[[legacy_image_262130]] Santos, 25 de abril de 1973. De repente, o badalar do meio-dia, tão costumeiro aos ouvidos dos santistas, pareceu tocar mais triste no velho Centro. O símbolo da pontualidade britânica em Santos soava, daquela vez, de um jeito triste, agonizante, como que prevendo o fim, o ponto final de uma longa e rica história. O relógio da Western Telegraph, ou do “Telégrafo Inglês”, fora paralisado de vez, junto com as operações da própria empresa, por força de lei federal que determinou a passagem das comunicações com o exterior para a competência de uma estatal nacional. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Os ponteiros ficaram congelados, um junto ao outro, exatamente ao meio-dia, por alguns meses. O velho prédio da Western havia ganhado o belo relógio Gillett & Johnston, produzido em 1914, na época do rei George V (monarca entre 1910 e 1936), como um presente da comunidade britânica de Santos. Ele era chamado de nosso Big Ben, em função de sua superpontualidade (o maquinário trabalhava em consonância com as horas fornecidas pela British Broadcasting Company, a BBC). Porém, ali, em abril de 1973, quase 60 anos depois, ele fora friamente extinto, a exemplo do prédio, situado na Rua Antônio Prado e demolido meses depois pela Companhia Docas de Santos para o alargamento da via perimetral do Valongo. Esquecido num galpão Depois de desmontado, o relógio (mostradores, ponteiros, maquinário, pêndulos etc.) foi depositado num dos armazéns da Companhia Docas de Santos, quando ainda era uma empresa privada. E lá ficou esquecido por anos a fio, inclusive durante a passagem do comando do Porto para a União, com a criação da Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp), em novembro de 1980. Em 1992, a estatal planejou resgatar o relógio, apresentando um projeto arquitetônico para uma torre de alvenaria de 27 metros de altura. Mas o plano não avançou e o relógio permaneceu abandonado no armazém da empresa. Doze anos depois, em 2004, o vereador Augusto Zago trouxe a história à tona e pediu que a Prefeitura sensibilizasse a Codesp a retomar o projeto e devolver o patrimônio histórico à Cidade. Uma reportagem revelou as más condições das peças jogadas ao relento. Depois de vários ensaios, a ideia voltou para a gaveta. Ministério Público cobra providências Em maio de 2004, o promotor de Justiça Daury de Paula Junior solicitou informações ao Condepasa (órgão municipal de defesa do patrimônio) e à Codesp sobre o caso do relógio da Western. Em dezembro, uma reunião foi realizada entre os envolvidos, na qual a promotoria cobrou um posicionamento da Codesp sobre o aproveitamento do relógio em suas dependências. A estatal informou que não havia previsão para isso. O Condepasa sugeriu que uma entidade municipal ou privada assumisse o restauro do relógio, e a Codesp afirmou que estava disposta a doá-lo para qualquer entidade que assumisse a responsabilidade pelo seu restauro e instalação. O Rotary Club de Santos manifestou interesse em intermediar a questão, bancando a recuperação do maquinário no Senai de São Paulo. Todos concordaram que o relógio deveria ser instalado no Centro Histórico, perto do antigo prédio da Western. Surgiram ideias, incluindo um possível concurso promovido pela Associação de Engenheiros e Arquitetos de Santos. Em agosto de 2006, em uma reunião, se definiu que o Rotary responderia pela restauração e pela construção da torre para abrigar o relógio. A Codesp ficou encarregada de apontar o lugar em conjunto com a Prefeitura. Em março de 2007, o relógio foi levado às oficinas do Senai, na Ponta da Praia, para ser restaurado pelo relojoeiro Antônio Rodrigues de Lima. A previsão do trabalho era de cinco meses. Em abril, a conselheira do Rotary enviou um ofício ao Ministério Público informando que procuraria as autoridades para definir o local onde seria erguida a torre. Em maio de 2007, a Prefeitura de Santos não conseguiu definir o local da torre do relógio até a transferência dos armazéns da Codesp. Em fevereiro de 2008, houve nova reunião para encontrar uma solução, mas a área proposta ainda pertencia à União. O Rotary alertou sobre o risco de atrasos, enquanto o promotor sugeriu um espaço próximo ao local original da torre. Em junho de 2009, o Rotary precisou remover o relógio restaurado e pediu à Prefeitura um local para concluir a restauração. O galpão anexo do Teatro Coliseu foi oferecido, onde a Secretaria de Cultura criou uma escola de restauro. Em novembro de 2009, a Codesp concordou em fornecer uma área na Praça Nagasaki, na Vila Nova, por meio de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), e a promotoria cobrou soluções em quatro meses após a Prefeitura afirmar não estar ciente do assunto. Torre MetálicaEm 2010, a Prefeitura propôs uma torre metálica para o relógio na Bacia do Mercado, mas a ideia não foi aprovada. Em 2011, a Praça Nagasaki foi escolhida para abrigá-lo, mas o Rotary, financiador da obra, discordou. O Ministério Público questionou as fontes de financiamento e se o Rotary ainda apoiava o projeto. O clube confirmou seu compromisso e chegou a aprovar a torre em 2010. O Rotary cuidaria do projeto executivo e da captação de recursos. Em outubro de 2012, o Rotary aguardava detalhes técnicos da Prefeitura sobre a torre. No ano seguinte, a nova gestão municipal estudava instalar o relógio na Bacia do Mercado, mas nada aconteceu. Em abril de 2014, a Secretaria de Desenvolvimento Urbano informou que os estudos de requalificação da área envolta ao Mercado Municipal estavam em fase preliminar. Em setembro de 2014, o promotor arquivou o caso, afirmando que a sociedade, a Prefeitura e a Codesp trabalhavam juntas para resolver a preservação do relógio. Projeto de Rica Em 2012, o artista plástico Rica havia proposto uma torre elegante para o relógio, porém a ideia não avançara. Em 2017, a Codesp sugeriu que a torre de 25 metros fosse erguida na Ponta da Praia, mas a proposta também não teve sucesso. O relógio continuou esquecido na oficina do relojoeiro. No início do ano passado, o Instituto Histórico e Geográfico de Santos (IHGS) começou a colaborar com a Autoridade Portuária na questão do relógio da Western. Enquanto presidente do IHGS, fiz uma transmissão ao vivo alertando sobre o caso e defendi a proposta de Rica como atração turística. O IHGS solicitou o tombamento do maquinário e a tutela judicial para sua posse e para trabalhar seu futuro. Enquanto nada se define, a volta do Big Ben de Santos permanece atrasada, em um contrassenso à sua antiga função, que era, justamente, a pontualidade. Depois de desmontado, o relógio (mostradores, ponteiros, maquinário, pêndulos etc.) foi depositado num dos armazéns da Companhia Docas de Santos, quando ainda era uma empresa privada. E lá ficou esquecido por anos a fio, inclusive durante a passagem do comando do Porto para a União, com a criação da Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp), em novembro de 1980. Em 2012, o artista plástico Rica havia proposto uma torre elegante para o relógio, porém a ideia não avançara. Em 2017, a Codesp sugeriu que a torre de 25 metros fosse erguida na Ponta da Praia, mas a proposta também não teve sucesso. O relógio continuou esquecido na oficina do relojoeiro.