[[legacy_image_56628]] O operário portuário aposentado Ronaldo Cavalcante da Silva aguardava por um transplante de rim, após ser diagnosticado com insuficiência renal causada por rins policiíticos. O tempo de espera foi interrompido, pois Ronaldo faleceu por complicações da covid-19, em Santos. Dois dias depois de sua morte, a esposa dele recebeu o comunicado de que o rim de Ronaldo o esperava para cirurgia. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! A espera para o transplante era aguardada com grande ansiedade e esperança pela esposa de Ronaldo, a funcionária pública Elen Lemos Miranda. Desde o momento que o marido entrou para a fila a espera do órgão, o telefone de Elen permaneceu ligado, e com bom som, em todos os dias. No entanto, na noite em que Ronaldo foi sepultado, Elen desligou o aparelho e foi surpreendida ao acordar no dia seguinte. "Eu estou tomando remédios para poder dormir, porque não está sendo fácil, é muita dor ainda. Nessa noite eu deixei o celular no silencioso, a primeira vez em muitos dias que fiz isso. Quando acordei na manhã seguinte, vi as ligações e as mensagens do hospital. Na hora gritei, estava na casa da minha mãe, então ela, meu irmão, meus filhos foram me abraçar, me acalmar", relembra. "Na hora fiquei questionando Deus, mas depois eu parei e pensei que nós estávamos vivendo um luto. Mas que uma pessoa teve morte cerebral, uma família estava de luto e ainda assim teve um gesto muito nobre, em que uma pessoa iria receber esse rim. Então, tive que transformar a dor que foi essa notícia em gratidão. Gratidão pela vida de alguém, por essa família e pelos 30 anos vividos sendo bem feliz com ele", resumiu. [[legacy_image_56629]] Em seu perfil nas redes sociais, Elen fez uma postagem emocionante com as imagens das ligações e mensagem recebidas pelo hospital. "Onde o Ronaldo está, não precisa mais desse rim, está amparado por médicos de luz. Sinto muito também pela família enlutada do doador(a), que perdeu seu ente querido e desejo do fundo do coração muita saúde para a pessoa que recebeu este rim", escreveu. O quadro de Ronaldo se agravou consideravelmente quando em abril ele teve uma ruptura de um cisto no rim. Segundo a esposa, isso causou o desenvolvimento de uma bactéria dentro do marido, enquanto ele realizava as sessões de hemodiálise. Ronaldo faleceu na última segunda-feira (14) devido a falência múltipla de órgãos pós covid. Segundo a esposa, ouvido pelos médicos, Ronaldo contraiu o covid no início do mês de maio. Após uma piora e com 85% dos pulmões comprometidos, Ronaldo precisou ser entubado no Hospital Beneficência Portuguesa. O operário portuário já havia recebido a primeira dose da vacina contra o vírus, no dia 10 de maio, por estar em um dos primeiros grupos prioritários por questões de comorbidades "Ele foi imunizado com a vacina AstraZeneca e estava programado para receber a segunda dose no começo do mês de agosto". [[legacy_image_56630]] Descoberta e hemodiálise Em 2008, Ronaldo começou a sentir uma cólica muito forte, segundo relata a esposa. Em um momento inicial, a família acreditou que tratava-se de pedras nos rins. Após idas e vindas em dois profissionais de saúde, Ronaldo descobriu ser portador de rins policisticos, uma doença hereditária em que grupos de cistos se desenvolvem no órgão. Desde a descoberta, Elen afirmou que o marido começou a fazer acompanhamento médico e, que, teria que passar a fazer hemodiálise, para então entrar na fila de transplante. Com um plano de saúde, Ronaldo deu início a hemodiálise em 3 de abril do ano passado. Quarenta dias após o início do tratamento, a clínica onde Ronaldo passava pela hemodiálise entrou em contato com o Hospital do Rim, em São Paulo, quando em agosto ele deu entrada e fez cadastro para o tão sonhado transplante. [[legacy_image_56631]] Em fevereiro desse ano, o Hospital do Rim avisou Elen de uma possibilidade dele receber o transplante. "Fomos chamados para ir até São Paulo, mas o Ronaldo seria paciente reserva. Eram dois rins disponíveis, um para um paciente lá no hospital, e um outro para um outro paciente internado em uma outra clínica". Elen conta que a médica responsável os avisou de que eles teriam que esperar ambas as cirurgias, para saber se Ronaldo poderia receber o rim ou não, caso fosse concretizado, a casal seria dispensado. "Tudo ocorreu certo com as cirurgias, inclusive nós vimos que um dos rins iria para um rapaz, que tinha a idade do nosso filho mais velho, que fazia hemodiálise há 17 anos. Saímos de lá com um sentimento super feliz de que alguém estava conseguindo o transplante. Não voltamos tristes em nenhum momento e até comentamos de aqueles dois rins, nenhum era do Ronaldo", explica. Sempre ativo, jogador de futebol de várzea, e um amante do mar, sempre cuidadoso com o corpo, alimentação, principalmente durante os tempos de hemodiálise, Ronaldo já deixa muitas sudades. Além de Elen, o operário portuário deixou os filhos Gabriel, Felipe e Rodrigo. "Como pai, maravilhoso. Como marido, desconheço igual. A gente se amava muito, éramos muito participativos na vida um do outro. Sempre fomos muito companheiros. Fui a primeira namorada dele, ele foi meu primeiro namorado. 30 anos de muito amor e boas lembranças", completa. [[legacy_image_56632]]