O fenômeno natural de recuo da maré está relacionado à força gravitacional exercida pela Lua, pelo Sol e pela Terra, especialmente quando esses astros se alinham durante as fases de Lua Cheia e Lua Nova (Reprodução/ Redes sociais) Quem acompanhou o recuo do mar em Santos, no litoral de São Paulo, neste ano pode ter tido a impressão de que o fenômeno foi mais fraco do que em 2025. Os números, porém, mostram outra coisa: o menor nível registrado em 2026 ficou praticamente igual ao do ano passado. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Levantamento do Núcleo de Pesquisas Hidrodinâmicas (NPH), da Universidade Santa Cecília (Unisanta), mostra que o nível do mar chegou a -0,34 metro em 28 de agosto deste ano. Em 2025, o menor registro do mesmo período foi de -0,36 metro, em 21 de agosto. A diferença foi de apenas dois centímetros. O que mudou de forma mais evidente foi a frequência. Entre agosto e setembro de 2025, foram registrados oito episódios em que o nível do mar ficou abaixo de zero. Neste ano, até 21 de setembro, foram apenas dois. Ou seja: o mar recuou menos vezes, mas, quando o fenômeno aconteceu com mais força, a intensidade ficou muito próxima da registrada no ano passado. Mar mais agitado em 2026 O estudo do NPH também mostra que 2026 teve episódios de mar mais agitado. Entre agosto e setembro de 2025, foram sete ocorrências relacionadas a mar agitado ou maré elevada, todas classificadas em "estado de atenção". Neste ano, foram cinco até 21 de setembro, sendo quatro de estado de "atenção" e uma de "alerta". A diferença aparece principalmente na altura das ondas. Em 2025, a maior registrada no período foi de 2,47 metros. Neste ano, as ondas chegaram a 3,35 metros, em 26 de agosto. Para os pesquisadores, 2025 teve mais ocorrências, enquanto 2026 apresentou episódios pontualmente mais intensos. Por que o mar recua? O meteorologista Paulo Lombardi, da Tempo OK, explica que o recuo mais acentuado do mar depende de uma combinação entre a maré astronômica e a chamada maré meteorológica. A maré astronômica é influenciada principalmente pela Lua e pelo Sol. Já a meteorológica depende da atuação dos ventos e da pressão atmosférica. Segundo Lombardi, ventos de leste e nordeste associados a áreas de alta pressão podem empurrar a água para longe da costa, fazendo o nível do mar baixar ainda mais. Já ventos de sul e sudeste costumam ter efeito contrário, empurrando a água em direção à costa e favorecendo ressacas e o avanço do mar. O NPH reforça que o recuo do mar se torna mais evidente quando essa influência dos ventos coincide com uma maré astronômica baixa. Nesses casos, os dois efeitos se somam e fazem o nível do mar cair ainda mais. Por que os dois anos foram diferentes? As condições meteorológicas também ajudam a explicar por que houve menos episódios de recuo do mar neste ano. O meteorologista Paulo Lombardi afirma que 2025 e 2026 tiveram comportamentos atmosféricos diferentes, especialmente na passagem de frentes frias e na atuação de sistemas de alta e baixa pressão. Mas o NPH ressalta que não basta contar quantas frentes frias passaram pela Baixada Santista. A posição, a intensidade e a trajetória desses sistemas, além da força e do tempo de atuação dos ventos, também interferem diretamente nas condições do mar. Entre 24 e 26 de agosto deste ano, por exemplo, as ondas ultrapassaram três metros. Segundo o núcleo, o episódio esteve ligado a uma combinação favorável à agitação marítima, com a passagem de um sistema frontal e a atuação de uma área de alta pressão. Variação de um ano para outro é normal Os pesquisadores destacam ainda que diferenças entre um ano e outro são esperadas. Segundo o NPH, comparar apenas 2025 e 2026 não permite afirmar que as ressacas estão ficando mais ou menos frequentes, ou mais intensas. Para identificar uma tendência, seria necessário analisar uma série histórica bem mais longa. No longo prazo, a preocupação está principalmente na elevação do nível médio do mar. Isso porque ressacas semelhantes às do passado podem provocar impactos maiores no futuro ao ocorrerem sobre um nível de base mais elevado, aumentando o risco de alagamentos e erosão na costa do litoral de São Paulo.