[[legacy_image_97237]] “Essa alegria sempre esteve muito presente na família. Deus quer que a gente seja alegre sempre, mas confesso que, às vezes, eu banco o palhaço para ver se eu provoco umas risadas”. É com essa mensagem positiva e descontraída que o monsenhor Francisco das Dores Leite, mais conhecido como padre Chiquinho, esbanja uma felicidade contagiante, muita sabedoria e fé inabalável. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Aos 89 anos, a jovialidade segue intacta para esse cidadão que não poderia ter nascido em outro município, capaz de descrevê-lo tão bem: Miracatu, cidade do Vale do Ribeira que, em tupi-guarani, significa “terra de gente boa”. Após atuar por 49 anos na Paróquia São Judas Tadeu, no Marapé, o religioso tornou-se uma referência no bairro e uma figura muito popular pela sua simpatia, que cativava toda a comunidade. No dia 13 de dezembro de 2016, uma notícia veio à tona e causou incredulidade: a decisão do bispo dom Tarcísio Scaramussa de transferi-lo para Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Pompeia, a partir de janeiro do ano seguinte. Muitos apelaram para São Judas Tadeu, o santo das causas impossíveis, e fizeram abaixo-assinado para que Chiquinho permanecesse na paróquia. Porém, ele foi obediente e admitiu não estranhar essa decisão. “Não é interessante que o padre fique por tanto tempo em uma paróquia, porque a tendência dele é de se acomodar e o povo ficar privado de ouvir outras cabeças. É sadio esse sistema que a Igreja tem de renovar”, destacou. Mudança Após um breve período na Pompeia, Chiquinho teve alguns problemas de saúde e foi aposentado oficialmente da função que começou a exercer em 1º de março de 1958, passando a morar, em junho de 2018, na Residência Sacerdotal, um imóvel mantido pela Diocese de Santos, na Ponta da Praia, onde também vive o bispo emérito dom Jacyr Francisco Braido. O padre revelou que fez um tratamento bem-sucedido contra um câncer de próstata e, posteriormente, passou por uma cirurgia em razão da bursite trocantérica (inflamação da bursa, que é uma pequena bolsa ou tecido localizado na região próxima do fêmur). As enfermidades não o abalaram. “A gente tendo Deus, tem solução para tudo”, ressaltou. Isso também não abalou o seu bom humor. “Daqui a pouco eu chego aos 90 anos. Tenho a impressão, como eu sou muito pessimista, que não vou viver mais 85 anos (risos). Enquanto a cabeça funcionar muito bem, a gente continua”, destacou. Pandemia Chiquinho lamentou as milhares de mortes provocadas pela covid-19 em todo o mundo e a tristeza provocada para muitas famílias. Por outro lado, ele entende que a pandemia suscitou coisas positivas, como a boa vontade das pessoas e a ajuda ao próximo. “Nós, brasileiros, que temos tantas qualidades por causa das nossas origens, temos certas dificuldades com a disciplina. E quem não for disciplinado prejudica a si próprio e pode levar a doença aos outros. É preciso ter bom senso", disse ele, que perdeu um sobrinho para o coronavírus. O padre segue fazendo as orações diárias com os demais integrantes da casa e as celebrações na capela particular da residência, que tem o título de seu padroeiro, São João Maria Vianey. “Também escrevo minhas coisinhas e faço as minhas observações, mas não as guardo para mim. Faço um comentário bem modesto sobre o Evangelho diariamente, que é enviado para as pessoas. Tenho a impressão que eu de alguma forma estou fazendo o bem”. E completou: “Talvez a pior coisa para um idoso seja a falta de tarefa, pois parece que a vida fica sem sentido. Mas isso está longe de ocorrer comigo”. Paixão pelo Santos é inegociável Padre Chiquinho fez uma única condição para conceder a entrevista para A Tribuna, na última quarta-feira: não falar mal do Santos Futebol Clube. Obviamente, após fazer a “exigência” durante o contato telefônico inicial, ele deu uma gargalhada e disse que estava brincando. Com muito orgulho, o sacerdote exibia uma camisa do clube repleta de autógrafos de atletas que passaram pelo gramado da Vila Belmiro e arriscava cantar o hino. Um fato curioso é que ele somente acompanhou o time do coração uma única vez no estádio. E a memória guardada daquela ocasião especial foi de uma vitória suada. O religioso fez referência à partida disputada contra o Coritiba, em 22 de maio de 2016, válida pelo Campeonato Brasileiro. Os visitantes saíram na frente e bateu o receio que ele seria o pé frio. Porém, o Peixe conseguiu a virada nos acréscimos e ganhou o jogo por 2 a 1. “Estava saindo do estádio e algumas pessoas me abordaram, mas eu precisava voltar para a Igreja São Judas. Então, eu disse que ia deixar para reflexão a frase de um importante profeta: ‘de virada é mais gostoso’”, afirmou Chiquinho, gargalhando ao lembrar da situação. Segundo Chiquinho, a experiência de ver a partida na Vila Belmiro foi muito rica e interessante. “A gente acaba ouvindo de tudo (risos). Esse clima no estádio contagia todo mundo. Isso é próprio de Deus. Ele quer unir a gente. Infelizmente, nós inventamos coisas que nos separam”, explicou ele, lamentando as brigas provocadas pelo futebol.