Monumento na Praça Independência, no Gonzaga, é homenagem aos Andradas em Santos (Alexsander Ferraz/ AT) Em 13 de junho de 1763, nascia em Santos, no litoral de São Paulo, José Bonifácio de Andrada e Silva. Mais de dois séculos depois, em um mundo que discute mudanças climáticas, desigualdade social, educação pública e inclusão, muitas das ideias defendidas pelo santista continuam surpreendentemente atuais. Conhecido como Patriarca da Independência, ele ajudou a construir o Brasil como nação, mas deixou um legado que ultrapassa a política. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Nos livros de História, José Bonifácio costuma aparecer ao lado de dom Pedro I durante o processo de Independência. Foi dele uma das mensagens enviadas ao príncipe regente às vésperas do Grito do Ipiranga. “O dado está lançado e de Portugal não temos a esperar senão escravidão e horrores”. Segundo historiadores, sua atuação foi decisiva não apenas para a ruptura com Portugal, mas também para a manutenção da unidade territorial brasileira, em um período de disputas e interesses regionais. Porém, reduzir José Bonifácio ao papel de articulador da Independência significa ignorar uma trajetória marcada por contribuições muito mais amplas. O cientista que ‘viu’ o futuro Antes do estadista, Bonifácio já era reconhecido internacionalmente como cientista. “Ele descobriu vários minérios, dentre os quais um que dá a condição do celular existir”, conta Arlindo Salgueiro, fundador do Movimento Pró-Memória de José Bonifácio. Entre 1800 e 1808, o santista descobriu e classificou minerais como a petalita e o espodumênio, dos quais posteriormente seria extraído o lítio. Hoje, o elemento é essencial para a fabricação de baterias de celulares, computadores, veículos elétricos. Por essa contribuição, é considerado o único cientista brasileiro associado à introdução de um elemento na tabela periódica. Além disso, seu prestígio acadêmico foi tamanho que a Universidade de Coimbra, em Portugal, criou especialmente para ele a cadeira de Mineralogia. Antes da ecologia Bem antes do mundo discutir sustentabilidade, José Bonifácio já alertava para os riscos da destruição ambiental. Em um artigo publicado em 1823, escreveu que as florestas brasileiras desapareciam (veja abaixo). Salgueiro destaca que sua visão ambientalista era considerada revolucionária para o período. “Ele é o primeiro a levantar essa questão de que é preciso conservar as matas ciliares para evitar a erosão dos rios. Ele fez a correção da foz para evitar alagamentos em Coimbra (Portugal). Nós ficamos sabendo, recentemente, que graças a essa intervenção dele na época, é que o rio não alaga a cidade”. Humanista à frente do tempo Bonifácio acreditava que a formação de uma nação forte dependia do ensino público de qualidade. “Sem cidadãos conscientes, não se cria uma democracia”, afirma Salgueiro. Influenciado pelos ideais iluministas que conheceu na Europa, ao retornar ao Brasil, em uma época marcada pelo preconceito racial e pela exclusão social, Bonifácio defendia o fim da escravidão e a integração entre os povos que formavam o País. “A música do negro era banida. Ele defendia a manifestação cultural do negro. Dançava o lundu (dança africana proibida pela Corte Portuguesa), defendia a miscigenação como riqueza”. Como deputado, apresentou projetos de reforma agrária e para a emancipação da população escravizada, porém, enfrentou resistência. “Seus projetos foram rechaçados pela elite, pelos latifundiários. Ele foi derrotado e exilado”. Fim silencioso Durante o exílio, pouco mais de um ano após a proclamação da Independência, José Bonifácio morou em Bordeaux e Talence, na França. Posteriormente, retornou ao Brasil, em 1831, onde recebeu autorização para ser tutor de dom Pedro II. Em 1833, foi demitido pelo governo e permaneceu recluso na Ilha de Paquetá, no Rio, até sua morte, em 6 de abril de 1838. O santista recusou títulos de nobreza e honrarias. Em seu testamento, pediu uma lápide com a inscrição: “Eu, desta glória, só fico contente que a minha terra amei, e à minha gente”.