Cachorros tratados como filhos, festas infantis que terminam à meia-noite e cafezinhos que parecem pequenos demais. Desde que trocou a Rússia por Santos, no litoral de São Paulo, no início deste ano, a família de Elmira Latypova coleciona descobertas - e algumas boas histórias - sobre os costumes brasileiros. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A russa ficou conhecida nas redes sociais depois que um vídeo de filha Safina, de 8 anos, viralizou. Na gravação, a menina se mostra surpresa após desconhecidos convidarem a família para participar de um aniversário na praia, oferecendo salgadinhos, brigadeiros e até um pedaço de bolo. Se a generosidade dos brasileiros intrigou Safina, outros hábitos também chamaram a atenção da família desde a chegada ao País. Cachorro é filho? Uma das primeiras diferenças percebidas por Elmira apareceu durante os passeios pelas ruas de Santos: a relação dos brasileiros com os animais de estimação. “O que me surpreendeu foi a quantidade de cachorros que existem aqui e o quanto os brasileiros amam os cachorros. Como cuidam deles, carregam no colo, chamam de ‘minha filha’ ou ‘meu filho’ e passeiam com eles em carrinhos”, conta. Segundo ela, essa relação é diferente da que estava acostumada a observar na Rússia. Outra característica que rapidamente chamou sua atenção foi a facilidade com que desconhecidos interagem, principalmente quando há crianças por perto. “Ainda não teve um único dia em que estivéssemos passeando pelo shopping ou perto da praia e alguém não sorrisse e dissesse: ‘Que bebê mais linda! Como ela é fofa!’.” Bebida alcoólica Um dos maiores choques culturais acabou virando motivo de risada. Durante uma festa infantil, Elmira viu um garçom passando com bebidas coloridas e resolveu experimentar uma delas. “Eu pensei: ‘Nossa, que iogurte ou coquetel diferente’. Comecei a beber. Só na metade percebi que tinha álcool.” A descoberta divertiu as mães brasileiras que estavam na festa. “Eu simplesmente não imaginava que em uma festa de aniversário infantil também pudesse ter bebida alcoólica”, conta. O horário das comemorações também causou estranhamento. Elmira ficou surpresa ao descobrir que uma festa de criança poderia começar às 19 horas e terminar somente à meia-noite. “Na Rússia, as festas de aniversário infantil normalmente acontecem de manhã ou à tarde.” Família diz que tradição na Rússia nos aniversários é bem diferente da do Brasil (Arquivo Pessoal) Cadê o café? Nem só as festas provocaram estranhamento. Elmira estava acostumada a tomar cappuccino com leite, sem açúcar, servido em uma caneca grande, de aproximadamente 400 ml. Por isso, as tradicionais xícaras brasileiras causaram surpresa. “Os brasileiros costumam tomar café em xícaras bem pequenas, de 30 ou 50 ml. Para mim, isso é muito pouco", brincou. Ela também estranhou encontrar cappuccinos mais doces do que aqueles que costumava consumir na Rússia. Depois de procurar, diz ter encontrado cafeterias onde consegue pedir a bebida mais próxima de seu gosto. Pão de queijo às 7 da manhã Se alguns hábitos causaram estranhamento, outros foram rapidamente incorporados. O café da manhã é um exemplo. Na Rússia, a família gostava de preparar blinis, uma espécie de panqueca bastante popular no país. Nos primeiros meses no Brasil, Lenar, marido de Elmira, ainda preparava o prato três ou quatro vezes por semana. Agora, o cardápio mudou. Pão de queijo e produtos frescos da padaria passaram a fazer parte da rotina. “Todos os dias, às sete da manhã, eu vou até a padaria comprar pão e outras coisas fresquinhas para o nosso café da manhã.” Já torcem como brasileiros A adaptação chegou também ao futebol. A família comprou camisetas verde-amarelas, bandeiras, bandanas e tinta para o rosto para acompanhar a Seleção Brasileira. E Elmira garante que aprendeu rapidamente uma das rivalidades mais conhecidas do futebol sul-americano. “Quando o Brasil foi eliminado da Copa do Mundo, nós, é claro, torcemos contra a Argentina. Porque eu sei que os brasileiros não gostam dos argentinos. E nisso nós estamos do mesmo lado”, brinca. ‘Fofa’ entrou para o vocabulário A língua portuguesa é outro capítulo da adaptação. Elmira faz aulas on-line duas vezes por semana com uma professora russa e aproveita os passeios por Santos para conversar com moradores e praticar. A pronúncia dos sons nasais ainda é um desafio, principalmente em palavras como “pão”. Safina, que começou a aprender português depois da mudança e hoje estuda em uma escola de Santos, já virou a “professora” dos pais. “Ela vive corrigindo eu e o meu marido, porque percebe essa pronúncia muito bem e consegue falar exatamente como os brasileiros.” Duas palavras, porém, já conquistaram definitivamente a família: “fofa” e “fofinha”. Elmira conta que as ouvia constantemente quando brasileiros se aproximavam para elogiar Mirabell, a filha mais nova, que nasceu em Santos em fevereiro. “Agora, em casa, nós também falamos: ‘Ai, fofa! Fofinha!’.” Uma casa onde se falam cinco idiomas O português é apenas uma das línguas que circulam pela casa. Elmira é da República da Basquíria, enquanto Lenar é da República do Tartaristão. A família fala russo, bashkir e tártaro. Safina também estuda inglês e, desde a mudança, português. “Dá para dizer que falamos quatro idiomas ou até cinco. E, em casa, nós misturamos todos eles quando conversamos.” No meio dessa mistura, o português ganha cada vez mais espaço — assim como os hábitos brasileiros. Poucos meses depois de chegar a Santos, a família, que ainda estranha o tamanho do cafezinho, já acorda cedo para buscar pão de queijo, torce pela Seleção e chama a caçula de “fofinha”. Sinais de que, aos poucos, um pouco do Brasil já entrou definitivamente na casa dos russos.