Bonde conduzido por bombeiro durante a greve de 1945/46, com guarda feita por soldados da Força Policial (Reprodução) Santos, 31 de dezembro de 1945. O ano chegava às últimas horas, mas a cidade pouco tinha a festejar. Havia cinco dias, os bondes praticamente haviam desaparecido das ruas por causa da greve dos trabalhadores da Companhia City, dificultando a rotina de milhares de santistas. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Naquela noite de segunda-feira, porém, algo mudou. Por volta das 21 horas, depois de aproximadamente 120 horas de paralisação, um bonde deixou as instalações da empresa e voltou aos trilhos. Diante dos comandos não estava um motorneiro da City, mas um homem de outra farda, treinado para combater incêndios e realizar salvamentos. Na passagem de 1945 para 1946, o bombeiro também se tornara motorneiro. No bonde lotado, oficiais também cobravam bilhetes; em 1953, bombeiros e PM comandara o bonde 250 (Reprodução) Cidade dependente dos trilhos Durante décadas, os bondes haviam acompanhado o crescimento de Santos em direção à Ponta da Praia, ao José Menino, ao Macuco e aos bairros mais afastados do Centro. Trabalhadores dependiam deles para chegar ao emprego, estudantes para alcançar as escolas, famílias para visitar parentes e consumidores para chegar ao comércio. Horários, pontos, linhas e baldeações faziam parte da rotina santista. Por isso, quando motorneiros, condutores e outros empregados da City cruzaram os braços, a greve rapidamente deixou de ser uma questão restrita aos trabalhadores da empresa e atingiu toda a cidade. Em dezembro de 1945, as negociações haviam chegado a um ponto crítico. Os grevistas reivindicavam, entre outras questões, fornecimento gratuito de uniformes, devolução de valores descontados pelo fardamento, gratificações, questões relacionadas ao abono de Natal e pagamento dos dias parados. Enquanto se discutia uma saída para o impasse, Santos permanecia privada de seu principal meio de transporte coletivo. A presença dos bombeiros nos controles dos elétricos, contudo, não havia surgido naquela passagem de ano. Em 16 de outubro de 1917, quase três décadas antes, os motorneiros da City já haviam entrado em greve, e uma das razões da paralisação estava justamente no treinamento de soldados do Corpo de Bombeiros para conduzir os bondes. Os trabalhadores compreenderam o significado daquela preparação: se os motorneiros parassem, haveria homens capacitados para substituí-los. Eles pediram à Câmara Municipal que o treinamento fosse interrompido e, como não foram atendidos, cruzaram os braços. A crise avançou, alcançou outras categorias e numerosos empregados da companhia acabaram presos. O vereador Heitor de Morais chegou a apresentar pedido de habeas corpus em favor de 474 operários. Assim, já em 1917, os bombeiros haviam sido inseridos em uma estratégia destinada a impedir que uma paralisação dos transportes imobilizasse completamente Santos. Cem bombeiros nos comandos Em dezembro de 1945, aquilo que antes constituíra uma possibilidade tornou-se realidade em grande escala. Diante da continuidade da greve, as autoridades determinaram a ocupação das dependências da Companhia City. Policiais garantiram a retirada dos carros enquanto cerca de cem bombeiros vindos da Capital paulista foram mobilizados para assumir os comandos. Por volta das 21 horas de 31 de dezembro, o primeiro elétrico saiu. Outros vieram em seguida e, ao todo, cerca de 25 bondes circularam naquela noite, com prioridade para as linhas mais longas, justamente aquelas que atendiam regiões afastadas e populosas. Após cinco dias de dificuldades para circular pela cidade, os passageiros rapidamente ocuparam os veículos. Guardas civis auxiliaram na operação e chegaram a cobrar as passagens, enquanto policiais acompanhavam os carros. Nos estribos e plataformas, uniformes pouco habituais naquele cenário passaram a dividir espaço com os santistas que apenas desejavam chegar ao destino. A imagem certamente causava estranhamento. Homens acostumados a manejar mangueiras, bombas e equipamentos de salvamento precisavam agora controlar a aceleração do elétrico, observar os trilhos, acionar corretamente os freios, acompanhar a rede aérea e transportar dezenas de pessoas pelas ruas de Santos. Para o primeiro dia de 1946, o plano das autoridades era ainda maior: aproximadamente 20 bondes deveriam circular entre 6 e 23 horas. Enquanto a paralisação continuasse, os bombeiros permaneceriam nos comandos. Para os grevistas, aqueles substitutos reduziam a capacidade de pressão do movimento, exatamente como os motorneiros haviam temido em 1917. Para milhares de passageiros, porém, depois de dias enfrentando enormes dificuldades de locomoção, os bondes novamente nas ruas representavam algum retorno à rotina. No centro daquela disputa estavam os bombeiros. Eles não negociavam salários, não administravam a City e tampouco decidiam o rumo da greve. Ainda assim, eram eles que faziam os carros avançarem. E aconteceu novamente Oito anos depois, em julho de 1953, Santos assistiu novamente à cena. A City já havia deixado o sistema, então administrado pelo Serviço Municipal de Transportes Coletivos (SMTC), mas uma nova greve voltou a paralisar parte do transporte. Os bombeiros foram convocados outra vez e, em 15 de julho, as autoridades planejavam colocar cerca de 50 bondes e 45 ônibus em circulação, além de automóveis particulares funcionando como lotações. Um registro daquele dia mostrou o bonde número 250 conduzido por um bombeiro, com um policial militar no estribo. A cidade havia mudado e os ônibus ganhavam cada vez mais espaço, mas a imagem parecia saída de outra época. Era o capítulo final de uma história curiosa em que, nos momentos de crise, a farda dos bombeiros também encontrou seu lugar sobre os trilhos de Santos. Sergio Willians é jornalista e pesquisador da história de santos. conheça seu trabalho no site www.memoriasantista.com.br.