossa infância. É nos ensaios da infância que aquela maternidade vai se desenhando. Quando a gente brinca de boneca, quando brinca de cozinha... Parece que a gente é formada para esse papel de maternidade. Mas, nem sempre ele vem, nem sempre é natural. Aí começa: “Casou? Quando vai ter um filho? Teve o primeiro? Quando vai ter o segundo?”. Essa pressão social muito grande sobre nós, mulheres, para esse papel de mãe. E, antes de a gente engravidar, começa todo o nosso trabalho. Por que optou por esse atendimento às mulheres que sonham em ser mães, e também o pós-parto?Por causa da minha filha, Laura. Fui uma tentante, demorei alguns meses até conseguir engravidar. Quando aconteceu, tive uma tristeza. Ouvia das pessoas: “Mas você queria tanto, desejou tanto”. Hoje entendo, com meu trabalho, essa questão hormonal que a gente passa durante toda a gravidez. Não tive um pré-natal psicológico, com acompanhamento especializado de psicólogas obstétricas. Teve meu parto, meu pós-parto e tive baby blues. Ali, pensei; era psicóloga, fazia terapia, e não sabia que existia tudo que estava vivendo. Pensei que precisava de um profissional de Psicologia que olhe para esse momento da mulher. Aí que fui me especializar em obstetrícia. O puerpério, do ponto de vista emocional, vai até 2 ou 3 anos de vida do bebê. Muitas mães que enfrentam depressão pós-parto não têm acompanhamento psicológico adequado. Como chegar a mães que dependem do serviço público?A depressão pós-parto é subdiagnosticada. Se a gente falar na gestação, as mulheres são atingidas em até 15%. Na verdade, isso pode começar até antes do parto. O que fazemos? O pré-natal psicológico, um acompanhamento especializado. Não é uma psicoterapia comum. Não é o mesmo que uma terapia. A gente trabalha com a gestação, porque tudo o que essa mãe sente, passa para o bebê. É aquela velha história: tudo o que eu sinto, o bebê vai sentir? Sim. Isso não é para trazer um peso às mulheres. É hormonal. O que a gente sente, nosso estresse, nossa ansiedade, é liberado no nosso corpo por meio de hormônios, que vão chegar por meio do cordão umbilical. Ou seja: cuidar da saúde mental dessa mulher é cuidar da saúde do bebê. Também chamamos uma rede de apoio. O pai é totalmente importante nesse processo. Qual a diferença do baby blues para uma depressão pós-parto?Quando a gente engravida, os hormônios sobem e têm um pico. Com o parto e a saída da placenta, eles caem bruscamente, e algumas mulheres têm uma sensibilidade a essa oscilação hormonal. Então, é um estado emocional causado pelo hormônio, que vai trazer sintomas parecidos com uma depressão pós-parto: melancolia, tristeza, choro fácil, insegurança, sempre mais para o final do dia, ao entardecer. Vai de três a cinco dias do pós-parto até 21 dias. Passando disso, tem que estar muito melhor. Deu um mês, 40 dias, e a mulher ainda tem sintomas, é um sinal amarelo de que pode ser depressão pós-parto. A escritora Thaís Vilarinho, autora do livro Mãe Fora da Caixa e de outros títulos ligados à maternidade, falou sobre os desafios, as cobranças da sociedade - muitas na própria família - e a identificação por parte de mulheres que, muitas vezes, não conseguem verbalizar o que sentem. A expressão que se tornou título do seu livro ficou muito conhecida nas redes sociais, onde você compartilha os desafios da maternidade com milhões de pessoas. Afinal, o que é ser uma mãe fora da caixa? É fugir de padrões, das regras sobre maternidade, de que tem que ser assim ou assado. Cada mãe é única, assim como cada bebê. Se ficarmos tentando nos encaixar nos padrões, a gente sofre muito. Para ter autonomia, precisamos rasgar as caixas e criar do jeito que a gente realmente acredita e que funciona para a gente e para o nosso filho. Existe muita cobrança da sociedade por essa maternidade perfeita? Sempre tem. Falo, tanto no livro como na peça, dos julgamentos e dos palpites, que vêm sempre. E como é importante a gente saber lidar com isso, porque acontece, não tem jeito. A sociedade busca essa mãe perfeita, que faz tudo perfeito, e essa mulher meio que desaparece. E é importante ela não desaparecer, porque a maternidade é uma parte da vida. A gente tem nossa identidade, as coisas que gostamos de fazer, além do trabalho. A gente precisa preservar isso, assim como saber filtrar coisas que a gente escuta. Até porque palpites vêm de todos os lados... Com certeza, de família, dos amigos... Lógico que muitos deles são com boa intenção. Mas vejamos: nossas mães têm muito o que ensinar para a gente. Mas já faz bastante tempo que elas foram mães e as coisas já mudaram um pouco. Tem que ter dessa dosagem. É importante aprender com os mais velhos, Tem coisas que já mudaram, e até os médicos falam que é diferente. É um “puxa-repuxa” e a gente tem que ter equilíbrio para ir levando da melhor forma, para não ter briga na família. É seguir nosso coração, seguir o que a gente acredita ser o certo. E quando você começou a compartilhar os seus relatos pelas redes sociais, percebeu logo quantas mulheres se identificavam com a mesma situação? Comecei a escrever em 2014. Naquela época, não tinha ninguém falando sobre maternidade desse jeito. Era a grama verdinha, as fotos maravilhosas, a família de comercial de margarina. Mas a gente sabe que a realidade não é assim. Quando comecei, pensei que iam achar que estou destruindo a maternidade, e não é nada disso. Acredito que há coisas maravilhosas na maternidade, que nos transforma de muitas formas. É algo maravilhoso, mas também um megadesafio ser responsável pela criação de um ser humano. Muitas mães, nos comentários, me diziam: “Parece que você está na minha cabeça”. Foi nesse processo que elas sugeriram que eu escrevesse um livro. A maternidade é uma montanha-russa de sentimentos? Uma diz que é preciso dar limites, outra que precisamos dar liberdade. É um equilíbrio muito difícil, e também particular. Porque cada filho é único e esse limite é diferente individualmente. É o trabalho mais difícil do mundo, mas o mais especial também. Você é mãe de dois meninos, sendo um na fase da adolescência, que é totalmente diferente. Como isso veio para sua vida e também transformou em textos? Virou livro também, o Imagina na Adolescência. Muitas pessoas rotulam de aborrecentes e precisamos ter empatia com eles. A gente já foi adolescente e sabe o quão desafiadora é essa fase. É de aprovação, onde você quer pertence (a um grupo). Se você ficar entrando nessa caixa do aborrecente, a gente se afasta desse jovem. O afastamento já é normal, porque eles precisam formar as próprias ideias, se descolar um pouco da gente. Ficar rotulando como fase de gente chata, afasta mais ainda. E como foi ver um livro seu no teatro, com a dramatização de todos esses desafios da maternidade?Inicialmente, foi uma surpresa. Quando recebi o e-mail, pensei que era uma pegadinha (risos). Mas foi uma delícia ver trechos do livro.