[[legacy_image_33846]] O Lar das Moças Cegas, em Santos, completou 78 anos no domingo (18). Com mais de 300 assistidos, o atendimento presencial permanece ainda limitado pela pandemia desde 2020. Mesmo assim, a instituição tem buscado saídas para as dificuldades, a exemplo do que já acontece com pessoas ajudadas por ela. E o que não faltam na instituição são histórias de superação e conquistas. "Fiz braile, informática, natação, aprendi música, e hoje trabalho lá, sou professora de orientação e mobilidade. Ensino o assistido a ter autonomia e sou grata por tudo que conquistei", diz a deficiente visual Valéria Cristina da Silva Teixeira, de 53 anos. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! "A Valéria entrou aqui como assitida, e estudou, fez faculdade, pós-graduação, e hoje é nossa professora. Trabalhamos nisso. É o nosso maior prazer integrar o deficiente na sociedade. A felicidade é ver nossos assitidos arrumando emprego ou estudando. Em vez de ficarem em casa, eles passam a ter sua independência", diz o presidente da entidade, Carlos Antônio Gomes. Ele está no cargo há 34 anos, e seu pai esteve há frente do LMC por outros 25 antes dele. "Comparo a deficiência a uma cena da animação 'Vida de inseto', e sempre digo isso aos meus assistidos", diz Valéria, que explicou: "são formigas todas perfiladas, uma atrás da outra, e cada uma leva sua porção de contribuição ao formigueiro. À frente há um comandante. De repente cai uma folha enorme no caminho. Elas fogem e ficam desesperadas porque estavam organizadas, até que o comandante apita e diz para se acalmarem, que é apenas uma folha. E as ensina a contornar e seguir o caminho. A deficiência é isso, uma grande folha, e a princípio não sabemos o que fazer. Mas com a juda, a gente dá a volta na folha, e segue com a vida. O Lar das Moças Cegas ajuda as pessoas a fazerem isso, e uma nova porta se abre". [[legacy_image_33847]] A visão de Valéria é de apenas 5% no olho esquerdo. Ela tem retinose pigmentar, e conta que até foi na escola que começou a ter dificuldade, não enxergando bem a lousa. "Era a quarta série, e repeti várias vezes por causa disso". Na sexta série, sem enxergar mais, abandonou os estudos. "Somente com 15 ou 16 anos fui orientada por um especialista em retina de que não haveria forma de recuperação da visão". Aos 19 anos, Valéria se casou e até os 23 teve 3 filhos. Em 2003 foi quando descobriu o LMC através de sua irmã, também deficiente, e passou a frequentar. "Fui acolhida muito bem por toda a equipe, mas tinha resistência ao uso da bengala, pois tinha vergonha, até entender que ela é também uma identificação para a sociedade de que você tem uma deficiência visual", conta. Universidade "Sempre achei lindo ver as pessoas teclando, usando computadores, e achei que nunca ia conseguir. Mas no LMC eu aprendi. Além do curso de informática fiz oficina pedagógica, culinária, massoterapia, telefonia e no estagio de telefonista me deram a oportunidade de trabalhar lá. Trabalhei por 6 anos. Quando meu filho caçula já estava na idade pré-vestibular, fiz o Enem com ele pra estimula-lo. E fui bem, foi quando apareceu a oportunidade, pelo Prouni, de fazer faculdade", contou Valéria. Valéria morava em Mongaguá, e a rotina diária era bem extensa "Saía de casa às 5h40, às 8h estava no LMC, à tarde trabalhava como telefonista e à noite a faculdade. Chegava em casa por volta de meia noite e meia, e acordava às 4h30 para recomeçar a rotina. Foi difícil, mas valeu a pena", diz. Ela ainda fez 3 cursos de pós-graduação em educação inclusiva e especial, e hoje atua como professora no LMC. "Achei que já tinha aprendido tudo e o Lar me mostrou que sempre há um horizonte a ser conquistado. Sou muito grata", finaliza. Pandemia Sandra Regina de Souza Silva, de 58 anos, também trabalha na entidade. Ela dá aulas de braile. Sua mãe era cozinheira e ela frequenta a entidade desde os 3 meses de idade por conta disso. Sandra é pedagoga com especialização em deficiência visual. Atualmente, por conta da pandemia, as aulas têm sido remotas: "eu dou aula todos os dias, entro na casa dos assistidos, e é legal porque os familiares também estão nos ajudando. Braile é prática. São códigos e códigos que precisam ser memorizados, e eles precisavam dessa continuidade", explica. O LMC cedeu o material, e as aulas são diárias. "Embora seja um grande desafio, pois eles precisam do tato, não podíamos ter parado, e graças a Deus nós estamos tendo boas respostas com com eles", conta Sandra. Além das aulas, a entidade mantém na pandemia 36 atividades, além dos atendimentos médicos e assistência social. O Centro Especializado em Deficiência Visual (CEDV) através de psicólogos, fisioterapeutas e oftalmologistas já somaram aproximadamente 4500 atendimentos à distância. A Assistência Social da entidade também auxiliou assistidos e seus familiares por meio da entrega de mais de 1500 cestas básicas, e 1800 interações como ligações e acolhimentos remotos. [[legacy_image_33848]] Ajuda Para manter todos os serviços e gerar reinserção e oportunidades, o LMC tem tentado 'contornar' as dificuldades durante a pandemia. "O impacto financeiro foi muito grande. Dependemos muito dos eventos beneficentes que faziamos aqui presencialmente. Com o cancelamento deles, até fizemos alguns eventos, almoços que as pessoas vinham pegar para comer em casa. Fizemos cinco nesse último ano, mas é muito pouco. Isso nos rendeu cento e vinte mil reais. Sem pandemia, conseguíamos cerca de trezentos e cinquenta. Fora as parcerias que nós tínhamos com empresas, mas algumas estão paradas, e outras até fecharam", explicou o presidente da entidade.