Em uma época em que as compras costumam ser rápidas e silenciosas, o Mercado do Marapé, em Santos, segue desafiando a lógica da pressa. Ali, mais do que vender produtos, comerciantes conhecem os clientes pelo nome, guardam histórias de gerações e fazem do espaço, inaugurado há 72 anos, um dos últimos redutos do comércio de bairro onde a conversa ainda faz parte do compra e venda. Construído em meados da década de 1950 para atender à expansão da Cidade, o mercado foi inaugurado em 1954 pelo então prefeito Antônio Feliciano. Localizado na Avenida Senador Pinheiro Machado (Canal 1), nasceu como alternativa ao Mercado Municipal, até então a principal referência de abastecimento da Cidade. Ao longo das décadas, muita coisa mudou. O crescimento das grandes redes de supermercados, dos atacarejos e, mais recentemente, das compras por aplicativos transformou os hábitos de consumo. Mesmo assim, o Mercado do Marapé continua atraindo moradores do bairro e clientes de outras regiões da Cidade. Joyce tem clientes que vêm do Canal 7 para comprar em sua loja (Vanessa Rodrigues/AT) Há quase quatro anos à frente de uma loja de produtos naturais, a gerente Joyce Silva, de 36 anos, diz que a maior parte da clientela é formada por moradores da região, mas há quem atravesse a Cidade para fazer compras no mercado. “A gente tem clientes que vêm do canal 7 e de São Vicente para cá”. Para Joyce, os clientes traçam o percurso não apenas pela qualidade dos produtos, mas também pelas relações que dificilmente se repetem em grandes supermercados. “A maioria chega aqui com intimidade da casa. O pessoal já chega pedindo ‘o de sempre’. A gente sabe a história da vida de todo mundo”, relata. Elza Lourenço, 91 anos, frequenta o Mercadinho há seis décadas (Vanessa Rodrigues/AT) A gerente conta ainda que muitos frequentadores compartilham lembranças do mercado de décadas atrás. Entre essas histórias está a da aposentada Elza Lourenço de Camargo, de 91 anos. Moradora de Santos desde 1962, ela frequenta o Mercado do Marapé há mais de seis décadas. Ao comparar o mercado com os supermercados tradicionais, Elza resume a diferença em poucas palavras. “O supermercado é mais por fora do corpo. Esse aqui é mais por dentro”. Ela afirma que, ao longo dos anos, fez amizades com comerciantes e clientes. “Sem fazer amizade, eu não compro”. A advogada Flávia Macieski, de 60 anos, também frequenta o mercado há cerca de 30 anos. Mesmo antes de morar no Marapé, já visitava o espaço por influência da família. Para ela, o ambiente oferece uma experiência diferente dos centros comerciais fechados. “Eu acho que o diferencial é a simplicidade. Não tem muito barulho, então é um lugar agradável para você sentar, você vai ali, toma um café, consegue conversar. Não tem aquele barulhão que incomoda, é um lugar bem tranquilo”, diz Flávia, que defende a preservação do espaço “para preservar a memória de Santos”. Moradora do Marapé há dois anos, a aposentada Lourdes De Lucci, de 70 anos, conta que passou a frequentar o mercado depois da mudança para o bairro. Vinda da Capital paulista, encontrou no espaço um ritmo diferente. “Lá é muito mais gente e o movimento é bem maior. Agora eu estou preferindo aqui, é mais tranquilo”. Funcionária de uma loja de venda de incensos há quase 25 anos, Clara Simões, de 75 anos, acompanhou boa parte das transformações do mercado. “Isso daqui quando eu entrei era muito abandonado, agora está bem melhor”, avalia. Segundo ela, muitos clientes continuam frequentando o local desde o início de sua trajetória. “Eu tenho uma amiga que fica aqui, que ela ajuda a gente quando eu tenho que sair, ou ir a algum lugar. Eles perguntam para ela ‘cadê a outra moça? Aconteceu alguma coisa?’ Porque todo mundo me conhece”. Patrimônio Além da importância comercial, o Mercado do Marapé também guarda um patrimônio artístico. Do projeto original restaram a volumetria da construção e um mosaico em pastilhas de vidro criado pelo artista Clóvis Graciano, que retrata a antiga comercialização de produtos em Santos. O painel, um marco muralista, foi tombado em 1998 pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Santos (Condepasa) e permanece como um dos símbolos da história do mercado.