O lagarto apareceu em árvores de bairros de Santos (Arquivo pessoal) A presença de vários “lagartos” em árvores dos bairros Aparecida e Marapé, em Santos, no litoral de São Paulo, tem chamado a atenção e despertado a curiosidade de moradores. Apesar de muitos descreverem o animal como “estranho”, trata-se do lagarto cubano (Anolis porcatus), uma espécie exótica conhecida pela capacidade de mudar de cor. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Um desses lagartos apareceu nas árvores em frente à casa do presidente da Associação dos Moradores dos bairros Aparecida e Estuário, Martinho Leonardo, de 76 anos. Surpreso com a presença da espécie, ele e a esposa registraram fotos do lagarto. A espécie já é uma “velha conhecida” dos pesquisadores e não faz parte da fauna nativa da região, como explica o biólogo Ricardo Samelo, responsável por identificar a presença do animal na Baixada Santista. Segundo ele, o lagarto foi identificado na Baixada Santista em 2014, após o primeiro avistamento no bairro da Alemoa, em Santos. Na época, a presença do animal foi registrada como uma espécie exótica no litoral de São Paulo. Após a coleta de alguns exemplares, os pesquisadores realizaram uma análise genética da espécie em parceria com universidade de Nova York (EUA). Foi nesse processo que identificaram o animal como o Anolis porcatus. Desde então, de acordo com o biólogo, o lagarto cubano vem ampliando seu território e já foi encontrado em cidades como São Vicente, Praia Grande, Cubatão e Guarujá. Agora, a espécie também começa a aparecer em Mongaguá e Bertioga. “Ele se adaptou bem ao ambiente urbano, é comum encontrá-lo em muros, telhados e quintais, mas geralmente associado à vegetação. Se a casa tem árvore ou jardim, é mais comum a presença dele”. Lagarto cubano A espécie também chama atenção pela capacidade de mudar de cor, o que faz muita gente confundi-la com um “camaleãozinho”. No entanto, Ricardo Samelo esclarece que os animais nem sequer são parentes próximos. A coloração do lagarto pode variar entre um marrom bem escuro e um verde claro intenso. “Os machos desta espécie possuem um ‘papo’ de cor rosa avermelhado, e quando estão cortejando fêmeas ou defendendo território, eles expõem essa prega de pele, que lembra um leque”, explica. A espécie de lagarto já é uma “velha conhecida” dos pesquisadores e não faz parte da fauna nativa da região, como explica o biólogo Ricardo Samelo (Arquivo pessoal) O lagarto cubano oferece risco? O lagarto cubano não oferece riscos às pessoas e é considerado inofensivo. Samelo pontua que a espécie não possui peçonha, nem qualquer tipo de veneno. “O único risco é a contaminação por salmonela se manuseados, mas isso não é exclusivo deles. Répteis e aves em geral são reservatórios desta bactéria, pois ela faz parte da microbiota intestinal deles. Sendo assim, manusear o animal não é recomendado”, complementa. Segundo o biólogo, a principal preocupação em relação ao lagarto cubano está ligada ao ambiente natural que pode ser ocupado pela espécie, especialmente áreas da Mata Atlântica. “Se ele encontrar condições e tiver sucesso em ambientes florestais, pode competir com a fauna nativa e aí sim causar problemas ambientais. No momento, seguimos monitorando a dispersão, e enquanto ele está em ambiente urbano não oferece risco, pois acaba se comportando como uma lagartixa, com hábitos alimentares parecidos, se alimentando majoritariamente de insetos encontrados em nossas casas, praças e demais áreas urbanas. A lagartixa comum de parede também é um lagarto exótico, ou seja, não é nativa do Brasil”, explica o biólogo. Como o lagarto chegou à Baixada Santista? O biólogo acredita que o lagarto cubano tenha chegado à Baixada Santista de forma "clandestina, pegando carona” em contêineres que passaram pelo Porto de Santos. Pequenos e ágeis, os animais conseguem escalar superfícies lisas e se esconder em frestas, o que pode ter facilitado a travessia despercebida durante o transporte marítimo. “As análises genéticas realizadas em 2015 mostraram que os animais que estão aqui no Brasil são mais próximos geneticamente a populações do oeste de Cuba (La Habana, Matanzas e Pinar del Río), mas também apontaram semelhança com animais da região de Coral Gables na Flórida (EUA), onde esse lagarto já se encontra como invasor. Então, a introdução em nosso país pode ter como origem os EUA ou Cuba, ou quem sabe ambos”, conclui o especialista.