[[legacy_image_303782]] “Sujo”, “encardido”, “cabelo duro”, “vai comer banana”, “macaco”. Essas foram algumas das ofensas sofridas pelo filho de 9 anos da técnica de enfermagem, Nayara Alves, de 37 anos, segundo ela afirma. Desde o ano passado, o menino estaria sendo alvo de injúria racial na Unidade Municipal de Ensino (UME) Professor Waldery de Almeida, no Jardim Santa Maria, na Zona Noroeste de Santos. [[legacy_image_303783]] A mãe conta que começou a perceber que o filho estava diferente, quando ele quis saber o porquê da pele dela ser mais clara que a dele. “Eu não sou branca, mas tive que explicar pra ele toda a mistura que resultou na pele dele. Aí ele também começou a fazer comparações comigo, do tipo, ‘o seu cabelo é cacheado’, aí eu falei ‘mas o seu também é’ e ele me respondeu que pelo menos eu tinha amigos e que os dele não gostavam muito dele.” Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Mesmo fazendo esses comentários, a mãe relata que o filho negava quando era questionado se algo estava acontecendo. A partir deste ano, ela conta que a situação começou a piorar, pois o menino passou a não querer mais ir para a escola. “Ele acordava e chorava. Só aí que ele começou a me relatar que os xingamentos aconteciam no recreio, no banheiro, na sala de aula”, relata. Nayara diz que por várias vezes foi até a escola para tentar mediar a situação, foi ouvida, mas os xingamentos ainda continuavam. A mãe ainda conta que chegou a ouvir da vice-diretora que aquelas eram “situações corriqueiras” e que estava acostumada com isso, pois trabalhava há anos na Educação. Desde então, a mãe orientou que o filho deveria se defender e que não deveria aceitar esse tipo de situação para ter amigos. “Ele passou a reagir as ofensas e, por conta disso, ir para a direção. Foram várias ocorrências e idas minhas à escola, onde percebi que nada era feito com efetividade. Apenas ocorriam conversas e eu assinava as ocorrências”. Na semana passada, enquanto esperava para conversar com a vice-diretora da escola, Nayara conta que foi abordada pela responsável da aluna que fazia as ofensas com o filho e foi agredida e atacada verbalmente. A mãe relata que ouviu frases como: "Você é omissa, uma delinquente, uma bandida, uma negligente. Você está criando um projeto de bandido, um delinquente, um burro”. No calor do momento, o filho também entrou em desespero e para tentar defender a mãe, começou a rebater as ofensas. Nayara diz que nesse momento nenhum profissional da escola tentou intervir na situação. “Eu cheguei a acionar a polícia, mas quando compareceram ao local, a escola dispensou a viatura”, relata. Adulto como espelho para as criançasMesmo passando por tudo isso, a mãe não culpa a criança que cometeu as ofensas, pois acredita que ela apenas reproduz o que vê em casa. “Ela é uma vítima do sistema. Hoje não acontece nada com ela, mas se ela não mudar as atitudes, quando crescer vai ter de pagar pelas consequências de seus atos.” Nayara foi até o Conselho Tutelar da Zona Noroeste de Santos e relatou tudo o que aconteceu com o filho na escola. Além disso, a mãe registrou um boletim de ocorrência como preconceito de raça e cor, no 5º Distrito Policial de Santos. O caso ainda está sendo movido judicialmente com a ajuda do advogado Fabrício Posocco. Em conversa com a Reportagem, ele diz que em casos como esse, pais, responsáveis e até mesmo a escola podem vir a responder pela falta de cuidados específicos com o caso. “A unidade de ensino poderia ter tomado medidas para reeducar os alunos ou controlar a situação, mas somente passou a distribuir advertências. Seria muito importante ter feito uma programação ou um trabalho com as crianças para que a questão do bullying fosse diminuída ou cessada”. Ele explica que em situações como essa, o primeiro passo é levar o caso para o Conselho Tutelar e registrar um boletim de ocorrência. Depois disso, o advogado orienta que ir até o âmbito administrativo da educação, para que seja avaliada a conduta dos gestores da escola, e por último, procurar a justiça. O especialista comenta que nesses casos, as pessoas envolvidas podem ser punidas cívelmente e criminalmente. RepercussãoEm nota, a Secretaria de Educação de Santos (Seduc), informou que “a supervisão de ensino está apurando as informações e acompanhando o caso, para orientar a equipe gestora da escola sobre os procedimentos que devem ser tomados em relação aos estudantes”. A pasta ainda afirmou que “repudia qualquer ato de racismo e injúria racial e que desenvolve um trabalho de conscientização na rede municipal de educação, por meio de palestras e visitas às unidades de educação, para que questões raciais sejam temas de discussões e reflexões, atendendo a lei federal 11.645/08”. Sem a resolução do caso, Nayara resolveu mudar o filho de escola. Ela conta que depois de todo o ocorrido, o menino passou a ficar agressivo, chorar e a cor que tinha era a culpada por tudo que ele estava passando. Por isso disso, ela revela que está buscando a ajuda de psicólogo para ajudá-lo. “Meu sentimento é de muita indignação. É muito difícil passar por isso, você ver um preconceito como esse. O Brasil ainda é um país racista sim, a raça negra ainda sofre muito. Eu como negra, também passei por isso na faculdade, mas tenho 37 anos. Ele é uma criança de 9 anos. Eu nunca passei por racismo quando criança, e afirmo que nunca vi algo tão agressivo. Foi uma situação insustentável”, conclui.