[[legacy_image_159163]] Uma área pertencente a Santos e que ocupou o noticiário da imprensa local até o início dos anos 2000 volta a ser pauta: a Vila dos Criadores, localizada já na saída da Cidade, onde durante três décadas funcionou o antigo Lixão da Alemoa. Ali vivem cerca de 4 mil pessoas, número que cresce sem controle e de forma irregular. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! O Lixão da Alemoa foi desativado pela Prefeitura de Santos em 2002, e parte das famílias que viviam da comercialização e do consumo do lixo na Vila dos Criadores foi transferida ao conjunto habitacional do Ilhéu Alto, na Zona Noroeste. Parcialmente desfeita, a vila voltou a ser ocupada ano a ano. Hoje, a taxa de crescimento de habitações irregulares ali é de 6,9% ao ano. Também em 2002, a Justiça condenou a Prefeitura de Santos a desocupar totalmente aquela área e recuperar o meio ambiente, tanto o solo quanto o lençol freático, ambos contaminados pelos efluentes do lixo ali depositado durante décadas. Depois de dez anos com recursos transitando nas esferas judiciais, a ação chegou ao fim em 2012, com a condenação da Prefeitura. Mas nada foi feito desde então. [[legacy_image_159164]] Há dois meses, a Justiça local adotou uma iniciativa inédita na região que busca dar fim à questão e fazer cumprir a sentença. Fernanda Menna, titular da 1ª Vara da Fazenda Pública de Santos, criou uma Câmara Judicial, instrumento previsto na lei e que busca estabelecer um plano de ação a partir de encontros e discussões envolvendo todas as partes, inclusive moradores da Vila dos Criadores. Da câmara, fazem parte secretarias e conselhos municipais, Cohab, Defesa Civil, Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico, o Núcleo de Justiça Restaurativa do Judiciário e arquitetos e urbanistas das faculdades locais. “Depois de 20 anos da sentença proferida e sem uma solução até agora, foi preciso encontrar outros caminhos. É um balão de ensaio para tentarmos fazer uma governança pública o mais transparente e participativa possível”, afirma a juíza, que está em Santos há apenas um ano. O primeiro encontro da Câmara ocorreu no final de janeiro e outros estão programados. InérciaNo despacho que criou a Câmara, em novembro de 2021, a magistrada deixa registrados os motivos que levaram à adoção dessa medida: “Há um estado de coisas inconstitucional, caracterizado pela irresponsabilidade organizada no funcionamento da estrutura administrativa institucional vigente, que tem se mostrado, de forma patente, inerte, ineficiente, inefetiva à salvaguarda socioecológica, tanto da natureza quanto das famílias que residem em área de extremo risco, nada obstante ao já antigo comando jurisdicional vigente, descumprido”. FrentesO trabalho foi dividido em três frentes: social, ambiental e urbanística. Cada uma tem como lição de casa reunir e compartilhar informações que facilitem, ao final, a tomada de decisão. “Precisamos saber ao certo quais são os riscos a que essas famílias estão expostas. O grupo social vai trabalhar mais com a comunidade, conscientizando sobre esses riscos. Agora, há um elemento a mais, que é a necessidade de expansão do Porto, com todos os riscos tecnológicos que pode representar a presença de pessoas ali. É uma área ingrata para ser ocupada por pessoas”. O primeiro encontro ocorreu no fim de janeiro. “Foi um encontro de apresentações. Todos puderam falar, se apresentar e expor as suas demandas”, diz. Os representantes da Vila dos Criadores acrescentaram um risco ao quadro já complexo: o acesso à vila, feito por um único caminho. “Se há um incêndio ou uma necessidade de esvaziar o local rapidamente, será uma tragédia”. [[legacy_image_159165]] A prefeituraEm nota, a prefeitura de Santos diz que vai reforçar o monitoramento da área por meio da aquisição de novas tecnologias (mapeamento por satélite) e com apoio da Polícia Militar. “A Prefeitura já encaminhou para a Câmara projeto de lei que prevê a criação de Operação Delegada com apoio da Polícia Militar Ambiental, que poderá ampliar e dar apoio às ações da Guarda Civil Municipal visando o congelamento de áreas irregularmente ocupadas”. A Prefeitura afirma também que, após a desativação do antigo lixão, a Companhia Ambiental do Estado (Cetesb) solicitou à Prefeitura a análise detalhada da qualidade do solo e da água no local. “O trabalho, que é composto de várias fases, foi iniciado em 2002 e concluído neste ano. A análise de risco (última etapa) apontou risco para ingestão de água subterrânea (ou seja, sem risco às famílias que ocupam a área). O trabalho já foi entregue à Cetesb, que atualmente analisa os resultados, inclusive, com o apoio do Município”.