À esquerda, Raphaella Gomez após realizar o sonho da cirurgia de afirmação de gênero; à direita, a artista de Santos ao lado da atriz Marina Ruy Barbosa, que conheceu durante as gravações da segunda temporada da série Tremembé e ajudou a viabilizar o procedimento (Arquivo pessoal) Nascida e criada no Dique da Vila Gilda, na Zona Noroeste de Santos, no litoral de São Paulo, a artista plástica e caracterizadora Raphaella Gomez, de 25 anos, transformou a paixão pela maquiagem em uma carreira no cinema nacional. A trajetória, marcada por desafios e conquistas, ganhou um capítulo especial durante as gravações da segunda temporada da série Tremembé, quando conheceu a atriz Marina Ruy Barbosa. A amizade entre as duas foi fundamental para que a santista realizasse o sonho de colocar próteses de silicone nos seios, um desejo que carregava desde a adolescência. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Em entrevista para A Tribuna, Raphaella contou que cresceu no bairro Rádio Clube, mais precisamente no Caminho da Capela, na comunidade do Dique da Vila Gilda. Há seis anos, mudou-se para São Paulo em busca de oportunidades profissionais, mas mantém uma ligação afetiva com suas origens na cidade da Baixada Santista. "Eu fui uma criança muito livre para poder brincar, correr, viver todos os clichês de uma criança, de brincar na rua, de brincar no beco. Eu morava num beco, ali na comunidade da Zona Noroeste", recorda. Criada pela mãe, Raphaella encontrou na comunidade uma rede de apoio que marcou sua infância. Os vizinhos ajudavam nos cuidados e a liberdade de brincar também estimulava sua criatividade. Desde pequena, gostava de desenhar, pintar e experimentar as roupas e maquiagens da mãe. A arte, que começou como brincadeira, acabou se tornando profissão. Da Zona Noroeste às produções nacionais O primeiro contato profissional com a maquiagem aconteceu por volta dos 15 anos, quando Raphaella começou a produzir amigas que comemoravam aniversários de debutante. Pouco depois, participou de um curso social de cinema na Baixada Santista e descobriu que poderia trabalhar com caracterização de personagens. A partir daí, começou a participar de curtas-metragens independentes, impulsionada por projetos culturais e iniciativas de fomento ao audiovisual na região. Hoje, aos 25 anos, comemora oito anos de atuação como caracterizadora de elenco e já participou de produções para diferentes plataformas de streaming. Apesar das conquistas, afirma que a caminhada não foi fácil. Como mulher trans, negra e vinda da periferia, precisou enfrentar obstáculos para conquistar oportunidades e permanecer no mercado. "Para uma mulher trans, negra, da periferia da Baixada Santista, conseguir esse espaço aqui em São Paulo é um caminho muito grande", afirma. Segundo Raphaella, a falta de diversidade ainda é uma realidade no setor audiovisual. Ela relata ter enfrentado episódios de racismo e transfobia e, em diferentes produções, ter sido a única mulher trans ou pessoa negra da equipe. Amizade com Marina Ruy Barbosa A oportunidade de trabalhar na segunda temporada de Tremembé, produção do Amazon Prime Video, surgiu por meio de um convite da equipe de caracterização coordenada por André Anastácio. Raphaella foi contratada como assistente de caracterização e ficou responsável por participar da preparação de personagens, entre eles Suzane von Richthofen, interpretada por Marina Ruy Barbosa. As duas se conheceram ainda na pré-produção, durante os testes de maquiagem. A sintonia foi imediata e, com a rotina intensa de gravações, a relação se transformou em amizade. A artista e caracterizadora Raphaella Gomez, de 25 anos, durante a recuperação da cirurgia de colocação de próteses de silicone, sonho realizado com a ajuda da atriz Marina Ruy Barbosa (Arquivo pessoal) "A gente trabalha 12 horas por dia ali dentro do set de filmagem, no camarim, com todo o elenco. Então, eu ficava muito com ela fazendo a maquiagem. A gente conversava muito, falava sobre tudo da vida", conta. Durante uma dessas conversas, Raphaella compartilhou com Marina o desejo de realizar a cirurgia de colocação de próteses mamárias, que fazia parte de seu processo de afirmação de gênero. A artista já se organizava financeiramente para realizar o procedimento, mas os custos elevados e a necessidade de afastamento temporário do trabalho dificultavam os planos. Foi quando recebeu uma surpresa. Em um dia de gravação, enquanto estava no camarim, Raphaella recebeu uma ligação inesperada da atriz. "Ela me falou: 'Amiga, lembra que você me contou sobre a sua cirurgia, sobre o seu sonho? Eu já resolvi tudo, já está tudo programado'. Eu fiquei pensando que era uma grande brincadeira, que ia aparecer uma câmera com uma pegadinha e confete", relembra. Marina Ruy Barbosa havia entrado em contato com uma clínica e conseguido viabilizar gratuitamente a cirurgia. A atriz intermediou o contato e ajudou a organizar o processo para que a amiga realizasse o procedimento. O apoio, porém, não terminou ali. Raphaella conta que Marina acompanhou sua recuperação, telefonou nos primeiros dias após a cirurgia e demonstrou preocupação com seu bem-estar. "A gente ficou realmente amiga. Tenho ela como uma madrinha e como uma amiga. Ela sempre vibra com as minhas conquistas e está disposta a estar comigo", afirma. Um sonho realizado após anos de espera O desejo de colocar próteses de silicone surgiu durante a adolescência, quando Raphaella começou a compreender sua identidade de gênero. Ela conta que o acolhimento da mãe foi essencial durante esse processo. Foi a própria mãe quem escolheu o nome, ainda antes de seu nascimento. "Quando falei para minha mãe, ela me acolheu e disse: 'Filha, já percebi, era uma coisa que eu já notava'. Ela sempre me apoiou, desde a minha identidade até a profissão", conta. Antes de conseguir realizar a cirurgia na rede particular, Raphaella chegou a procurar atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Entretanto, segundo ela, a demora e as dificuldades burocráticas fizeram com que desistisse da espera. Como trabalha por meio de contratos, precisava economizar não apenas para custear o procedimento, mas também para conseguir permanecer afastada das atividades profissionais durante a recuperação. Seu planejamento era realizar a cirurgia nos próximos anos. Com a ajuda de Marina, o sonho se concretizou antes do esperado. Volta ao trabalho Um mês após o procedimento, Raphaella já retomou o trabalho e relata uma recuperação tranquila, embora ainda precise evitar esforços físicos intensos. Para ela, a transformação vai muito além da aparência. "É eu me enxergar da forma que eu me identifico, passar a mão no meu corpo e entender que ele está no formato que eu sempre quis. O que mudou dentro de mim foi a minha força, a minha confiança", explica. Orgulho das origens Mesmo depois de conquistar espaço em produções nacionais, Raphaella faz questão de lembrar de onde veio. A Zona Noroeste continua sendo seu ponto de referência, onde vivem familiares, amigos e pessoas importantes em sua trajetória. "A Zona Noroeste é um lugar muito lindo. Foi onde aprendi sobre coletividade. É onde mora minha família, onde estão as pessoas que amo. Voltar para lá é saber para onde eu quero ir", afirma. A artista espera que sua história também inspire outras pessoas que vivem nas periferias a acreditarem em suas possibilidades, independentemente da profissão ou do caminho escolhido. "Qualquer jovem, adolescente ou adulto que nasceu na Zona Noroeste pode traçar qualquer possibilidade, qualquer sonho que quiser. Eu sempre volto para lá e sempre serei de lá", destaca. Novos projetos e representatividade Com a recuperação praticamente concluída, Raphaella já retomou as atividades no audiovisual e pretende continuar trabalhando como caracterizadora. Também prepara novos trabalhos como artista plástica, incluindo futuras exposições. "O camarim é meu lugar, é meu habitat natural. É onde quero estar e permanecer", afirma. Além de construir sua carreira, a santista deseja contribuir para ampliar a presença de profissionais trans e negros no cinema brasileiro. Raphaella defende o fortalecimento das redes de apoio e a ampliação do acesso à saúde para pessoas trans, especialmente àquelas que enfrentam dificuldades financeiras para realizar procedimentos de afirmação de gênero. Para Raphaella, a conquista pessoal representa também a possibilidade de abrir caminhos para outras pessoas. "Quando uma pessoa trans transiciona, a sociedade inteira transiciona junto. Não é uma transição só nossa, é uma transição coletiva", conclui.