[[legacy_image_288672]] Uma profissional de telemarketing de 52 anos, com câncer de pele, decidiu buscar tratamento em um hospital público de São Paulo após ficar insatisfeita com as opções disponíveis na Baixada Santista. Ana Paula Ziliotti, moradora do bairro José Menino, em Santos, recebe um salário mínimo e gasta uma quantia considerável com o transporte para a Capital. Em entrevista para A Tribuna, a santista explica que descobriu um melanoma em 2016, quando uma pinta surgiu em sua perna esquerda. A equipe médica diagnosticou o câncer como maligno e, a partir disso, Ana Paula fez uma cirurgia para retirar o tumor. Ela afirma que o procedimento correu bem, mas o médico disse que ela “já estava bem” e o acompanhamento não prosseguiu. Foi no início de 2022 que outro câncer de pele, com metástase, apareceu próximo à virilha. O tumor começou a evoluir, momento em que ela iniciou o tratamento no Hospital Estadual Guilherme Álvaro (HGA), em Santos, pela rede pública. A insatisfação logo tomou conta e Ana Paula decidiu buscar outras alternativas, desta vez fora da Baixada Santista. ‘Não tiveram profissionalismo'Ana Paula afirma que não conseguiu realizar nenhum processo adequadamente na unidade de saúde, reclamando ainda da ausência de um espaço específico para oncologia. Ela também ressalta que, como pacientes com câncer tendem a sentir muita dor, tornando penoso o processo de aguardar longas horas na fila para o atendimento. “Lá eu fiquei uns quatro meses e nada de o Guilherme Álvaro dar um diagnóstico ou fazer alguma coisa para que eu pudesse tratar imediatamente. Eles não tiveram um profissionalismo, eu só passei por estagiários, para algo que seria uma coisa séria. E eu não consegui fazer o tratamento, me senti muito mal pela falta de psicologia do médico, porque essa doença precisa de um cuidado maior, por ser um trauma grande”, lamenta. Uma prima da mulher a ajudou na tarefa de encontrar outro lugar. Ela acabou direcionada ao Hospital Santa Marcelina, no bairro Itaquera, onde frequenta até hoje. Ana Paula está afastada do trabalho desde o início de 2022, pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), e usa boa parte do salário para custear as despesas do transporte. Contraste de opiniõesJá no início do tratamento na capital paulista, Ana Paula diz ter visto uma diferença substancial na qualidade dos serviços. Os médicos examinaram a perna dela e, após uma bateria de exames, ela operou. “Eles me deram toda a assistência e rapidez em tomografia, ressonância, exames, tudo muito rápido”, elogia. No período de poucos meses, ela diz ter feito procedimentos cirúrgicos também nas costas, perto das costelas e no braço a fim de tirar tumores benignos que apareceram. Já em dezembro, iniciou a quimioterapia, que concluiu com cinco sessões. Quando o médico notou um resultado positivo, no final de abril deste ano, ela não tinha mais a metástase. “Dentro de todo esse tratamento, entre as operações e quimioterapia, a radioterapia, eles sempre estão me pedindo para fazer ressonância, tomografia. Estão me tratamento de forma exemplar. Eu tive muita sorte”, afirma. Ao longo de todo o tratamento, idas e vindas de São Paulo, Ana Paula precisou gastar um bom dinheiro. Ela explica que, no início, gastava cerca de R\$ 400 a R\$ 550 reais mensalmente. Na época em que fazia quimioterapia, a frequência das viagens era de aproximadamente três vezes. Da estação do Jabaquara, ela pega o metrô para chegar a Itaquera e ainda depende de viagens por aplicativo, já que não conhece muito a cidade. “Às vezes eu saio às 5h da manhã aqui para chegar lá às 8h, para conseguir chegar ao hospital no tempo certo da consulta e do exame”. Com o avanço do tratamento, Ana Paula gasta menos atualmente. São no mínimo R\$ 150 para custear o transporte de Santos a São Paulo, entre uma e duas vezes no mês. “Esse valor me faz muita falta para a alimentação ou despesa da casa, do aluguel, que eu pago. Eu vivo somente desse salário mínimo. Não tenho recurso nenhum. Tem que ter uma cabeça muito forte”, afirma. ExpectativasMorando sozinha há cinco anos, Ana Paula conta com a ajuda de familiares e até de uma igreja para a aquisição de cestas básica. Muitas vezes, a paciente diz já ter passado necessidades alimentares devido aos gastos. Afirma que, no início das viagens, tentou pedir auxílio à Prefeitura de Santos para conseguir uma van que a transportasse, mas que não teve retorno. Ana Paula ressalta a importância de falar sobre o tema, pois avalia que muitos pacientes da Baixada Santista não conseguem se deslocar com frequência da mesma maneira. “Eu acho que Santos, que tem uma estrutura boa, tem pessoas que podem estar participando desse assunto para uma melhoria para quem não tem condições de ir para lá”. A santista espera que a maratona de viagens acabe daqui a cerca de um mês. “A quimioterapia é a parte mais dolorosa do tratamento, você tem reações… Eu perdi 20 quilos, perdi o canal linfático da perna porque o tumor já tinha dominado essa parte também. Mas, com sucesso, estou passando já quase para a cura agora em setembro”. No final de julho, a paciente fez o último tratamento, a radioterapia, no qual se utilizam radiações para destruir as células do tumor ou impedir que se multipliquem. Se houver avanços positivos, a frequência de idas ao Santa Marcelina também tem expectativa de redução. Interessados em ajudar Ana Paula podem doar qualquer valor. O Pix dela é anaziliotti4@gmail.com. EstadoPor meio de nota, a Secretaria Estadual de Saúde confirma que a paciente fez a cirurgia para remover o melanoma em 2016 e não retornou para acompanhamento. Em 2022, ela voltou ao hospital devido a uma evolução com nódulos na região do abdome, situação que, segundo ela, se estendia há oito meses. “Prontamente ela foi atendida na especialidade de Onco-Dermatologia, realizou exames de imagem (tomografias de pelve, abdome superior, tórax e crânio), laboratoriais e método diagnóstico eletrocardiograma, porém, novamente não retornou para dar continuidade ao tratamento”, afirma. “O HGA realiza, em média, 600 atendimentos por mês, é integrante da Rede de Alta Complexidade em Oncologia (UNACON) com Radioterapia e possui estrutura física, recursos humanos e tecnológicos em diagnose e terapia”, acrescenta o comunicado. A Tribuna também entrou em contato com a Prefeitura de Santos, mas não teve retorno.