[[legacy_image_245339]] “Acordava às 7 horas para ir para o cursinho e só ia parar de estudar meia-noite”. Com uma rotina árdua de 17 horas de estudo por dia, durante três anos, Marya Teresa Ribeiro, de 20 anos, realizou o sonho de entrar no curso de Medicina na Universidade de São Paulo (USP). Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! A conquista da vaga no curso mais concorrido do Brasil só foi possível graças à rede de apoio da estudante: os pais, que trabalhavam como porteiro e faxineira e nunca fizeram faculdade. “Quando abri a lista da primeira chamada e vi o meu nome eu fechei a lista, abri de novo e outra vez vi meu nome. Fechei e abri pela terceira vez mas não acreditava que o sonho era real”, relata a estudante. Ela diz que “só foi cair a ficha” quando os veteranos do curso mandaram mensagens parabenizando-a. “Rotina puxada” Marya fez três anos de cursinho preparatório para o vestibular com bolsa de 100%. Os dois primeiros estudava online mas no último ano, em 2022, começou a ir presencialmente. “Tinha que pegar ônibus porque eu moro na Zona Noroeste. O curso terminava às 22h e eu tinha que sair correndo porque meu ônibus passava às 22h10. Aprendi a atravessar a Conselheiro Nébias (avenida onde o cursinho está localizado) em 3 minutos para não perder ele”. Mesmo quando ela chegava no terminal, onde precisava esperar uma hora para pegar outro ônibus que a levaria para casa, a estudante aproveitava para estudar e fazer o máximo de exercícios que podia. “Eu só chegava em casa às 24h e no dia seguinte tinha que acordar cedinho para ir para o cursinho às 7h da manhã. É uma rotina puxada”, conta Marya. Além de estudar esperando o ônibus, uma das estratégias da estudante era preencher as paredes do quarto com fórmulas e mapas mentais. “Se você fosse no meu quarto iria ver minha parede inteira coberta de papel. Meu guarda-roupa também tinha fórmulas de química grudadas. Onde eu fosse olhar, no meu quarto, tinha alguma coisa para memorizar”. [[legacy_image_245340]] Trajetória Aos 17 anos, quando ingressou no cursinho com bolsa integral, Marya, que tinha como base o ensino médio de uma escola pública, percebeu que a sua escolha por medicina tinha a levado para “outro mundo”. “No ensino médio meu professor de física me ensinou três fórmulas em três anos e eu achava que era só isso. No cursinho comecei a estudar sobre polia, sobre o coração dos animais e pensei: caramba, tem muita coisa”, relata. Naquele ano a estudante prestou para Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest), realizadora dos exames vestibulares de admissão na Universidade de São Paulo, mas não passou. Em 2021 decidiu fazer mais um ano de cursinho, ainda com a bolsa de 100% e a mesma rotina de estudos. “Eu estudei bastante e consegui passar para a segunda fase. Infelizmente não consegui entrar na Universidade mas eu não desisti, faltava muito pouco”. A rede de apoio “Meus pais no início tiveram um pouco de medo por conta de Medicina ser muito fora da nossa realidade, principalmente financeiramente”, explica Marya Teresa Ribeiro. Seus pais são aposentados por invalidez: a mãe era faxineira e precisou trabalhar devido a um atropelamento de carreta. O pai era porteiro mas foi afastado por utilizar prótese na coluna. Apesar do receio, Marya conta que eles nunca deixaram de apoiá-la. “Sempre tive uma rede de apoio muito forte muito firme e isso me ajudou bastante a continuar, principalmente nos momentos que eu estava muito cansada, triste, ou quando eu recebia uma nota negativa, porque foram 17 nãos antes do meu primeiro sim”. Com a rotina puxada e corrida, Marya reservava os domingos para ir à igreja e, de acordo com ela, esse era o momento em que desestressava. “Me ajudou muito”, admite.