[[legacy_image_299008]] “Fiquei fragilizada e em choque”, disse Lícia Roncaratti, de 22 anos. A jovem é barista de uma cafeteria que foi alvo de homofobia no dia 18 de setembro, no Gonzaga, em Santos. Uma mulher que passava em frente ao estabelecimento teria entrado e se incomodado com uma bandeira com as cores do arco-íris que fica na fachada do café. No momento do ocorrido, Lícia era a única funcionária no local e conta que ficou sem reação. O local é o Tarantino Coffee N' Geek, que existe desde 2016, mas somente em 2019 começou a funcionar no Shopping Balneário. Em imagens registradas pelas câmeras de segurança, é possível ouvir o que a mulher fala: “Ó, quem lacra, não lucra, viu? Essa bandeirinha gay aqui não tá com nada, em Santos não pega, isso aqui é bom lá na Augusta. Põe a do Brasil que aqui enche”. [[legacy_image_299009]] Lícia conta que por volta das 16h15, ela estava sozinha no café e não havia nenhum cliente, quando de repente, a mulher que estava pelo corredor do shopping viu a bandeira em frente ao estabelecimento e começou a gritar as ofensas. “Ela ficou alguns segundos parada gritando muito alto e depois saiu gritando pelo corredor também. Eu fiquei muito fragilizada e em choque, não sabia como reagir, minha ansiedade até atacou e eu chorei um pouco, mas depois me acalmei e o dono me deu muito apoio”, relata. O proprietário do local, Leandro Garcia, disse que essa foi a primeira vez que algo assim aconteceu presencialmente no estabelecimento, mas relembrou que acontecimentos semelhantes já ocorreram virtualmente. “Teve uma vez que algumas pessoas até fizeram um mutirão para nos dar notas baixas em avaliações do Google. Por sorte, conseguimos reverter a situação.” O caso não foi registrado em boletim de ocorrência, mas Leandro afirma que sempre deu liberdade para que os funcionários se defendam em situações discriminatórias de homofobia ou racismo. “Quando eu vi que a Lícia tinha passado por isso, cheguei aqui e dei todo apoio a ela. Ao mesmo tempo que bate uma revolta, a gente sente que tá no caminho certo, pois esse tipo de pessoa não queremos aqui no nosso estabelecimento.” SentimentoMesmo que as ofensas não tenham sido diretamente a Lícia, a jovem conta que se sentiu muito abalada pela magnitude da situação. “A moça não sabia que eu sou LGBT e as ofensas não foram direcionadas a mim pessoalmente, mas por fazer parte da comunidade senti o peso do que ela estava querendo dizer”, explica. [[legacy_image_299010]] Em frente ao café, a barista conta que estavam dois seguranças do shopping, que presenciaram toda a situação, mas não tomaram nenhuma atitude. “Parece que não levaram a sério a gravidade do que ela estava fazendo, propagando discurso de ódio contra um grupo inteiro, ofendendo um estabelecimento e constrangendo uma funcionária. Gostaria de poder vir trabalhar no shopping sabendo que estou num ambiente seguro e livre de preconceitos, mas infelizmente não é a realidade.” Procurado, o Shopping Parque Balneário respondeu por meio de sua assessoria de imprensa a administração do local repudia qualquer forma de preconceito e discriminação, reforçando que desde 1977, todos são bem-vindos ao Mall. No entanto, não se manifestou sobre a atitude dos seguranças. Mesmo depois do ocorrido, Lícia afirma que não culpa os seguranças e diz que essa possa ser uma oportunidade para o shopping refletir sobre como eles instruem os funcionários a lidar com esse tipo de situação. Depois do ocorrido, o Tarantino Café postou o vídeo em suas redes sociais e o resultado foi acolhimento de diversas pessoas. “Fiquei bem feliz de ver as pessoas engajando positivamente no Instagram, contando relatos de como é importante pra elas ter um estabelecimento assim aqui em Santos e apoiando a gente a continuar essa inclusão. Eu ainda me sinto levemente traumatizada, ninguém merece passar por uma situação assim no próprio trabalho. Mas, ao mesmo tempo me sinto feliz de trabalhar em um espaço livre de preconceitos. Foi uma pessoa que passou gritando ofensas, mas são centenas de outras que se sentem acolhidas e bem-vindas. Isso faz valer a pena”, finaliza.