[[legacy_image_294830]] “Estou sem nada, nada. Menos do que eu tinha antes”. A fala é da diarista Sheila Cristina da Silva, de 35 anos, que precisou deixar a casa onde vivia com o marido e os quatro filhos na comunidade Caminho São José, em Santos, na noite desta segunda-feira (4). O fogo a acordou de um cochilo para um verdadeiro pesadelo. Sheila foi uma das afetadas pelo incêndio que tomou conta da comunidade, no Dique da Vila Gilda, onde há centenas de moradias sobre palafitas. O cenário é de desespero e insegurança para muitos que, assim como ela, não sabem para onde vão. Os moradores pedem ajuda aos órgãos competentes, recorrendo a parentes e amigos para abrigo. "Eu estava cochilando, meu marido tinha ido para a rua e as crianças estavam brincando na sala. Aí a vizinha saiu gritando, falando que estava pegando fogo, e eu levantei assustada, porque não estava vendo fogo nenhum. O fogo vinha do barraco de trás, do beco do lado. Eu vi o reflexo pelo telhado do vizinho”, conta à Reportagem. De acordo com o coordenador de riscos da Defesa Civil de Santos, Paulo Ricardo Silveira Domingues, 200 a 300 moradias foram atingidas pelo fogo. Assim como Sheila, outras várias famílias amargam o prejuízo e tentam se restabelecer para seguir em frente. DesalentoA doméstica Viviane Santos, de 37 anos, viu o barraco onde vivia com a família ser tomado pelo fogo. Ela tem dois filhos, um de 12 e outro de 4, que vive no espectro autista e reage mal a lugares barulhentos. Sendo assim, ela não pode recorrer aos abrigos disponibilizados pela Prefeitura. [[legacy_image_294831]] Com lágrimas no rosto e um olhar de desespero, Viviane relatou os momentos de tensão que enfrentou. Ela perdeu praticamente tudo que tinha, exceto duas geladeiras, uma máquina de lavar, um colchão, algumas roupas e itens pessoais. “Estava chegando da casa da minha amiga, aí eu vi a correria e meu marido dormindo. Aí o chamei e falei que estava pegando fogo no beco. Todo mundo tentou apagar, destruíram o barraco para conter o incêndio, mas sem sucesso”, lembra. Sheila passou por algo parecido. Ela recorda que a primeira reação foi pegar os quatro filhos, que têm entre três e 12 anos, e sair de casa. Os moradores começaram a quebrar os barracos na intenção de conter o avanço das chamas, o que incluiu o imóvel no qual ela vivia há alguns meses. Tudo o que a família salvou foram algumas roupas, uma geladeira e um fogão. Por sorte, o RG de Sheila também escapou. ‘Parece um pesadelo’Para a diarista, foi difícil ver os filhos com tanto medo no início do incêndio. Ela morou de aluguel por quatro anos e, há alguns meses, alcançou o objetivo de ter um barraco próprio na comunidade. Tudo o que faz agora é lamentar as consequências do ocorrido. “Eles ficaram todos no chão, o pessoal trazendo as coisas, eles desesperados. Eu nunca tinha visto isso, me deu um nervoso, uma coisa horrível. Parece um pesadelo, a gente não imagina que vai passar por isso. Oito horas da noite eu estava fazendo planos de como eu ia reformar a casa, às dez estava sem casa”. [[legacy_image_294832]] Tatiane da Silva, de 39 anos, também acompanhou o drama de perto com a filha adolescente e a irmã, Vanessa. “Não sabia se arrumava as coisas, se eu chorava, se ajudava. Um desespero só”, recorda. O imóvel onde ela vivia continuou de pé e não chegou a ser atingido pelo fogo, mas apresenta riscos estruturais, o que levou os bombeiros a impedirem a estadia. Desde esta segunda, ela e a filha estão abrigadas no Centro Esportivo e Recreativo da Zona Noroeste, na região do Dale Coutinho. “Hoje, fui lá para pegar as coisas, mas só peguei o que tinha que pegar, não sei como está lá dentro porque está muito quente, rachou da quentura e está estralando. Então, não tem como ficar”. Apesar de viver em uma comunidade próxima, Vanessa sentiu as dores da irmã na pele. “Foi aquele corre-corre. Eu ajudei a pegar a mangueira também, tudo, e na hora que o fogo alastrou mais, veio muita fumaça. Eu acabei inalando, fui de ambulância para a UPA e fiquei lá em observação até 3 horas da manhã. Colocaram até oxigênio em mim, tive falta de ar”. [[legacy_image_294833]] Quais os próximos passos?Rosimeire do Espirito Santo, filha do aposentado Antônio Carlos do Espirito Santo, de 67 anos, explica para A Tribuna que o pai perdeu muita coisa nas chamas. Apesar de o fogo não atingir o imóvel, ele ficou destruído durante as movimentações para o combate. Alguns dos eletrodomésticos chegaram a ser furtados. Seu Antônio Carlos morava em um barraco há 47 anos e, agora, tem esperanças de conseguir uma moradia popular disponibilizada pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU). Desde a tragédia desta segunda-feira, ele está abrigado na casa da filha Rosimeire, que vive com a própria família. “Eles quebraram muitos barracos, algumas paredes, o telhado, a porta da geladeira dele. Teve que quebrar para o fogo não se alastrar mais. Meu pai é operado, tem problema cardíaco, levei ele para a minha casa com minha madrasta e irmão”, explica ela. [[legacy_image_294834]] Assim como Antônio Carlos, a doméstica Viviane aguarda ser chamada para retirar um apartamento pela CDHU. De acordo com a Prefeitura de Santos, há 235 famílias cadastradas na Escola Pedro Crescenti e outras 25 no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) regional. As mudanças para as unidades habitacionais começaram em julho deste ano e, de 640 famílias, 460 já se mudaram do Dique da Vila Gilda para o Conjunto Residencial Tancredo Neves. A expectativa é de abrigar todas até novembro. Causas do incêndio são incertasSegundo apurado por A Tribuna, duas famílias passaram a noite na Unidade Municipal de Educação (UME) Pedro Crescenti, na Avenida Brigadeiro Faria Lima. Muitas também levaram eletrodomésticos e móveis para a unidade após o ocorrido. O local está servindo alimentos secos e doando frutas. Entre o fim da noite e a madrugada desta terça-feira (5), foram mais de 270 famílias cadastradas. Quem fez o cadastro na unidade foi redirecionado ao Centro Esportivo e Recreativo da Zona Noroeste. Nesta terça, foi informado que dez famílias buscaram abrigo no local. Muitas pessoas se dispersaram para visitas na UPA e buscar itens na própria comunidade. Segundo a Defesa Civil de Santos, o órgão está fazendo um reconhecimento da área e vistoria nas edificações. Ainda não há certezas sobre as causas do incêndio. As condições meteorológicas contribuíram para o alastramento do fogo. [[legacy_image_294835]] DoaçõesNas redes sociais, o prefeito Rogério Santos (PSDB) pediu doações de mantimentos para as vítimas do incêndio. Boa parte dos desabrigados foi para casas de parentes e amigos, mas quem precisar de suprimentos pode ir até a UME Pedro Crescenti, na Avenida Brigadeiro Faria Lima. As doações podem ser feitas no Fundo Social de Solidariedade (FSS) de Santos, na Avenida Conselheiro Nébias, 388, na Encruzilhada. EstadoA Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação do Estado disse, em nota, que está investindo para retirar famílias de áreas de risco na Baixada Santista. "O município de Santos é atendido pelo programa Vida Digna, com 1.014 mil novas moradias que estão em construção para famílias que vivem em palafitas. No total, o programa está investindo mais de R\$ 660 milhões para a construção de 3,6 mil moradias e revitalização de áreas em Santos, Guarujá, Cubatão, Praia Grande e São Vicente". O Governo do Estado afirma também que abriu credenciamento para construir até 12 mil moradias no Litoral Paulista, tendo como foco pessoas que vivem em áreas de risco, entre as quais encostas, morros e regiões alagáveis. "Atualmente, estão em construção 6,6 mil unidades habitacionais na Baixada Santista, entre produção própria e aportes, com investimento estadual total de R\$ 909 milhões, e outras 8,2 mil unidades previstas". Para prover moradia aos ocupantes da comunidade Caminho São José, o Estado afirma que aportou R\$ 63,3 milhões na construção de 2.440 unidades dos condomínios Tancredo Neves II e III. "O empreendimento faz parte do PAC, do Governo Federal, que responde pela construção dos prédios".