Armação danificada de cliente que foi chamado de "trouxa" em recibo (Reprodução/Erasmo Fonseca) A funcionária da ótica onde ocorreu um erro de digitação em um recibo entregue a um advogado de 47 anos que dizia 'cliente trouxa' em vez de 'cliente trouxe', lamentou o ocorrido. Segundo a mulher, que prefere não ser identificada, ela já precisou procurar atendimento médico por conta do estresse provocado pelo episódio. “Carrego uma culpa muito grande por esse erro”, diz. “Já fui até para o hospital do nervoso que tenho passado, porque não consigo aceitar que cometi um erro feio desses”, lamenta. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O caso aconteceu em Santos, quando a vendedora da ótica entregou o recibo ao advogado Erasmo Fonseca, de 47 anos. Ele deveria assinar para validar a troca dos óculos do filho, um adolescente de 14 anos. No entanto, no rodapé da nota, estava escrito “cliente trouxa”. Segundo a loja, o intuito era escrever “cliente trouxe” ao lado da data, 3 de outubro. “Eu entendo que trouxa é uma pessoa passada para trás, e em nenhum momento isso aconteceu. Na verdade, ele levou uma armação sem custo nenhum. Então, se eu quisesse dar um adjetivo para ele, mesmo que ruim, não seria trouxa”, defende-se a funcionária. Ela explicou para A Tribuna que já estava nervosa pela postura do cliente, que segundo ela, chegou na ótica exigindo a troca do produto de forma agressiva. “Ele já chegou ameaçando processar a loja sem a gente nem ter falado nada”, diz. Por este motivo, a funcionária achou melhor orientar a vendedora que estava atendendo o advogado a pedir para que ele assinasse o documento. “Para deixar tudo protocolado, que foi trocado e consensual entre loja e cliente”, explica. No entanto, ao ver o recibo, o cliente ficou ainda mais nervoso, mesmo após a funcionária se desculpar. “Eu falei para ele: ‘me perdoa, fui eu mesma que digitei e não era intenção de fazer um comentário negativo sobre você. Até porque esse papel nós estamos entregando para o senhor assinar. Se fosse para ofender, eu não colocaria esse papel em sua mão’”, diz. Mas o advogado permaneceu irredutível. ‘Veio para causar’ Segundo a mulher, o advogado já chegou com uma postura agressiva na loja, dando 'carteirada' — quando alguém usa uma posição de autoridade, função, cargo ou amizade para obter o que deseja. No momento em que ele chegou, a mulher não estava na loja e quem o atendeu foi uma vendedora. “Ele falou com a minha funcionária em um tom muito arrogante e agressivo, com os braços cruzados no meio da loja, falando que não importava o que a gente dissesse, ele queria que fosse resolvido porque o óculos havia quebrado”, diz. Segundo ela, a vendedora pediu ajuda justamente por conta da postura do cliente. A mulher tentou conversar com o advogado, mas ele insistiu que iria processar a loja e afirmou que anexaria um atestado médico do filho, que sofre de astigmatismo, na ação. A funcionária, então, acionou o supervisor que permitiu a troca da armação ainda que a quebra não tenha ocorrido dentro da loja. Em outras palavras, a ótica teria aberto uma exceção e fez a troca da armação por uma similar. Apesar do modelo ser diferente, ambos são do mesmo fornecedor e a diferença de preço seria abatida com a loja concedendo um saldo na ótica para o advogado. “A empresa é muito criteriosa no atendimento ao cliente; tanto que achamos melhor fazer essa cortesia de uma peça do que deixar o problema se agravar”, diz. Isso, ainda segundo a funcionária, é mais um argumento que mostra o porquê não faria sentido ela escrever “cliente trouxa” no recibo propositadamente, a fim de ofender o advogado. “Qualquer coisa que eu fizer, eu estou representando a empresa, e eu preciso trabalhar. Tentei ao máximo resolver os problemas, mas ele não veio para resolver, veio para causar”, afirma. ‘Cliente trouxa’ O advogado Erasmo procurou a ótica localizada no bairro Aparecida, em Santos, para realizar a troca das lentes do óculos do filho de 14 anos em setembro. O garoto sofre de astigmatismo e o grau ocular sofreu uma alteração. A princípio, a intenção era uma troca completa por novos óculos, mas o adolescente gostava bastante da armação antiga. No entanto, a armação quebrou uma semana após ser retirada da ótica com as novas lentes. Segundo o advogado, ela quebrou no rosto do filho, bem na junta onde fica o parafuso. “Eu entendi que como tinha mais ou menos uma semana da troca, que provavelmente a manipulação pelos funcionários na troca da lente teria forçado e colocado alguma rachadura na armação”, explicou Erasmo para A Tribuna. Ele retornou à loja em 3 de outubro para pedir a troca da armação, que havia sido adquirida no passado na mesma ótica. No entanto, como o modelo era antigo e a quebra ocorreu fora da loja, a princípio a atendente se negou a trocar o produto. Diante da recusa, o advogado disse que ia recorrer à Justiça. Após o desentendimento, o supervisor da loja foi acionado e permitiu a troca da armação por um modelo similar, o que foi aceito por Erasmo. A funcionária colocou as lentes com o grau ajustado na nova armação na própria ótica e pediu que o cliente aguardasse enquanto ela fazia a limpeza do óculos e emitia o documento de entrega. Erasmo decidiu dar uma volta no centro de compras enquanto aguardava. Quando retornou à ótica para retirar os óculos, a atendente pediu que Erasmo assinasse o recibo, porém, no rodapé do documento, estava escrito “cliente trouxa”. Revoltado e incrédulo, o advogado se negou a assinar o papel. Em entrevista para A Tribuna, Erasmo negou ter sido desrespeitoso com as funcionárias da ótica. “Eu não fui ignorante, não fui grosso. Só exigi um direito, sem grosseria ou agressividade”, afirmou. O advogado ainda disse que achou a atitude desnecessária e que vai processar a loja. “Eu pretendo entrar judicialmente para poder compensar esse dano moral que eu sofri”, afirma. Em nota enviada para A Tribuna a ótica confirmou que houve um erro de digitação e chamou o episódio de “lamentável”. Leia, abaixo, o texto na íntegra. O fato em questão, ocorreu em um documento que foi digitado na hora, no momento para o cliente assinar o recebimento da troca, e houve um erro de digitação, a frase correta seria "Troca ref OS xxxxx - Cliente trouxe 03/10/24". A data "03/10/2024" após a palavra deixa claro que seria "trouxe" e ocorreu um erro de digitação e não uma adjetivação ao cliente, o qual por sinal foi grosseiro e agressivo com as atendentes da loja e agora busca reverter a sua reprovável conduta contra uma mulher aproveitando-se de um erro de digitação. Lamentável. Ainda assim, tudo foi esclarecido no momento, a troca realizada, não havendo razão para que o cliente buscasse expor tais fatos, ainda que distorcidos, nos meios de comunicação. O departamento jurídico já estuda o caso e buscará a aplicação das medidas cabíveis.