[[legacy_image_82324]] Tem Pfizer? Nas últimas semanas, esta é uma das perguntas mais ouvidas em Santos por quem trabalha na vacinação contra a covid-19. O imunizante norte-americano se tornou um dos queridinhos desde que começou a ser distribuído e, na Cidade, chegou a provocar filas em alguns postos. Contudo, escolher vacina é um comportamento que coloca em risco a saúde não somente de quem faz essa opção, mas de toda a população, alertam médicos e autoridades. Um enfermeiro que preferiu não se identificar e atua num dos postos de imunização na região da orla conta que cerca de metade das pessoas atendidas quer saber qual medicamento está disponível e muitos desistem quando a resposta é a CoronaVac. “O que mais a gente ouve é: vou viajar para o exterior e eles não aceitam. Nunca vi tanta gente saindo do País”. A corretora de imóveis Rosa Eleni Martins, 45 anos, explicou que a Pfizer era sua preferida, mas não desistiu de ser vacinada quando soube que não havia o imunizante norte-americano no posto procurado por ela na manhã de ontem. “Eu gostaria da Pfizer, só que não dá para escolher. Tem que tomar a que tem. O importante é apresentar o medicamento para o corpo e despertar a imunidade”. O autônomo Rodrigo Zanetti Alves, 31 anos, foi ao posto assim que abriu a oportunidade para a faixa etária dele e nem se preocupou com o imunizante que haveria. Para ele, estar vacinado é o mais importante no momento. “Quem muito escolhe, nada tem, né? Acho que essas pessoas (que escolhem) deveriam dar a vez a quem ainda não teve a chance de tomar vacina. Trabalho com o público e queria ser imunizado antes, mas esperei”. Pensar na coletividade é o outro argumento importante, de acordo com o biólogo Odair Aguiar Júnior, 46 anos. Afinal, quanto maior o número de vacinados, menor a chance de casos graves e superlotações em hospitais. “Vacina boa é vacina no braço. Imagina um local escuro e cada pessoa com uma vela na mão. A cada dose, uma vela acende e, independentemente do tamanho dela, a iluminação vai melhorando conforme todos vão se imunizando”. Conscientização O secretário de Saúde de Santos, Adriano Catapreta, explica que não há como impedir que os moradores tenham esse tipo de comportamento. Mas reitera que a prática prejudica a vacinação. “A gente não concorda com isso. A maioria dos profissionais da área da Saúde, por exemplo, tomou CoronaVac, que teoricamente teria uma eficácia menor, em torno de 60%. Mas o que vemos diariamente, nas UTIs, é que o número de internados com mais de 60 anos por covid-19 diminuiu drasticamente, mostrando a eficácia da vacina”. Escolher é um erro A médica infectologista da Unicamp e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) Raquel Stucchi afirma que escolher medicamento atrapalha o processo de vacinação, traz riscos e posterga a batalha contra o coronavírus. “Isso diminui o número de vacinados e a gente sabe que, para controlar a pandemia, precisamos de 80% da população com vacinação completa. Quanto menos vacinados, adiamos o controle da pandemia, favorecendo o surgimento de novas variantes”. Ainda de acordo com Raquel, quem escolhe vacina corre o risco de adoecer e até desenvolver uma forma grave da doença. E mais: pode transmitir o vírus a quem não teve a chance de ser imunizado. “As pessoas precisam entender que não há evidências científicas de que uma vacina seja melhor do que a outra. Todos os imunizantes aprovados para o uso e disponíveis no Brasil são eficazes e seguros”, completa o médico infectologista e consultor da SBI, Leonardo Weissmann. Explicação O Instituto Butantan informou, em nota, que a eficácia da CoronaVac foi comprovada por testes clínicos realizados com 12.500 voluntários no Brasil o que serviu de embasamento para a aprovação do uso emergencial pela Anvisa. E, de acordo com o Instituto, houve, recentemente, aprovação também da Organização Mundial da Saúde. “A eficácia global entre os voluntários estudados no Brasil é de 50,7% a 62,3% para casos sintomáticos e de 83,7% a 100% para infecções que requerem algum tipo de assistência médica”, destacou. O Butantan esclareceu ainda que o simunizante previne especialmente as formas graves da covid-19, evitando hospitalizações e mortes. “A vacinação tem caráter de proteção coletiva e não somente individual”. Ainda conforme o Butatan, não há como comparar vacinas devido á falta de estudos científicos. “Por isso, dizer que uma vacina é melhor que a outra, além de não ter embasamento científico, é um desserviço para a população e em nada contribui para o debate sobre a imunização contra a covid-19. Cada vacina é testada em condições distintas – local, perfil de voluntários etc”.