De acordo com o dicionário Michaelis, arquitetura é a “arte e ciência de projetar e supervisionar a construção de edifícios ou outras estruturas que (...) possam expressar os valores estéticos e as necessidades práticas das sociedades”. Para o pernambucano Márlio Raposo Dantas, que morreu na última terça-feira (11), foi um pouco mais: a oportunidade de marcar época em Santos. É o que avaliam arquitetos que conviveram com ele e apreciam seu legado. Sua assinatura está em edifícios como o Universo Palace, no José Menino, e o Lex Urbis, atrás do Fórum de Santos, no Centro. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! “Entre 1987 e 1988, tive o privilégio de trabalhar com o Márlio. Fui seu colaborador na DRM Construtora. Não havia, à época, edificações com uma assinatura tão marcante. Seu trabalho tem, até hoje, uma identidade única e qualidade indiscutível, tornando-se atemporal”, conta o arquiteto e urbanista Nelson Gonçalves de Lima Júnior. Apaixonado pelas artes e tendo trabalhado com profissionais como Acácio Gil Borsoi e Burle Marx (com quem aperfeiçoa seu conhecimento da flora brasileira), Márlio desenvolveu apreço pela arquitetura refinada e criativa. “Com ele, aprendi que a ambição por executar um bom trabalho é uma ferramenta poderosa para o sucesso profissional. Se for apaixonado por ser arquiteto, não enxergará sua profissão como um fardo, e sim, como um privilégio”, acrescenta, ao lembrar obras como os edifícios Pasteur, na Avenida Ana Costa, e Granville, na Avenida Washington Luís (Canal 3), além da casa da família de Márlio, em Cunha, no Vale do Paraíba. O zelo de Márlio estava nos detalhes, como relata Lima. “Para sair do escritório dele, depois de um dia de trabalho, tinha que deixar a mesa impecavelmente arrumada. Guardar os equipamentos, as folhas de desenho, tudo o que for necessário. Em nenhuma hipótese poderia haver bagunça.” No José Menino, Edifício Universo Palace, de 1973, sobressaiu pelo estilo e pela extinta boate Pink Panther (Alexsander Ferraz/AT) Referência Outro arquiteto, Cláudio Abdalla, também destaca a importância do trabalho de Márlio Raposo Dantas. “Nos últimos 50 anos, junto com Silvio Sandal Pires e Federico Atesana Mendes, forma um trio de arquitetos de maior produção da Cidade. Um legado indiscutível”, elogia. Para ele, suas obras são bem pensadas e contemplam a cor como um elemento importante no projeto. “A qualidade técnica sempre foi excelente, e a representação gráfica, então, nem se fala. Fora que era um amigo pessoal, um homem amável, fraterno, muito amigo de meu pai”, conta Abdalla. “É uma pessoa com quem sempre troquei muitas ideias. Uma perda muito grande para a Cidade e para os amigos.” Edifício Pasteur, na Avenida Ana Costa, reúne consultórios médicos (Alexsander Ferraz/AT) O arquiteto Nascido em Olinda, em 1936, Márlio Raposo Dantas formou-se na Faculdade Nacional de Arquitetura (FNA), atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em 1962, radicou-se em Santos com a família. A partir de 1967, manteve escritório próprio. Nos últimos anos, viveu em Cunha (SP), em uma casa projetada por ele. Morreu em Santos e deixou viúva e quatro filhos. Seu corpo foi cremado. Márlio nasceu em Olinda em 1936 (Reprodução)