[[legacy_image_242712]] A desigualdade social está totalmente ligada às questões da saúde mental, afirma o médico e professor universitário Roberto Tykanori Kinoshita. Ele assumirá o novo Departamento de Saúde Mental da Prefeitura de Santos, cuja criação foi noticiada por A Tribuna no último dia 6. O órgão será subordinado à Secretaria de Saúde e, nele, se tratará de doenças psiquiátricas, do impacto da pandemia na saúde mental e de questões ligadas ao consumo excessivo de álcool e drogas, por exemplo, entre pessoas em situação de rua. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! "A margem de pessoas chamadas ‘excluídas’ está aumentando, principalmente depois da pandemia, enquanto que aqueles que detêm o poder financeiro se estreitam e aumentaram a desigualdade. E a desigualdade gera insegurança, que, por sua vez, gera problemas relacionados à saúde mental. Por isso, aceitei o convite”, diz. Kinoshita é doutor em Saúde Coletiva pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professor na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Coordenou a política de saúde mental, álcool e drogas do Ministério da Saúde entre 2011 e 2015, no governo de Dilma Rousseff (PT). Ganhou reconhecimento por seu trabalho na delegação brasileira na Comissão de Narcóticos e Drogas, da Organização das Nações Unidas (ONU), em Viena, na Áustria, para onde foi todos os anos em que esteve no ministério. O médico também representou a pasta em reuniões da Organização Mundial da Saúde (OMS), na Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), no Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime e no National Institute of Mental Health, nos Estados Unidos. Nesta segunda-feira (30), às 10 horas, ele ministra palestra sobre o assunto no auditório do Museu Pelé (Largo Marquês de Monte Alegre, 1, Valongo). A pandemia intensificou as causas das doenças mentais. Por quê? Ela foi uma situação totalmente nova. E, agora, as pessoas tendem a ficar com mais ansiedade, mais medo. Existe um processo de adaptação a uma nova situação. Essa pandemia trouxe à tona uma série de questões. Uma delas é a insegurança em relação ao seu lar. Isso já vinha sendo colocado antes da pandemia, nos últimos anos, mas piorou com a situação econômica ruim. Hoje, sabemos que 1% da população mundial possui 90% das riquezas. É uma desigualdade gigantesca. Há 30 anos, não era assim. Se você não tem recursos suficientes que garantam uma série de situações, isso acaba gerando insegurança permanente. A desigualdade aumentou na pandemia. Isso criou mais problemas mentais pela concentração de renda?O capitalismo parte do princípio de geração de riqueza através do trabalho, de ser produtivo. Mas, hoje, há uma pequena parcela concentrando renda que vive de renda, mas nada produz para o País. Então, isso gera ainda mais desigualdade. Temos uma realidade na cidade de São Paulo, onde uma parte significativa das pessoas usa 55% da renda com aluguel. Quando você corre risco de perder o lugar onde mora, vive com medo constante, gerando estresse, ansiedade, entre outras doenças. É uma insegurança contínua. Como o Poder Público pode contribuir nessa situação?Nós tivemos uma política bem-sucedida na cidade de São Paulo com o Programa Braços Abertos (criado em 2012 pelo então prefeito Fernando Haddad, do PT). O programa abrigava os moradores em situação de rua que consumiam crack e pagava uma diária para eles trabalharem cerca de quatro horas por dia, e eles moravam em hotéis parceiros no Centro da cidade. O uso de drogas reduziu significativamente, em torno de 50%. O que nos surpreendeu é que, quando você perguntava no que usariam o dinheiro, havia, sim, a compra da droga, mas a maior parte do dinheiro ia para questões pessoais. Mulheres que diziam que comprariam um xampu decente. Outros que falavam que queriam andar de táxi. Nos surpreendemos muito com os resultados. Qual a consequência disso? Menos gasto com segurança, porque havia menos chamados. Menos gasto com ambulâncias. Esses seres humanos tiveram acesso à segurança do lar. Quando ele (o atendido) pega a chave na mão, a segurança aumenta. Com isso, ele descobre outras satisfações de lazer, e a droga passa a ter um papel muito menos relevante na vida daquela pessoa. O senhor acha que as políticas devem ser integradas? Isso. Na Cracolândia, 60% das pessoas já haviam passado pelo sistema prisional. Mas, quando você aprofunda a pesquisa e vê quais os motivos, são pequenos furtos, brigas, um pequeno tráfico. Bobagens. Essas pessoas são produto dessa enorme desigualdade em que há 1% dominando a riqueza mundial. E a desigualdade é responsável por isso. A concentração de riqueza gera falta de educação, saúde, moradia, emprego. E tudo isso é o motor das doenças mentais. E essa discussão também passa pela educação?Sim. Há um exemplo muito interessante da Finlândia, que passa por uma revolução após os anos 1960, tornando toda a educação pública. O filho do político e o do motorista do político passam a estudar na mesma escola, onde há uma padronização de uniformes, materiais, comida. E o método é mudado. Primeiro, as crianças são estimuladas a dialogarem e serem criativas. Há uma lei que proíbe notas. O professor não dá nota, ele avalia o desempenho do aluno. Esses relatórios envolvem muitas questões, inclusive a emocional. Em resumo, em poucos anos, a Finlândia passa a ser o país com melhores avaliações de desempenho. Essa mudança radical na estrutura educacional leva à igualdade de condições na partida. Cai a lógica do particular e é reconhecido o coletivo. A desigualdade está diretamente ligada à pobreza?Não só. A mentalidade de desigualdade também está naquela pirâmide social de que falamos, onde há os extremamente pobres e os extremamente ricos, mas, no centro dessa equação, estão os outros estratos sociais. Tem também a ver com quanto aquelas pessoas são válidas perante os seus semelhantes. Se seu vizinho compra um carro, o outro olha e pensa: ‘Como ele conseguiu e eu não?’ Então, essa pessoa se endivida e compra um carro melhor para poder ser validada. No fim das contas, isso é uma insegurança de não pertencer aquele grupo. E fazemos isso o tempo todo, ainda mais com as redes sociais, onde a exposição se tornou maior. Esse medo de ser posto para fora do círculo de validade é onde achamos a desigualdade. Em nações desenvolvidas, mas com altos índices de desigualdade, os problemas são os mesmos. Quanto mais desigualdade, maior o percentual de encarcerados, de níveis de suicídio, obesidade, gravidez na adolescência. Falando sobre políticas públicas, o senhor aceitou o convite para assumir o Departamento de Saúde Mental de Santos...Ainda há questões burocráticas a serem resolvidas, mas aceitei. Eu acredito que há prioridades que precisam ser atualizadas nas políticas de saúde mental para se incluir questões de política e o contexto da desigualdade. Falamos da margem dos excluídos, marginalizados. Essa fatia vem se alargando. Os marcadores sociais estão ficando mais amplos. É preciso romper essa lógica da desigualdade, dos valores que a pessoa acha que não tem. Que tipo de relação ética se forma quando se define valor a partir do material?