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Quarta-feira

26 de Fevereiro de 2020

Moradoras do Dique da Vila Gilda, em Santos, realizam encontros mensais para 'mudar vidas'

Mulheres discutem temas do dia a dia e buscam caminhos para um futuro melhor, sempre com foco no empoderamento

Para lutarem pelos seus direitos, mulheres têm que conhecê-los. Partindo desta premissa, uma vez por mês, moradoras do Dique da Vila Gilda, na Zona Noroeste, em Santos, se reúnem em uma roda de conversa para trocar experiências e discutir temas que afetam a comunidade, sempre com foco no empoderamento deste público.

A comerciante Katia Teles, de 46 anos, lembra que enfrentou situações abusivas ao longo de toda a vida, sem entender muito bem o que se passava, até que conheceu a Cooperativa de Costura do Dique da Vila Gilda (Cooperdique).

“Perdi meus pais cedo e sofri maus tratos desde muito cedo. Por conta do machismo, me faziam acreditar que eu era incapaz. Minha realidade mudou depois destas trocas”.

Além das conversas com mulheres que passavam por situações parecidas e troca de informações nas rodas de conversas, Katia também colocou no papel, em forma de poesias, as situações que a aborreciam.

A líder comunitária Lucinéia Marques da Silva Souza, a Néia, idealizadora da Cooperdique, deu início às rodas de conversas há alguns anos para mudar a realidade do seu entorno. “O que nos falta é informação. Poder levar isso para donas de casas e dar uma oportunidade de profissão. Essas discussões ajudam coletivamente e trazem uma rede de fortalecimento”.

A aposentada Dagmar Rodrigues da Silva, de 61 anos, conta que todos os assuntos podem ser tratados nos encontros. “No mês passado, falamos dos problemas de Saúde na Zona Noroeste e fizemos um abaixo-assinado pedindo que melhorias. Lutamos por coisas melhores às mulheres, o que reflete no entorno”.

Parcerias

A roda de conversa deste mês, que aconteceu nesta segunda-feira (29), ocorreu fora da comunidade. Como as costureiras da Cooperdique haviam feito aventais e guardanapos para o restaurante Yolo Cozinha Contemporânea, no Boqueirão, em Santos, o chef Bruno Justo, sócio do local, ofereceu o espaço e um chá da tarde para que as mulheres realizassem o encontro num local diferente.

“Queria trabalhar com a comunidade, gerando valor a essas pessoas. A ideia é não só consumir o produto final delas, mas trabalhar em parceria com quem está ao redor”, diz o chef.

E desta roda de conversa saiu uma possibilidade para que a cooperativa ajude mais. “Temos várias mulheres que não saem de uma relação abusiva por não ter uma renda, um trabalho, por depender do marido. Vamos agora, com parceria, fazer com que elas sejam capacitadas pela Cooperdique e tenham um caminho de serem independentes”, diz a diretora jurídica da ONG Hella, Thais Perico, que participou como convidada do encontro. 

A assistente social Valéria da Silva Pereira também participou da reunião. “Essas rodas não são novidade. É um saber ancestral, que estamos retomando, gerando conectividade para que as pessoas se ajudem. Ninguém está sozinho e é importante vir aqui e ouvir essas histórias”.

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