O eixo da governança, o G da sigla ESG — em inglês, environmental, social and governance, que significam ambiental, social e governança —, é considerado o mais complexo de ser trabalhado pelas organizações. A constatação foi obtida no levantamento Os profissionais de Administração e a Agenda ESG, realizado pelo Conselho Regional de Administração de São Paulo (CRA-SP) de 14 a 26 de junho, que contou com a participação de 311 registrados, entre administradores e tecnólogos em gestão. Essa é uma realidade para 40,5% dos profissionais entrevistados. “Não chegou a ser uma surpresa (o resultado). Embora não tenhamos um estudo anterior estruturado, conseguimos ter essa percepção nas enquetes e no contato com os profissionais, por meio dos nossos eventos e canais de relacionamento. Até aqui, a maioria dos debates externos dava maior protagonismo aos aspectos ambientais e sociais, deixando, equivocadamente, a governança menos evidente nas pautas. Por tudo isso, de alguma forma era possível prever essa percepção de maior complexidade para o G da sigla”, afirma o gerente de Relacionamento do CRA-SP, Daniel Sguerra. Ao segmentar esse tópico por idade, o estudo constatou que os profissionais que têm de 36 a 45 anos (46,9% deles) são os que mais consideram o pilar governança o mais complexo de ser trabalhado pelas empresas. Na comparação por posição no mercado de trabalho, 51,9% dos profissionais que atuam como pessoa jurídica avaliam que o eixo G é o mais difícil de ser trabalhado. E há outros dados que Sguerra fez questão de destacar. “O fato de apenas 9,3% dos entrevistados manifestarem que acreditam que exista um interesse genuíno das empresas em apoiar e estruturar ações voltadas à agenda ESG acende um alerta importante para essa percepção menos positiva das pessoas. Por outro lado, quando quase 70% deles dizem conhecer bem o tema, indica que a mensagem em si está chegando nas pessoas. Talvez o desafio maior daqui para a frente seja, de fato, ajustar o como essa mensagem chega e principalmente como ela é percebida”, argumenta. Eventos e projeções Sguerra adianta que, além dos conteúdos e levantamento produzidos, o CRA-SP se aprofundará nesse conceito durante a 15ª edição do Encontro do Conhecimento em Administração (Encoad), maior evento anual realizado pelo Conselho, que ocorrerá entre os dias 24 e 25 de setembro,com participação gratuita e on-line. A iniciativa trará como tema central O Impacto da Administração no ESG. “Outro ponto importante é que o CRA-SP está na fase final para o lançamento de um projeto cujo objetivo é fomentar a inserção do tema como componente curricular na grade dos cursos superiores de Administração e Gestão”, revela. Com base nos resultados deste estudo e os retornos obtidos com o Encoad, o órgão considera realizar novo estudo sobre o tema no próximo ano. “Se, por um lado, a percepção de complexidade pode parecer um desafio maior, por outro, ela indica que há um caminho maior para o crescimento e o fomento do tema. por isso, no balanço final, nossas projeções são positivas”, avalia o gerente de Relacionamento do CRA-SP. Mesmo basilar, eixo ‘sofre’efeitos de conflito cultural Ser um dos principais alicerces de sustentação da empresa e as dificuldades de alinhamento à cultura corporativa, ainda tradicional e hierárquica, são fatores que fazem a governança ainda ser vista como algo complicado dentro das práticas ESG, de acordo com as especialistas ouvidas por A Tribuna. Presidente da Comissão de Compliance da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em São Paulo, Flávia Filhorini Lepique observa que a governança é a arquiteta dos caminhos fomentadores do ESG. “Ela desempenha um papel crucial na liderança e na implementação das políticas ambientais e sociais, partes da sigla ESG em uma organização, garantindo a integração dessas questões na estratégia de negócios e promovendo a sustentabilidade, a transparência e a responsabilidade em todas as áreas de atuação da empresa”, detalha. Professora da FGV, Marcela Argollo lembra que ESG ainda é um tema relativamente novo, que compõe um tipo de modelo de negócio não feito antes. “Desenvolver práticas de governança inovadoras e alinhá-las à cultura corporativa ainda tradicional e hierárquica é uma tarefa desafiadora, frequentemente encontrando resistência interna devido às implementa-ções de inovações e mudanças significativas que se impõem aos procedimentos e responsabilidades dos líderes e colaboradores. Além disso, a governança é frequentemente despriorizada em relação aos aspectos ambientais e sociais do ESG, resultando em abordagens superficiais e insuficientes”, afirma. Gerente do Grupo Tribuna aponta ações contínuas Gerente Administrativo Financeiro do Grupo, José Carlos Lourenço Amakaho também responde pelo eixo Governança na empresa. Segundo ele, quatro desafios se destacam em um projeto ESG. O primeiro é a adoção de práticas de transparência e ética, para que a empresa siga com esses princípios em todas as operações, da divulgação de informações a práticas de conformidade. Depois, vêm a identificação e o gerenciamento de riscos relacionados a questões legais, regulatórias e de conformidade, assegurando que a empresa siga leis e regulamentos aplicáveis. Na sequência, Amakaho observa a necessidade de promover uma cultura organizacional que valorize integridade, responsabilidade corporativa e respeito pelos direitos humanos, com a incorporação desses valores em todas as práticas e decisões da empresa. E há o gerenciamento eficaz do relacionamento com todos os stakeholders (pessoas ou grupos afetados pelas ações de um empreendimento, projeto ou empresa), incluindo clientes, fornecedores, comunidades locais e outros grupos interessados, com comunicação aberta e transparente. “Esses desafios exigem uma abordagem estratégica e integrada, envolvendo colaboração entre diferentes partes interessadas e um compromisso com a melhoria contínua das práticas de governança corporativa”, afirma. Técnicas de superação Para superar os desafios relacionados ao eixo G, Amakaho diz ser determinante instituir mecanismos de monitoramento e avaliação contínuos para acompanhar o progresso das metas de governança corporativa e ESG, ajustando as estratégias conforme o necessário para garantir melhorias contínuas. “É fundamental também que a alta administração da empresa esteja comprometida com os princípios de governança, liderando pelo exemplo e integrando práticas sustentáveis em todas as decisões estratégicas, algo que é uma realidade histórica em nossa empresa”, completa o profissional. Ao adotar essas estratégias de forma integrada e sustentada, observa Ama-kaho, as empresas podem não apenas superar os desafios de governança no contexto ESG, mas também fortalecer sua posição como líderes responsáveis e sustentáveis em seus setores.