Egle Rodrigues Pereira, a Tia Egle (Reprodução) Santos, domingo, 8 de maio de 1932. Naquele dia, o Brasil celebrava pela primeira vez o Dia das Mães como uma data oficial do calendário nacional. A comemoração acontecia por força de um decreto assinado três dias antes pelo presidente Getulio Vargas, que passou a dedicar o segundo domingo de maio às mães brasileiras. A homenagem, porém, chegava tarde para muitas mulheres. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Antes de existir decreto, propaganda, cartão impresso e almoço especial de domingo, já havia mães em todos os cantos de Santos. Algumas dentro de casa, embalando filhos nos braços. Outras nas ruas, nos hospitais, nos orfanatos, nas escolas, nos centros de assistência, nas associações de caridade, nas cozinhas comunitárias, nas igrejas, nos becos, nos cortiços, nos morros e nas portas de quem precisava de ajuda. Porque mãe, no sentido mais profundo da palavra, nunca foi apenas quem gera ou quem gesta. Mãe é quem cuida. E Santos, cidade antiga, portuária, inquieta, marcada por epidemias, imigração, pobreza, trabalho duro e transformação constante, conheceu muitas dessas mulheres. Algumas foram mães de seus próprios filhos. Outras foram mães de filhos que não nasceram delas. E ainda houve aquelas que se tornaram mães simbólicas de uma cidade inteira, porque acolheram crianças, ampararam doentes, socorreram famílias, educaram meninas e meninos, levantaram instituições e criaram redes de proteção onde o poder público quase sempre chegava tarde. Naquele 8 de maio de 1932, talvez muitas casas santistas tenham recebido a novidade com simplicidade. Uma flor. Um abraço. Uma missa. Um almoço em família. Uma visita. Um cumprimento mais demorado. Mas, por trás da data recém-oficializada, havia uma história muito mais antiga de cuidado feminino em Santos. Era a história das mulheres que seguravam a cidade pelas bordas. Mulheres que, na maioria das vezes, não apareciam nas grandes fotografias políticas, mas estavam ali, sustentando a vida cotidiana, evitando que a miséria fosse ainda mais cruel e que a infância abandonada fosse ainda mais invisível. Em Santos, cidade nascida em torno da caridade e da assistência, tal presença ganhou formas diversas. A Santa Casa, os abrigos, os orfanatos, as escolas, os centros espíritas, as obras sociais e as iniciativas beneficentes foram espaços onde muitas mulheres atuaram como verdadeiras mães coletivas. Elas costuravam, arrecadavam, visitavam, ensinavam, acolhiam, administravam, alimentavam e acompanhavam. E, assim, transformaram a maternidade em ação social. Mães exemplares Joana Monte Bastos Fernandes foi uma dessas mulheres. Viúva, dedicou-se à assistência social e fundou o Educandário Santista, instituição que nasceu como um asilo mantido exclusivamente por seus esforços, sem apoio do poder público. Ali, sua maternidade ultrapassou os laços de sangue. Joana amparou crianças e necessitados, sustentando com trabalho e persistência uma obra que se tornaria parte da memória assistencial da cidade. Joana Monte Bastos Fernandes (Reprodução) Também Marcolina da Conceição pertenceu a essa linhagem de mães santistas. Nascida em Alagoas, em 1868, ex-escravizada, estabeleceu-se em Santos e começou a trabalhar na Santa Casa de Misericórdia em 1908. Entrou como ajudante de cozinha, mas sua presença logo ultrapassou a função inicial. Tornou-se referência no cuidado aos pacientes, especialmente no Pavilhão dos Tuberculosos, onde também enfrentou uma dor íntima: perdeu seu único filho homem para a doença. Mesmo depois de aposentada, continuou visitando diariamente o hospital, arrecadando doações e oferecendo apoio aos internados. Por isso, ganhou um nome que diz quase tudo: Vovó Marcolina. Marcolina da Conceição, a Vó Marcolina (Reprodução) Nenê Ferreira Martins também deixou sua marca nesse território do cuidado. Dedicou a vida a iniciativas assistenciais e educacionais em Santos, fundou a Escola Nossa Senhora de Lourdes e participou da criação da Associação das Senhoras do Berçário da Santa Casa. Sua preocupação com a infância, com a educação e com o bem-estar das crianças mostra como a maternidade, em Santos, muitas vezes se traduziu em obra concreta. Nenê Ferreira Martins (Reprodução) Maria Máximo também fez de sua vida uma forma de amparo. Nascida em Portugal, em 1888, veio de uma trajetória artística ao lado do marido, Miguel Máximo, com quem formou o Duo Max. No Brasil, sua história tomou outro rumo a partir do desenvolvimento de sua mediunidade e da fundação do Centro Espírita Ismênia de Jesus, em Santos, em 1937. Ali, dedicou-se à assistência social e espiritual, criando uma escola, um berçário e um refeitório que distribuía alimentos diariamente. Enfrentou crises, preconceitos e dificuldades, mas manteve sua obra ativa até sua morte, em 10 de agosto de 1949. Sua maternidade foi feita de alimento, ensino, acolhimento e fé. Maria Máximo (Reprodução) Décadas depois, essa tradição de cuidado continuaria aparecendo em outras mulheres da cidade. Egle Rodrigues Pereira, a Tia Egle, foi uma delas. Fundadora e presidente do projeto social que levava seu nome, dedicou-se a atender crianças em situação de vulnerabilidade na Zona Noroeste de Santos. Desde 2003, sua iniciativa oferecia alimentação, assistência à saúde, atividades extracurriculares, cultura e arte. Para muitas crianças e famílias, Tia Egle foi mais do que uma líder comunitária. Foi uma presença de proteção, uma referência afetiva, alguém que acreditava na inclusão social como caminho de transformação. Faleceu em julho de 2023, aos 57 anos, deixando um legado de solidariedade e esperança. Mães na essência Essas mulheres viveram em tempos diferentes, enfrentaram realidades distintas e percorreram caminhos muito próprios. Joana Monte Bastos, Marcolina da Conceição, Nenê Ferreira Martins, Maria Máximo e Tia Egle não tiveram a mesma origem, nem a mesma trajetória, mas se encontraram em uma mesma ideia: cuidar também é construir uma cidade. É claro que muitas outras mulheres, conhecidas ou anônimas, também exerceram esse cuidado em Santos e poderiam ser lembradas neste artigo. Mas, na opinião deste articulista, as mulheres aqui lembradas são representantes significativas desse gesto materno de cuidar. Cada uma, à sua maneira, transformou a maternidade em ação concreta, não apenas dentro de casa, mas também nas ruas, nas instituições, nos hospitais, nas escolas e nas comunidades, por toda a cidade. Porque, ao final, a cidade também é feita por quem cuida. Feliz Dia das Mães! Sergio Willians é jornalista e pesquisador da história de Santos. Conheça seu trabalho no site www.memoriasantista.com.br.