Incentivada pela neta, idosa se forma em curso universitário aos 77 anos: 'Quero continuar!'

Ela passou um ano no programa Universidade Aberta para Pessoas Idosas, da Unifesp. Agora, pretende continuar estudando

Por: Izabelly Fernandes  -  02/12/23  -  06:04
Ela passou um ano no programa Universidade Aberta para as Pessoas Idosas, da Unifesp. Agora, pretende continuar estudando
Ela passou um ano no programa Universidade Aberta para as Pessoas Idosas, da Unifesp. Agora, pretende continuar estudando   Foto: Sílvio Luiz/AT

Quem define quando é hora de recomeçar? Para Marilda Duarte de Carvalho, de 77 anos, o empurrãozinho da neta Giovana Carvalho de Oliveira, de 23, foi imprescindível para que ela percebesse o momento. Após mais de meio século sem se sentar em bancos escolares, Marilda se formou sexta-feira (1°) em um curso universitário.


Marilda ingressou no programa Universidade Aberta para as Pessoas Idosas (Uapi) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), no começo do ano. Ela, que tinha completado o antigo colegial (Ensino Médio), sempre foi amante dos livros. “Eu me casei e tive filhos muito cedo, mas nunca abri mão da leitura.”


Por isso, Giovana fez de tudo para incentivá-la a voltar aos estudos. A jovem, que cursa Psicologia na Unifesp, conta que conheceu o Uapi por uma amiga e notou que seria uma grande chance para a avó. “Além do acesso ao conhecimento, a oportunidade ia promover a socialização dela com outras pessoas da mesma faixa etária.”


Marilda havia passado o auge da pandemia de covid-19 dentro de casa e deixou de ter o costume de sair. Por isso, quando recebeu a proposta da neta, ficou receosa. “Mas, durante os quatro primeiros meses, ela me levava até a porta da sala de aula. No começo, fiquei meio insegura, mas sabia que ela estava ali, me dava um apoio, e logo me acostumei e adorei”, conta.


Experiência

Mesmo com um pouco de dificuldade com a tecnologia, Marilda persistiu. Encantou-se com as discussões em sala de aula. Em uma classe com cerca de 50 alunos, a maioria mulheres, aprendeu sobre internet, sexualidade, moda, acessibilidade e tantos outros temas importantes.


“Não havia exigência de escolaridade, então, todo mundo estava aprendendo junto. Isso foi muito importante para mim, pois eu achava que não podia mais, mas estava enganada. Agora, quero continuar.”


Três gerações

Marilda sempre incentivou os cinco filhos e oito netos a estudar. Foi assim que a filha Simone Carvalho de Oliveira, de 56 anos, se formou em Fonoaudiologia. Depois de anos dedicada à família e ao trabalho, fez outra graduação na Unifesp, em Comunicação e Educação em Saúde e, posteriormente, mestrado e doutorado em Ciências da Saúde. Está prestes a iniciar o pós-doutorado.


“Minha mãe sempre está atualizada e sempre foi aberta à aprendizagem informal. Essa oportunidade fez muito bem para a autoestima dela”, diz.


Giovana fala com carinho da relação que tem com a avó. “Ela sempre cuidou muito de mim, e eu fui crescendo e percebendo que a gente se interessa por coisas parecidas. A gente, inclusive, troca livros e conversa sobre tudo. Ela é uma pessoa com quem eu me identifico muito. Eu estou muito feliz por ela, pois acho que ela pôde se sentir capaz de novo e desmistificar a visão de que é tarde demais para voltar aos estudos.”


“Eu me sinto muito feliz de ver as nossas três gerações de mulheres estarem no meio acadêmico”, comenta Simone. “Essa não é uma vitória só da minha mãe, mas de todas as mulheres da família.” Para Marilda, “essa oportunidade fez com que eu me sentisse mais viva”.


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