Recuo do mar em Santos deixa à mostra destroços de veleiro inglês na praia, próximo ao Canal 5 (Gerson Rodrigues/ TV Tribuna) O recuo do mar na praia de Santos, no litoral de São Paulo, deixou à mostra mais uma vez o que ainda existe do veleiro Kestrel, que encalhou há mais de 130 anos na orla da cidade da Baixada Santista. Os restos da embarcação voltaram a aparecer na faixa de areia da Praia do Embaré, próximo ao Canal 5, com a maré baixa registrada no sábado (26). Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! As embarcações que encalharam no passado, vez ou outra, costumam surgir diante dos olhos de moradores e turistas (veja mais abaixo). A Prefeitura de Santos monitora esses aparecimentos e isola os locais para proteção dos banhistas desde 2017. O veleiro Kestrel encalhou em 1895. Segundo registros, estava sem o seu capitão quando uma ventania o arrastou até a praia de Santos. Um rebocador chegou a tentar, sem sucesso, retirar a embarcação e devolvê-la ao mar. Os destroços permanecem até hoje no local, com a proa (parte da frente) virada no sentido de São Vicente. O veleiro Kestrel pode ser visto em 3D por meio de realidade aumentada, ao apontar a câmera do celular para uma placa que fica na ponte sobre o Canal 5, em Santos (Francisco Arrais/ Prefeitura de Santos) Segundo informações da Prefeitura de Santos, o navio sofreu graves danos estruturais: perdeu os mastros, teve o leme destruído e acabou sendo abandonado pelos proprietários. O cenário começou a mudar quando autoridades portuárias, em parceria com representantes da companhia inglesa dona da embarcação, decidiram desmontar o navio e removê-lo da areia. No entanto, quem acreditava que a história do Kestrel havia chegado ao fim se enganou. A partir da década de 1970, parte do casco voltou a aparecer após obras de desassoreamento realizadas no canal do porto. O local foi transformado em sítio arqueológico pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O Ministério Público recomendou a sinalização da área para evitar acidentes. Restos do Recreio podem ser vistos parcialmente ou totalmente, conforme a altura da maré em Santos (Flavio Hopp/ Acervo AT) Navio Recreio Os destroços do navio Recreio repousam na faixa de areia de Santos também, só que na Ponta da Praia, entre o Canal 6 e o Ferry Boat. Sempre que o mar recua, partes do casco se tornam visíveis, revelando uma história que mistura glamour, tragédia e decadência. A embarcação foi inaugurada em 1º de agosto de 1970 como espaço de lazer flutuante, com salões de festa, palco para shows e pista de dança. Atraiu turistas e moradores durante o verão de 1970/1971. Após encalhar depois de uma tempestade, as autoridades tentaram remover o navio. Rebocadores foram acionados e até dinamites foram usadas para tentar soltar a embarcação da areia. O esforço, porém, terminou de forma melancólica: a estrutura se partiu. O navio Recreio encalhou na orla de Santos em fevereiro de 1971 depois de uma forte tempestade (ATribuna/ Arquivo) O navio permaneceu inerte na Ponta da Praia até agosto de 1972. Parte da embarcação foi desmontada, mas o fundo do casco nunca foi completamente retirado. Recuo do mar Levantamento do Núcleo de Pesquisas Hidrodinâmicas (NPH), da Universidade Santa Cecília (Unisanta), mostra que o nível do mar chegou a -0,34 metro em 28 de agosto deste ano. Em 2025, o menor registro do mesmo período foi de -0,36 metro, em 21 de agosto. A diferença foi de apenas dois centímetros. O que mudou de forma mais evidente em 2026 foi a frequência da maré baixa. Entre agosto e setembro de 2025, foram registrados oito episódios em que o nível do mar ficou abaixo de zero. Neste ano, até 21 de setembro, foram apenas dois. Quando a maré está muito baixa, é possível ver exatamente onde o navio encalhou, através dos restos do casco na praia de Santos (Carlos Nogueira/ AT/ Arquivo) Por que o mar recua? O meteorologista Paulo Lombardi, da Tempo OK, explica que o recuo mais acentuado do mar depende de uma combinação entre a maré astronômica e a chamada maré meteorológica. A maré astronômica é influenciada principalmente pela Lua e pelo Sol. Já a meteorológica depende da atuação dos ventos e da pressão atmosférica. Segundo Lombardi, ventos de leste e nordeste associados a áreas de alta pressão podem empurrar a água para longe da costa, fazendo o nível do mar baixar ainda mais. Já ventos de sul e sudeste costumam ter efeito contrário, empurrando a água em direção à costa e favorecendo ressacas e o avanço do mar. O NPH reforça que o recuo do mar se torna mais evidente quando essa influência dos ventos coincide com uma maré astronômica baixa. Nesses casos, os dois efeitos se somam e fazem o nível do mar cair ainda mais.