[[legacy_image_90340]] Outras duas mulheres que passaram por consultas com o cardiologista Walter Nei Nascimento denunciaram supostos abusos cometidos pelo médico. A Tribuna revelou, na última segunda-feira, que o profissional foi condenado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo e deverá pagar indenização de R\$ 10 mil. No entanto, ele segue com o registro profissional ativo. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Na denúncia mais recente, feita em junho deste ano, uma mulher de 53 anos registrou boletim de ocorrência contra o médico, por um episódio parecido com o das vítimas que ganharam a condenação na Justiça. A dona de casa afirma que, em 21 de junho, foi à consulta com Nascimento e que ele teria apalpado os seios dela ao colocar eletrodos - aparelhos que permitem identificar problemas cardíacos. Segundo a denunciante, o médico ainda disse que ela era muito bonita e que, mesmo com a pandemia de covid-19, tirou a máscara da paciente para beijá-la à força em duas tentativas. Na saída, mesmo com a mulher assustada, ele a puxou pelo braço e disse que queria beijá-la novamente. "Entrei no uber desesperada, chorando", conta. A vítima diz ainda que mora em Santos há dois anos com o marido e que ele estava em viagem no dia da consulta. "Quando cheguei em casa, uma vizinha me levou à delegacia, porque eu não conhecia ninguém", diz a aposentada. "Não é porque a gente é mulher que pode ser invadida. Espero que tomem uma providência", continua. Outra denúncia Outra vítima procurou por A Tribuna e também pediu para não ser identificada. A autônoma, hoje com 66 anos, disse à reportagem que o episódio envolvendo ela e Nascimento ocorreu em novembro de 2015. Na época, a mãe dela estava internada para realização de uma cirurgia. O nervosismo da situação provocou um pico de pressão, e ela resolveu procurar o cardiologista. Já no consultório, o médico teria pedido para que ela removesse o sutiã. A mulher achou o pedido estranho, mas obedeceu, pois inicialmente pensou que a técnica para colocar eletrodos pudesse haver mudado. "Mas aí ele pôs a mão entre as pernas. Tirei a mão dele e falei 'estou no ginecologista ou no cardiologista?' E nem ginecologista faz isso! Ele me perguntou 'você não gosta?'. Falei: 'gosto com quem eu quero'. E aí saí contrangida", desabafa. "Ele ainda tentou me beijar. Desci tão nervosa, que, dentro do elevador, pedi uma opinião masculina. Perguntei se eu estava devidamente composta, devidamente vestida", conta. "Infelizmente é uma situação machista que nós passamos". 'Sistema machista' A vítima conclui dizendo que, no dia do abuso, foi a uma delegacia em Santos, para registrar o caso, mas que o delegado responsável, na época, disse para ela desistir "porque a denúncia não iria para frente". Sobre a postura do policial, A Tribuna pediu um posicionamento para a Secretaria de Segurança Pública, que afirmou treinar todos os policiais para atender este tipo de ocorrência e que os registros podem ser feitos em todas as delegacias territoriais do Estado. A pasta informou também que reclamações sobre o atendimento prestado em delegacias podem ser notificadas à Corregedoria da Polícia Civil, para devida apuração dos fatos. De acordo com a advogada especialista nos direitos da mulher, Thais Perico, uma atitude como a que a vítima encontrou na delegacia é um "grande reflexo de que a palavra da mulher vale menos para sociedade". Thais orienta que as vítimas não deixem de procurar por locais especializados em investigações como estas, as Delegacias da Mulher. Pede ainda que não se intimidem diante da falsa narrativa de que a mulher "está louca" ou de que a denúncia não tem sentido porque a conduta do médico sempre foi ótima. "Hierarquicamente, o médico é intocável. A relação médico-paciente faz com que as mulheres se calem", afirma. A advogada ainda faz um alerta para futuras denunciantes. A pandemia prejudicou a ida de acompanhantes aos consultórios, porque é preciso evitar aglomeração e isto prejudica a presença de testemunhas que vejam ou escutem episódios como os das denunciantes. Relembre o caso Nesta segunda-feira (9), A Tribuna revelou que o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) manteve a condenação do médico cardiologista que atende em Santos, pelo crime de importunação sexual. Walter Nei Nascimento atua na área há mais de 50 anos. A 9ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo negou o provimento ao recurso de apelação da defesa do médico. Na prática, significa que considerou que havia provas suficientes para o lado da acusação e para manutenção da sentença em primeiro grau. Uma das denunciantes, de 19 anos, deve receber R\$ 10 mil em multa, por danos morais. A outra vítima já foi indenizada. Em Juízo, o acusado negou as práticas e relatou que há 18 anos não pode ter relações sexuais, porque passou por cirurgia de câncer de próstata. Também informou ser hipertenso e que os remédios que toma diminuem a libido. O médico ainda afirmou ter 52 anos de medicina e que nunca teve nenhuma queixa de pacientes. Respostas O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) disse que está investigando os casos e que as investigações tramitam sob sigilo determinado por Lei. O profissional, porém, permanece com registro profissional ativo, conforme A Tribuna apurou nesta quarta-feira (11). [[legacy_image_90341]] A reportagem procurou pela defesa de Walter Nei Nascimento, mas o advogado dele respondeu que não comentaria as decisões.