(Reprodução) Santos, 24 de agosto de 1960. As bancas de jornais espalhadas pela cidade traziam logo cedo uma novidade, especialmente para a criançada. Naquela manhã ensolarada de quarta-feira, circulava pela primeira vez, sob a batuta do experiente jornalista Hamleto Rosato, o tio Leto, um caderno dedicado aos pequenos, com textos, atividades e informações voltadas ao crescimento intelectual da meninada santista. Era o chamado Caderno A Tribuninha, cujo propósito ia além do papel educativo. Ali também havia o encanto da diversão. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! E foi nesse território lúdico e divertido que Santos testemunhou o nascimento de seus primeiros personagens de desenho do universo infantil: Patolo e Patilda, dois pequenos patos nascidos e criados na Lagoa da Saudade, no morro da Nova Cintra. Os dois não se encaixavam no papel de heróis de capa ou tampouco no de aventureiros que vinham de terras distantes. Ambos vinham das águas tranquilas do alto do morro, carregando nos pés palmados a missão de apresentar Santos às suas próprias crianças. Naquele instante, pela primeira vez, a cidade não aparecia somente como cenário de uma narrativa fantasiosa para pequenos leitores. Santos passou também a ter suas histórias contadas por personagens nascidos de sua paisagem, conhecedores de seus costumes e de sua vida cotidiana. (Reprodução) A dupla surgiu em um momento especial, quando a cidade santista vivia um de seus períodos mais otimistas. O crescimento urbano avançava, os bondes ainda costuravam bairros, o porto mantinha seu ritmo de trabalho, o principal clube local, o Santos Futebol Clube, encantava o mundo da bola com Pelé, e o Brasil experimentava a confiança simbólica de uma nova capital recém-inaugurada, Brasília. Assim, na ótica dos novos amigos da criançada santista, vista das encostas da Nova Cintra, a cidade parecia um livro aberto, com canais desenhados como linhas de caderno, avenidas em movimento e o mar estendido para além da imaginação infantil. Os primeiros personagens infantis santistas Patolo e Patilda surgiram da imaginação do jornalista Hamleto Rosato, como irmãos gêmeos de temperamentos opostos. Patolo era impulsivo, brincalhão, curioso e frequentemente metido em confusões. Patilda era mais prudente, observadora e cuidadosa, sempre pronta a corrigir o irmão e transformar cada aventura em aprendizado. (Reprodução) A força dos personagens se concentrava justamente nessa simplicidade. Eles não viviam em uma cidade inventada, nem dependiam de castelos, florestas mágicas ou planetas distantes. Circulavam pelos mesmos espaços conhecidos das crianças santistas. Desciam o morro, tomavam bonde, passeavam pelo Gonzaga, observavam a cidade do alto, visitavam o Monte Serrat, admiravam monumentos, falavam de escola, praia, futebol, jornal, festas populares e vida em comunidade. Com eles, Santos deixava de ser apenas o lugar onde as crianças moravam e passava a ser o território da imaginação infantil. Era possível reconhecer a própria cidade nas páginas do jornal e, depois, de um livro que reuniu as principais histórias da dupla. Foi possível descobrir que a Lagoa da Saudade, os bondes, as praças, os canais e as praias também podiam pertencer ao mundo das histórias infantis. Tio Leto e a meninada santista Hamleto compreendia bem o valor desse gesto. Jornalista, cronista e observador atento da vida cotidiana, ele sabia que a infância também precisava de personagens que falassem a sua língua e, ao mesmo tempo, a aproximassem da cidade. Por isso, Patolo e Patilda não apenas divertiam. Eles ensinavam. Por isso, a importância da criação não se sustentava apenas pela palavra escrita. Patolo e Patilda ganharam forma, traço e expressão pelas mãos dos desenhistas Dino e J. C. Lôbo, responsáveis por transformar os dois patinhos em figuras reconhecíveis para a criançada. Coube a eles dar corpo visual à imaginação de Rosato, que era carinhosamente chamado de “Tio Leto” pelos pequenos, definindo a aparência, os gestos e a presença gráfica dos personagens nas páginas dedicadas ao público infantil. A parceria entre texto e desenho foi fundamental. Se Rosato criou a alma narrativa de Patolo e Patilda, Dino e J. C. Lôbo ajudaram a fixar seus rostos na memória das crianças. A dupla de patinhos era vista, acompanhada e reconhecida. E isso fazia toda a diferença para personagens que nasciam com vocação de permanecer no imaginário santista. Nas aventuras da dupla, o humor vinha acompanhado de lições sobre educação, respeito, higiene, prudência, convivência, civismo e amor ao estudo. Uma travessura terminava em conselho. Um passeio virava aula de história. Uma bronca de Patilda se transformava em pequena cartilha de comportamento. A cidade inteira parecia participar do processo, como se Santos fosse uma grande sala de aula a céu aberto. Rosato escrevia para uma geração que ainda descobria o mundo pelo jornal, pelo rádio, pela escola, pela rua e pelo convívio familiar. Seu mérito foi entender que a formação infantil também podia nascer da fantasia. Ao lado dos traços de Dino e J. C. Lôbo, Patolo e Patilda cumpriram uma função pioneira. Eles educavam sem abandonar a graça, ensinavam sem perder a leveza e apresentavam Santos às crianças como quem abria uma janela para o próprio quintal. Sergio Willians é jornalista e pesquisador da história de Santos. Conheça seu trabalho no site www.memoriasantista.com.br.