Bianca, jovem de 19 anos, assiste à peça do espetáculo Mirada, do Sesc Santos (Reprodução/Redes Sociais) Um espaço que deveria ser de acolhimento virou palco de um episódio de discriminação no festival Mirada, promovido pelo Sesc Santos. A jovem Bianca Negro Drummond, de 19 anos, pessoa com Transtorno do Espectro Autista (TEA), conta que foi alvo de um grupo de jovens que estava na plateia da peça 'O Estado do Mundo (Quando Acordas)', no Teatro Guarany. O grupo se incomodou com a audiodescrição do espetáculo que a equipe do Projeto Tamtam proporcionava à jovem autista e passou a atacá-la de forma debochada para que eles se calassem. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O episódio de intolerância aconteceu no dia 7 de setembro, um sábado. Por conta da neurodivergência, a jovem possui algumas estereotipias características do transtorno, como a gesticulação e a fala. No entanto, a apresentação da peça era voltada, justamente, para promover a acessibilidade às pessoas com TEA, como Bianca. “Eu tenho mais de 20 anos de profissão, trabalho no projeto desde muito jovem e foi uma das poucas vezes que presenciei uma situação de discriminação tão nítida”, diz Thays Ayres, psicologia do Tamtam que acompanhava a jovem autista na ida ao teatro. O que são estereotipias? Estereotipias são movimentos repetitivos que podem ser comuns em casos de autismo, pois são uma forma de autorregulação da pessoa com TEA. Em outras palavras, é assim que elas lidam com a sobrecarga se estímulos sensoriais, e a recomendação é que as estereotipias não sejam reprimidas: pelo contrário, elas servem para o propósito de ajudar a pessoa a regular suas emoções. “É algo extremamente normal dentro do quadro dela, e ela não estava sendo nem um pouco incomodativa, e ainda que fosse, é o jeito dela. A pessoa é assim em todos os lugares”, relata Thays. A psicóloga explicou para A Tribuna que Bianca costuma gesticular e falar bastante, e isso, junto à audiodescrição proporcionada pela equipe do Tamtam, pareceu incomodar o grupo de jovens. O TEA faz com que a menina tenha dificuldade em se concentrar na peça, então uma das técnicas do Tamtam sentou ao lado dela para ir explicando, em voz baixa, o cenário e o texto do espetáculo. Tudo isso, inclusive, faz parte da proposta de acessibilidade da peça do Sesc. No entanto, um grupo de pessoas que estava sentado nas fileiras próximas começou a se incomodar com a presença de Bianca e da equipe do Tamtam ali. Por isso, começaram a fazer barulhos de “shiu” cada vez mais insistentes e altos. A situação piorou após o fim do espetáculo. No salão do teatro, os jovens fizeram questão de reafirmar sua postura discriminatória contra a autista, dizendo, em alto e bom som, frases como “mando calar a boca mesmo”. Diante dos repetidos ataques, Thays conta que tentou conversar com os jovens para explicar a situação, mas foi recebida com hostilidade. “Falei: ‘gente, vocês sabiam que essa é uma sessão acessível? Que as pessoas podem estar onde elas quiserem, essa jovem tem TEA e pessoas com TEA tendem a ter gestos e falas estereotipadas, a concentração um pouco mais complexa. Mesmo assim, eles ainda retrucaram. Não consigo achar uma palavra melhor porque foi até infantil. Falaram: ‘Como assim, sessão acessível? Teatro tem que fazer silêncio’”. Fachada do Sesc Santos (Rua Conselheiro Ribas, 136, Aparecida) (Divulgação/ Sesc Santos) “Pessoas tóxicas” Durante o episódio de discriminação, a psicóloga conta que a equipe do Instituto Tantam tentou preservar Bianca. Ainda assim, a jovem ficou abalada. “Eu fui falar com eles sozinha, mas ela percebeu porque ela não é boba. As pessoas percebem quando acontece alguma coisa com elas. Ela ficou com uma cara muito assustada, muito triste, porque é toda uma vida sofrendo isso”, revela Thays. Adriana Negro, a mãe de Bianca, conta que percebeu que algo de errado tinha acontecido logo quando foi buscar a filha no teatro por causa do semblante da menina. “Ela estava com uma carinha. Perguntei se estava tudo bem, se ela não tinha gostado da peça. Ela me disse: ‘Não, mamãe. É que tem muitas pessoas tóxicas aqui, muito, muito ruins’”, conta. Ela conta que Bianca é apaixonada por cinema e teatro, e consome bastante conteúdo sobre o assunto. É comum, por exemplo, que ao assistir um filme ela converse sobre os produtores e dubladores da obra com alguém próximo. Por isso, já aconteceram episódios de discriminação similares no cinema, mas nunca em uma sessão acessível. “Ainda bem que eu não estava presente na hora, porque a gente, como mãe, fica meio leoa. A gente não tem nem palavras polidas para falar numa hora dessas, a gente perde a cabeça”, diz Adriana. Uma sessão de teatro com acessibilidade usa até luzes mais amenas para a iluminação cênica justamente para não correr o risco de superestimular pessoas que sofram com alguma condição como o autismo. “Às vezes, acho que falta muito a inclusão. A gente fala, fala, fala tanto, tenta bater tanto na tecla, e a Bianca já passou por muita coisa. Eu estou até calejada”, desabafa a mãe. “Parece que a inclusão vai até a hora que incomoda a pessoa. Se incomodou, ela não quer mais saber o que o outro está sentindo”. Adriana destaca que ela e o marido criaram Bianca de forma que ela tivesse ciência tanto da sua condição quanto de seu potencial de viver da maneira que quiser, independente do TEA, e é frustrante para a filha viver situações de preconceito. “Ela tem a noção de que precisa ter acessibilidade e inclusão, e ela sabe que ela é especial. Às vezes ela quer dar um abraço, por exemplo, e a pessoa que não conhece não entende nada. Ela fala: ‘Eu sou especial, você não quer meu abraço especial?’. Então, ela tem noção, e naquele dia ela falou: ‘Mãe, como tem pessoas ruins no mundo, não é?’”. Sesc Santos fez postagem educativa e se solidarizou com Bianca e familiares (Reprodução/Redes Sociais) Parceria com o Sesc A ONG Tamtam foi contratada pelo Sesc Santos para produzirem juntos uma série de vídeos sobre o trabalho de inclusão por meio da arte e da cultura. “O @sescsantos contratou nossa Instituição para participação profissional nesta edição, oportunizando que jovens com Deficiência, Transtornos e Síndromes fossem coautores na realização de vídeos pensados conjuntamente”, diz a nota do projeto, que repudia a discriminação praticada contra Bianca. Segundo Renato di Renzo, arte educador, pedagogo e um dos idealizadores e presidente do Tamtam, a proposta inicial do projeto era que a nota de repúdio fosse publicada em colaboração com o Sesc. “Ele se negou, e pediu para ficarmos à vontade para fazer a nossa própria publicação, e foi o que fizemos”, disse di Renzo para A Tribuna. Sobre o episódio de discriminação, ele comenta que foi uma surpresa para a equipe do Tamtam ali presente. “Foi uma surpresa, um choque muito grande, quando em uma apresentação de espetáculo teatral, inclusive uma sessão inclusiva, fomos surpreendidos com um ‘cala a boca’”, diz. Di Renzo ainda destacou a postura dos jovens ao serem abordados pela psicóloga do projeto após a apresentação. “Ela tentou falar com essas pessoas e também foi ridicularizada. ‘Mandamos calar a boca sim’, foi isso que ela ouviu”. Ele ainda afirma que a nota emitida pelo Tamtam nas redes sociais é um “puxão de orelha” tanto para o Sesc quanto para a cidade de Santos “Vivemos a diversidade e de repente somos surpreendidos com esse tipo de atitude num lugar que se diz de excelência, em um festival que se diz de excelência. Não podemos conviver com esse tipo de atitude, de pessoa. Não vamos nos calar”, disse ele para A Tribuna. “Falamos de inclusão, mas vão vivemos a inclusão. Esta é a grande verdade, então essa é a nossa nota e o nosso repúdio”. O Sesc, apesar de ter negado a colaboração com o Tamtam, repostou a nota emitida pela ONG e fez uma publicação educativa própria para falar do significado do símbolo do quebra-cabeça, usado para representar o TEA. No texto do post, a instituição reafirma a parceria com o Tamtam e reforça o compromisso com a diversidade, além de expressar solidariedade à Bianca e a sua família. A instituição também enviou uma nota para A Tribuna onde comenta o episódio do dia 7 de setembro. “Sentimos profundamente pelo acontecido e expressamos nossa solidariedade à jovem e sua família, e às pessoas atingidas enquanto reforçamos nosso compromisso para promover relações mais inclusivas”, começa o texto. A nota afirma que o Sesc, como instituição de educação não formal, acredita que uma das maneiras de mobilizar para a questão atitudinal é apresentar para o público o que é acessibilidade — além de promover a diversidade no convívio entre todas as pessoas. “O MIRADA, as diversas programações do Sesc, assim como suas equipes estão atentas às questões de diversidade e se orientam sempre nos eixos do respeito, acolhimento e cuidado das individualidades. Sabemos que é um trabalho contínuo de escuta e qualificação de ações educativas e, para isso, contamos com parcerias como a do TAMTAM, para ampliar o alcance sempre de modo a enfrentar a exclusão e celebrar o acesso”, finaliza o texto.