[[legacy_image_290491]] São Paulo, sábado, 20 de agosto de 1938. O prefeito de Santos, Cyro de Athayde Carneiro, aproveitou sua ida à Capital para empreender uma breve visita ao Lyceu de Artes de Ofícios, escola de grande reputação especializada em marcenaria, serraria, modelagem, cerâmica artística, metalurgia, galvanoplastia, fundição, mecânica, encadernação e tapeçaria. O chefe do Executivo, no entanto, não fora àquele templo de criatividade apenas a passeio ou por deleite cultural. Ele buscava inspiração para depositar mais uma pequena "cereja", entre tantas, no "bolo" que seria entregue cinco meses depois, em janeiro de 1939, durante as festividades relativas aos 100 anos da elevação santista à categoria de cidade: a nova Praça Mauá, dotada então com um novíssimo e imponente Paço Municipal. Acompanhado pelo gerente do famoso Lyceu, Luiz Seattolin, Cyro observava, curioso, as peças escultóricas produzidas pelos alunos da escola e confessou que buscava algo que remetesse à arte francesa clássica, uma vez que os projetos da Praça Mauá e do próprio Paço se inspiravam na arquitetura parisiense e no ambiente dos jardins do Palácio de Versalhes. [[legacy_image_290492]] "Coysevox!", exclamou o gestor do Lyceu. "Antoine Coysevox é a inspiração mais do que apropriada para o que Santos almeja neste projeto", considerou Seattolin. O célebre escultor francês dos séculos 17 e 18, de fato, fora o grande mestre que salpicou os jardins de Versalhes com belíssimas obras produzidas em mármore. Isso sem falar que praticamente toda Paris abriga obras dele, incluindo os velhos cemitérios. Sem dúvida, Coysevox era a inspiração perfeita. Mas que tipo de figura poderia ser colocada em Santos? Seattolin, então, pegou um catálogo das obras do escultor francês e apontou para uma bela figura feminina semirreclinada coletando água de uma nascente com uma concha. Cyro ficou encantado. É esta! A imagem mostrava a famosa "Nymphe à la coquille" (Ninfa de Conchas), obra esculpida em mármore entre 1683 e 1685 e que permaneceu em Versalhes até 1878, antes de ser transferida para o Museu do Louvre em 1891. O prefeito santista, empolgado, questionou se o Lyceu conseguiria executar uma réplica perfeita da obra e de pronto recebeu a resposta positiva. Assim, decidido por encomendar a ninfa para Santos, aproveitou e pediu para o que a escola enviasse também uma proposta para a produção de um conjunto escultórico que pudesse ornar o hall de entrada do Paço Municipal. [[legacy_image_290493]] Em 9 de setembro, o prefeito recebia, então, um ofício assinado por Seattolin, com as propostas da Ninfa, de Coysevox, e uma réplica da obra As Três Graças, de German Pillon (que se encontram hoje no Alberto e Victória Museum, de Londres). Esta segunda obra acabou não sendo contratada, ao final. Conclusão Em 14 de setembro, o expediente da Prefeitura dava conta de que a obra da Ninfa de Conchas poderia ser transferida para os jardins da orla, quando houvesse a instalação prevista de uma fonte luminosa na Praça Mauá (que nunca foi realizada). No dia 27 de dezembro de 1938, a réplica da Ninfa de Conchas, de Coysevox, estava devidamente concluída, conforme comunicado enviado pelo Lyceu de Artes de Ofícios de São Paulo. Produzida em bronze, a estátua custou aos cofres públicos 9,5 contos de réis (equivalente a R\$ 160 mil em 2023), pagos em maio de 1939. [[legacy_image_290494]] A chegada e o futuro A Ninfa de Conchas chegou a Santos em 10 de janeiro de 1939, poucos dias antes das festividades comemorativas do centenário da elevação de Santos à categoria de cidade e logo foi assentada em seu espaço na Praça Mauá pela equipe de obras da Prefeitura. O monumento ficou virado de frente para o Paço Municipal, em meio à calçada de piso geométrico proposta no projeto de embelezamento para o local e cercada de pequenos canteiros de flores. Nesses 84 anos de convivência na Praça Mauá, a Ninfa de Conchas já testemunhou seu entorno sofrer modificações algumas vezes e inclusive já foi confundida por muita gente, sendo chamada de Ninfa de Náiade (que é outra, a que nos anos 1940 foi "expulsa" da Praça José Bonifácio pelas religiosas que frequentavam a Catedral e acabou enviada ao Orquidário). Mas, ao contrário de sua "irmã" exilada, a Ninfa de Conchas passou a maior parte de sua existência em Santos no ambiente árido. Só em 1988, quando a Prefeitura reformou a Praça Mauá para instalar um conjunto de banheiros públicos, bem embaixo da criatura mitológica, é que ela ganhou espelhos d'água ao seu redor. Ali, então, a Ninfa finalmente recebeu de presente um ambiente condizente com sua temática. 290495 Cuidando do Memorial Desde 7 de setembro de 2022, a Ninfa de Conchas convive com um novo "vizinho", o Memorial José Bonifácio, que substituiu os banheiros públicos (que ali ficaram por 35 anos), e se mantém firme como a grande musa da Praça Mauá, o principal elemento que nos faz lembrar que um dia pensaram o espaço como uma miniatura de Versalhes. Sergio Willians é jornalista e pesquisador da história de Santos. Conheça seu trabalho no site www.memoriasantista.com.br