[[legacy_image_276893]] Santos, 25 de junho de 1919. O experiente e respeitado engenheiro Guilherme Benjamin Weinschenck, aos 71 anos, circulava com olhar de saudade pelos corredores do belo casarão que mandara construir, em 1902, para melhor abrigar os principais dirigentes da Companhia Docas de Santos (CDS). Da varanda do piso superior, que dava para o seu quarto de dormir, ele podia enxergar o futuro do porto santista, que estava prestes a dominar todas as margens do canal do estuário, em direção à entrada da Barra. Porém, aquela era uma tarefa para o qual ele já decidira passar o bastão. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! O velho engenheiro, pensou, já tinha dado o seu quinhão de esforço para a formação do maior e mais importante porto brasileiro, desde o assentamento da primeira caixa com 2.400 metros cúbicos de concreto, instalada entre os armazéns 4 e 5, no dia 8 de setembro de 1890, no mesmo período em que, aos 43 anos, fora contratado a peso de ouro pelos empresários Cândido Gaffrée e Eduardo Palassin Guinle, que apostaram no já renomado profissional como a figura ideal para tirar do papel a grandiosa obra projetada para Santos. Weinschenck sentou-se à frente de sua escrivaninha e, olhando para o retrato de sua doce Emília Carolina, sorriu, imaginando que estava tomando uma decisão importante, que poderia ser encarada como um presente de 40 anos de casamento. Ele iria redigir, enfim, o seu pedido de desligamento da CDS, após ajudá-la a ser tornar uma das mais respeitadas e bem sucedidas empresas do Brasil. A ideia era ficar de vez no Rio de Janeiro, onde vivia com sua família e a amada esposa. O pedido de demissão causou um grande impacto na direção das Docas, principalmente em Cândido Gaffrée, que acompanhara o trabalho de Weinschenck desde o início e confiava plenamente em sua liderança. Ainda assim, o empresário reconhecia os motivos alegados pelo engenheiro, pois ele mesma já estava cansado e desejava levar uma vida menos intensa. Destarte, de forma a compensar a perda, Gaffrée convidou Oscar Weinschenck, filho de Guilherme, para substituir o pai, assim como fez um convite ao próprio engenheiro demissionário, para que continuasse prestando serviços como consultor técnico da Companhia Docas, mantendo seus honorários. Guilherme Weinschenck aceitou o convite de bom grado, ainda mais por ter aberto caminho ao seu filho, Oscar, que trabalharia para o xará Guilherme Guinle, filho de seu saudoso patrão e amigo, Eduardo Guinle, morto em 1912. Então, antes de terminar de empacotar todos seus objetos pessoais, espalhados pelo velho casarão dos engenheiros (um deles é atualmente ocupado pelo Museu do Porto), deixando apenas o necessário para o filho levar adiante sua própria carreira na companhia, ele parou para ver uma foto em especial, emoldurada em um pequeno quadro pregado na parede. Na imagem, datada de 5 de outubro de 1901, ele se viu 18 anos antes, orgulhoso, posando ao lado de alguns modestos trabalhadores do Porto de Santos, seus companheiros de uma vida, à frente do primeiro bloco de granito de um dos maiores projetos de aterramento da história brasileira, que culminou na formação do Cais de Outeirinhos e de todo o complexo das oficinas da Companhia Docas, transformada numa verdadeira cidade paralela a Santos. A demissão de Guilherme Weinschenck foi homologada em 22 de dezembro de 1919. Cinco dias depois, Cândido Gaffrée, que não se conformara com a demissão do velho amigo, vinha a falecer no Rio de Janeiro, aos 63 anos. O engenheiro chegou a se sentir culpado, de alguma forma, pela partida prematura do seu companheiro de luta. Mas, seguiu adiante, ao lado da família, não retornando mais a Santos. Em 18 de dezembro de 1921, quase dois anos depois de ter se despedido da terra santista, Guilherme Weinschenck morreu, deixando um legado extraordinário como o principal construtor do Porto de Santos. Quem foi?Nascido na Vila do Areal, no Rio de Janeiro, em 23 de novembro de 1847, Guilherme Benjamin Weinschenck era filho do engenheiro mineralógico alemão Guilherme Weinschenck e da brasileira Maria de Gouveia Weinschenck. Ainda muito criança, foi levado a São José do Rio Preto (SP), onde fez o seus estudos primários. Ali, na sua escola primária, sob a severidade de seu mestre, o pequeno Guilherme experimentou o rigor da palmatória, o antigo instrumento de suplício dos escolares, só porque riscara a parede com fósforo colorido. Algum tempo depois, órfão de mãe, querendo o pai dar-lhe instrução superior, foi enviado para estudar em Hamburgo, na Alemanha, onde passou a viver na residência de um tio paterno. Tinha apenas 8 anos e pouco sabia da língua germânica. De Hamburgo foi para Breslau, na Silésia, onde ingressou na Escola de Engenharia de Cheminitz, concluindo o curso em 1869. Tinha 22 anos de idade e, depois de 14 anos em terras saxônicas, já dominava a língua alemã, mas praticamente esquecera o idioma pátrio. Com essa necessidade de reverter o idioma, regressa ao Brasil em 1870. Estabelecido no Rio de Janeiro, Weinschenck teve o desejo de aplicar-se à engenharia mecânica, mas resolveu dedicar-se à civil, ingressando no time técnico da antiga Estrada de Ferro Dom Pedro II (Central do Brasil), executando estudos para o setor ferroviário, em que se especializou e viajou o País. Em 1879, casa-se com dona Emília da Veiga, sobrinha-neta do jornalista Evaristo Ferreira da Veiga, grande patriota e figura de destaque no Primeiro Reinado. Com Emília, tem dois filho: Helena e Oscar. No segmento das ferrovias, trabalhou no Rio, Bahia, São Paulo, Paraná e Alagoas, construindo pontes desafiadoras e ramais que transformaram o Brasil. Sua atuação destacada chamou a atenção dos empresários Eduardo Guinle e Cândido Gaffrée, que não pensaram duas vezes antes de convidá-lo a trabalhar no gigantesco projeto do Porto de Santos. A princípio, negou-se Weinschenck a atender o convite, por julgar, pela natureza das obras que se iriam realizar em Santos, que era indispensável um engenheiro especialista com experiência no setor portuário, notando-se que, naquele porto, o problema se agravava pelas más condições de fundação. Contudo, acabou cedendo aos apelos do amigo engenheiro Jorge Street e de Melo Barreto, então presidente da Estrada de Ferro Leopoldina, e aceitou a difícil tarefa. Assim, durante os 30 anos em que dedicou sua vida ao porto santista, Guilherme Benjamin Weinschenck foi o grande maestro da formação e da transformação de Santos como um dos maiores entrepostos comerciais e marítimos do mundo. Sergio Willians é jornalista e pesquisador da história de Santos. Conheça seu trabalho no site www.memoriasantista.com.br